Pesquisadores da Universidade de Kobe e da Agência Japonesa de Ciência e Tecnologia Marinha-Terrestre (JAMSTEC) identificaram que a Caldeira Kikai, supervulcão submarino localizado ao sul da ilha de Kyushu, no Japão, voltou a acumular magma novo em seu reservatório subterrâneo. O material parcialmente derretido ocupa uma faixa rasa, situada entre 2,5 e 6 quilômetros de profundidade, na mesma estrutura geológica que alimentou uma megacratação vulcânica há cerca de 7.300 anos.
A descoberta foi detalhada no artigo científico intitulado “Melt re-injection into large magma reservoir after giant caldera eruption at Kikai Caldera Volcano”, assinado pelo pesquisador e autor principal Akihiro Nagaya e publicado originalmente em 27 de março de 2026 na revista científica Communications Earth & Environment. Apesar da confirmação de que o sistema continua sendo abastecido por material vindo de regiões mais profundas da Terra, a equipe afirma que o processo ocorre de maneira lenta ao longo de milênios e não indica que uma nova supererupção seja iminente.
“Precisamos entender como quantidades tão grandes de magma podem se acumular para compreender como ocorrem as erupções de caldeiras gigantes”, afirmou Nobukazu Seama, geofísico da Universidade de Kobe e coautor do estudo, em tradução livre.
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Mapeamento sísmico de 175 km sob a Caldeira Kikai
Para investigar a estrutura abaixo do leito marinho, os cientistas realizaram um levantamento sísmico de refração marinha diretamente sobre a região da Caldeira Kikai. O procedimento utilizou um conjunto de canhões de ar comprimido — equipamentos náuticos que disparam pulsos acústicos na água — para gerar ondas sonoras que atravessam as camadas do subsolo oceânico e retornam com velocidades diferentes de acordo com a rigidez das rochas encontradas no caminho.
A leitura dessas ondas permitiu identificar uma anomalia de baixa velocidade sísmica logo abaixo do domo central de lava da caldeira. Como as ondas sísmicas se deslocam mais lentamente quando atravessam meios menos rígidos que a rocha sólida, os geofísicos conseguiram delimitar a reserva subterrânea. O modelo aponta que a câmara não é um espaço preenchido inteiramente por lava líquida, mas uma matriz composta por rocha sólida, cristais e uma fração de material derretido.
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“A localização submarina nos permite implementar levantamentos sistemáticos e em larga escala”, declarou o geofísico Nobukazu Seama sobre o método aplicado no sul do Japão.
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Os números exatos que definem a operação de mapeamento e a estrutura geológica da Caldeira Kikai incluem:
- Extensão do perfil sísmico marinho: 175 quilômetros mapeados no fundo do mar;
- Equipamentos de medição: 39 sismômetros instalados diretamente no leito oceânico;
- Fração de material fundido: entre 3% e 6% do volume total do reservatório, podendo chegar ao limite máximo de aproximadamente 10% conforme o modelo;
- Volume da erupção de 7.300 anos atrás: equivalente a um total entre 133 e 183 quilômetros cúbicos de rocha sólida expelida;
- Idade do domo central de lava: cerca de 3.900 anos de formação contínua no interior da depressão submarina.
Reinjeção de magma na estrutura da erupção Kikai-Akahoya
A principal conclusão do estudo liderado por Akihiro Nagaya e Nobukazu Seama é que o reservatório identificado não guarda apenas sobras em resfriamento da explosão ocorrida há milênios, mas passa por um processo ativo de reinjeção de material fundido recém-formado. Esse fluxo sobe de zonas mais profundas do manto terrestre e volta a alimentar a mesma câmara subterrânea que colapsou no passado. A análise química do domo central de lava que se forma no interior da caldeira há cerca de 3.900 anos reforça essa interpretação, pois aponta ligação direta com um magma novo, distinto dos resquícios da erupção antiga.
“Devido à sua extensão e localização, está claro que este é, de fato, o mesmo reservatório de magma da erupção anterior”, disse Nobukazu Seama.
A erupção do Holoceno na Caldeira Kikai e a comparação com Yellowstone
O interesse científico sobre a Caldeira Kikai decorre do histórico explosivo do local. Há aproximadamente 7.300 anos, o sistema protagonizou a erupção Kikai-Akahoya, classificada no nível 7 do Índice de Explosividade Vulcânica (VEI, escala que mede a magnitude das erupções pelo volume de material ejetado e pela altura da coluna de cinzas). O evento é reconhecido pela geologia como a maior erupção vulcânica conhecida do Holoceno, a atual época geológica da Terra, iniciada após a última grande glaciação. Quando um reservatório subterrâneo expele um volume tão expressivo de rocha e gás de uma só vez, o teto rochoso perde sustentação e afunda, criando a depressão em formato de bacia chamada de caldeira.
Segundo os pesquisadores da Universidade de Kobe, o acompanhamento detalhado do que acontece hoje sob o mar do sul de Kyushu serve de referência para decifrar os mecanismos de recarga e o comportamento de outros supervulcões formadores de caldeiras ao redor do planeta. Entre os sistemas que possuem dinâmica semelhante e podem ser mais bem compreendidos a partir dos dados obtidos no Japão estão o supervulcão de Yellowstone, localizado nos Estados Unidos, e a caldeira de Toba, situada na Indonésia.
Limitações sobre o tempo de recarga na Caldeira Kikai
Embora o mapeamento com os 39 sismômetros comprove que o sistema de armazenamento da Caldeira Kikai segue ativo e recebendo magma novo entre 2,5 e 6 quilômetros de profundidade, os dados colhidos pela Universidade de Kobe e pela JAMSTEC ainda deixam lacunas abertas. O estudo não determina com precisão em qual momento após a explosão de 7.300 anos atrás o processo de reinjeção começou. Os cientistas também não sabem a velocidade exata com que o material derretido está se acumulando no reservatório nem quanto tempo seria necessário para que o vulcão reunisse condições físicas para produzir uma nova grande erupção.
