Destino dos brasileiros: Crise no Ueno Bank no Paraguai provoca renúncia no Banco Central e retenção de US$ 850 milhõesPor Luís Henrique Costa
6 min de leitura
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O colapso financeiro do Ueno Bank atingiu diretamente o centro do poder político em Assunção e forçou a renúncia de Carlos Carvallo Spalding da presidência do Banco Central do Paraguai nesta terça-feira (3). A instituição privada, que detém cerca de 3 milhões de clientes cadastrados e a maior carteira de cartões de crédito do território paraguaio, teve as atividades operacionais suspensas após o índice oficial de solvência despencar para menos da metade do patamar regulatório mínimo exigido pela legislação bancária.
A derrocada da instituição mobilizou o Ministério Público paraguaio, que determinou a instauração imediata de processo criminal e expediu mandados de prisão contra oito pessoas ligadas à cúpula administrativa e societária da organização.
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O cenário de liquidez no país vizinho deteriorou-se com rapidez. A paralisação dos serviços culminou no fechamento das portas nas agências da capital paraguaia e de cidades do entorno metropolitano, como Ñemby. A corrida aos pontos de atendimento resultou em filas formadas desde as primeiras horas do dia por clientes particulares, correntistas comerciais e aposentados dependentes de proventos previdenciários.
O Ueno Bank centralizava a custódia e movimentação de aproximadamente US$ 850 milhões em depósitos de órgãos da administração pública. Estão represadas fatias expressivas do fundo de reserva do Instituto de Previdência Social, a autarquia estatal responsável pelas pensões do funcionalismo, além de dotações orçamentárias de secretarias e empresas mistas vinculadas ao Poder Executivo nacional.
As inconsistências fiscais e patrimoniais da instituição financeira vinham sob monitoramento preliminar de inspetores bancários. A suspeita central recai sobre manobras de triangulação ilícita de ativos para absorver carteiras de crédito podre de subsidiárias pertencentes ao Grupo Vázquez, conglomerado que detém o controle acionário do banco. A direção executiva rejeitava as acusações até que reclassificações técnicas em demonstrativos contábeis expuseram o déficit de capitalização.
Ficha da intervenção no Ueno Bank
- Instituição sob intervenção: Ueno Bank (antiga Financiera Ueno)
- Controlador corporativo: Grupo Vázquez
- Base de usuários: 3 milhões de contas abertas
- Recursos públicos sob custódia: US$ 850 milhões
- Posição no mercado de pagamentos: primeiro lugar na emissão de cartões de crédito no Paraguai
- Autoridade demissionária: Carlos Carvallo Spalding, presidente do Banco Central do Paraguai
- Medida judicial em curso: oito mandados de prisão preventiva expedidos pelo Ministério Público
- Órgão fiscalizador: Superintendência de Bancos do Banco Central do Paraguai
O caso transbordou para o gabinete do presidente Santiago Peña. A crise impôs severo desgaste à imagem de estabilidade macroeconômica sustentada pelo mandatário perante capitais transnacionais, com foco no fluxo migratório de produtores, empresários e famílias do Brasil.
O vínculo histórico entre governantes e os donos do Ueno Bank acentuou as contestações parlamentares no Congresso Nacional. Peña atuou formalmente como sócio do Grupo Vázquez até março de 2025, período anterior à aceleração dos aportes de fundos previdenciários públicos na carteira do banco digital. Paralelamente, o dirigente demissionário do Banco Central, Carlos Carvallo Spalding, liderou a gestão executiva direta da própria companhia de crédito até agosto de 2023, momento em que migrou para a chefia da autarquia monetária federal.
O mercado financeiro internacional reagiu prontamente à instabilidade regulatória em Assunção. Papéis soberanos da dívida externa do governo paraguaio e bônus corporativos em moeda norte-americana emitidos pelo Ueno Bank com vencimento estipulado para 2031 sofreram forte depreciação de mercado no pregão de terça-feira.
A fuga de liquidez alarma diretamente empresários e fazendeiros brasileiros estabelecidos na fronteira do Paraná e do Mato Grosso do Sul, contingente que transferiu parte expressiva de movimentações bancárias para plataformas digitais paraguaias nos últimos três anos sob a atração de regimes fiscais simplificados.
Linha do tempo da escalada da crise
- Agosto de 2023 — Carlos Carvallo Spalding desliga-se da administração privada do Ueno e toma posse na presidência do Banco Central do Paraguai
- Março de 2025 — Santiago Peña desfaz oficialmente sua participação societária perante as empresas de controle do Grupo Vázquez
- Setembro de 2026 — Parlamentares do Senado e da Câmara paraguaia rejeitam parecer contábil da Superintendência de Bancos e apontam maquiagem em operações de crédito interligadas
- Outubro de 2026 — Reclassificação compulsória de solvência expõe que o índice de capital do Ueno desceu para patamar inferior a 50% da margem prudencial
- 3 de novembro de 2026 — Agências amanhecem sem atendimento ao público, o Ministério Público decreta a prisão de oito investigados e Carvallo renuncia à condução do Banco Central
Santiago Peña convocou lideranças partidárias no Palácio de López para construir um canal de votação legislativa de urgência. O objetivo declarado consiste em flexibilizar a sistemática de resgate do Fundo de Garantia de Depósitos local, viabilizando repasses a correntistas pessoa física e o ressarcimento prioritário às contas da seguridade social.
O presidente paraguaio rechaçou contágio institucional generalizado na praça bancária. “Este é um caso específico de uma entidade, não do sistema financeiro nacional”, declarou o chefe de Estado, ao asseverar que os envolvidos não contarão com prerrogativas de imunidade funcional ou influência partidária durante as apurações judiciais.
A condução técnica dos ativos e a conferência do patrimônio remanescente ficarão sob intervenção direta de equipe designada pela Superintendência de Bancos. Carvallo permanecerá exercendo funções meramente burocráticas no processo de transição administrativa até a ratificação de seu substituto legal pela comissão bicameral do Congresso.
Atendimento e serviço aos correntistas e poupadores
- Proteção legal de depósitos: os correntistas pessoa física dependem da aprovação de projeto legislativo de emergência para liberação dos limites previstos pelo Fundo de Garantia de Depósitos
- Folhas de pagamento e aposentadorias: segurados do Instituto de Previdência Social que recebiam depósitos por meio do Ueno Bank serão remanejados temporariamente para a rede do Banco Nacional de Fomento
- Prazos de verificação técnica: peritos auditores do Banco Central iniciarão nos próximos dias a conferência física e eletrônica de todas as carteiras e ativos vinculados
- Encaminhamentos judiciais: cidadãos lesados com pendências de saque em terminais e meios de pagamento digitais têm canais de contestação e denúncia abertos junto à Promotoria de Delitos Econômicos em Assunção
As agências e plataformas remotas continuam sem previsão oficial de retorno regular às operações correntes.












