O bico-virado-fino (Xenops tenuirostris) foi coletado pela primeira vez no Centro de Endemismo Belém, em Mocajuba, no Pará, em 9 de março de 2024, na margem direita do baixo rio Tocantins. O exemplar, depositado na coleção ornitológica da Universidade Federal Rural de Pernambuco, amplia a distribuição conhecida da espécie para o leste da Amazônia brasileira e embasa modelos que projetam retração de área climaticamente adequada entre 7% e 19% até 2060.
O achado preenche uma lacuna histórica. A espécie, descrita em 1859, não havia sido documentada a leste do rio Xingu e, portanto, estava ausente do Centro de Endemismo Belém, uma das áreas biogeográficas mais fragmentadas da Amazônia.
Coleta em Mocajuba redefine limite leste da espécie
Pesquisadores coletaram o indivíduo às margens do Tocantins, nas coordenadas 2,6692° S e 49,5730° W, na borda de floresta secundária de terra firme com dossel de cerca de 15 metros. O espécime, registrado como UAST 757, apresentava íris castanha, maxila cinza-clara e mandíbula rosada na metade proximal. Autorizações do Ibama e do Comitê de Ética no Uso de Animais da UFRPE respaldaram a coleta científica.
O Centro de Endemismo Belém, delimitado por grandes rios, reúne alta diversidade endêmica e registra perda superior a 80% da cobertura florestal original em décadas recentes. A presença do bico-virado-fino nessa margem indica que barreiras fluviais não são sempre absolutas para pequenos passeriformes de sub-bosque e dossel.
🇧🇷Bico-virado-fino 🌎Xenops tenuirostris Conservação: Pouco Preocupante O bico-virado-fino é uma ave passeriforme da família Xenopidae. 📷 Anderson Sandro https://t.co/O6BElqHh5g
— Aves do Brasil (@brasil_aves) December 15, 2025
Modelos Maxent projetam retração de 125 mil a 311 mil km²
Estudo publicado na Acta Amazonica em 2025, de autoria de Geovana S. Sandes, Sidnei Dantas, Lincoln Carneiro, Rodrigo de Loyola Dias, Alexandre Aleixo, Alan Augusto Chaves dos Santos e Alexandre M. Fernandes, modelou a distribuição potencial com o algoritmo Maxent. Os autores usaram 82 registros confirmados, variáveis bioclimáticas do WorldClim e camada de vegetação do MapBiomas.
A área adequada no cenário presente (média 1970-2000), já com o novo registro, soma 1.679.762 km². Sem o registro de Mocajuba, o valor caía para 1.498.442 km². No cenário de menor aquecimento (SSP126) para 2041-2060, a perda projetada é de 125.078 km², cerca de 7%. No cenário de maior aquecimento (SSP585), a retração chega a 311.679 km², ou 19%. Áreas ao norte e noroeste perdem adequação, enquanto o centro-sul e o sudeste da Amazônia mantêm ou ampliam levemente a probabilidade de ocorrência.
A ave mede cerca de 10 cm e pesa entre 9 e 11 gramas. Forrageia no dossel em bandos mistos, sobe troncos e ramos em busca de artrópodes e emite um canto de notas agudas e uniformes. Esses hábitos discretos e a confusão com espécies congêneres explicam a raridade de registros históricos.
Áreas futuras concentram-se no arco do desmatamento
Os modelos indicam que as zonas climaticamente favoráveis no futuro se sobrepõem ao arco do desmatamento, faixa do leste e sul da Amazônia sob pressão agropecuária e madeireira. A combinação de perda climática e conversão de habitat pode reduzir ainda mais a área efetiva disponível. Os autores discutem se a espécie, hoje classificada como Pouco Preocupante pela IUCN, deveria ser reavaliada diante das projeções de contração.
O registro em floresta secundária de Mocajuba mostra que fragmentos remanescentes ainda sustentam a espécie. A continuidade de inventários nas margens do Tocantins e a proteção de corredores florestais no Centro de Endemismo Belém passam a integrar a agenda de monitoramento das populações amazônicas.
