Polícia do Rio de Janeiro prende falso médico que atuava em home care e usava nome de outro profissional
Autoridades cariocas detiveram em flagrante um homem que se passava por médico. O caso revela uma complexa teia de falsidade e falhas no sistema de saúde domiciliar na região.
O indivíduo prestava atendimento a uma menina de dez anos diagnosticada com câncer cerebral. A genitora da paciente percebeu inconsistências em sua conduta, coletou evidências e apresentou uma denúncia à polícia.
A criança, que requer acompanhamento intensivo devido à condição avançada da enfermidade, estava sob os cuidados de um indivíduo que se identificava como Jeferson Targino Sampaio. Ele havia sido recomendado pelas prestadoras de serviço de atenção domiciliar Health Mais Cuidados e Gestão e Alpha Care Cuidados, ambas contratadas pela Unimed Nova Iguaçu, plano de saúde da família.
O impostor era recebido com confiança na residência da paciente, onde receitava medicamentos e orientava procedimentos, apesar de não possuir formação médica. Investigações policiais revelaram que ele é proprietário de uma empresa de tecnologia. Além dos atendimentos via convênio, o falso profissional também realizava consultas privadas, cobrando valores elevados.
Em uma das conversas, o falso médico cobrou: “Valor da consulta é R$ 700, mas a emissão, como você precisa de um laudo, Cintia, eu vou precisar cobrar um pouco mais. Aí fica em torno de R$ 1 mil, está bom, ô Cintia”.
Na residência da família em Nova Iguaçu, a criança já havia passado por dez intervenções cirúrgicas, sete delas cranianas, antes de iniciar o tratamento em casa. Foi nesse contexto que o indivíduo começou a atendê-la. A mãe da menina informou que a filha foi examinada por ele em cinco ocasiões ao longo de um semestre. A conduta do suposto médico levantou desconfianças na família.
O delegado Thiago Venturini Antunes explicou que “o enfermeiro foi visitá-los. E ele analisou que o extensor de gastrostomia deveria ter sido trocado dois meses atrás. Então, diante de todos esses elementos, a mãe resolveu pesquisar no CRM e verificou que a pessoa da foto aparentemente não se tratava da pessoa que estava cuidando de sua filha”.
Com as evidências coletadas, incluindo vídeos e prescrições médicas, a mãe formalizou a denúncia às autoridades. O falso profissional foi detido em flagrante em 6 de agosto de 2026.
No momento da abordagem pelas autoridades, o falso médico foi questionado sobre sua identidade. Um policial perguntou: “Qual o seu nome? Eu perguntei qual o seu nome?”. Ele respondeu: “Diogo”. Após a confirmação “Diogo? Sim”, o policial indagou: “Por que você carimba Jeferson?”.
Diogo dos Santos Serpa declarou ser estudante de medicina no instante de sua prisão.
Cintia Matheus, mãe da paciente, expressou seu alívio e frustração: “Naquele momento a gente tem misto de sentimentos. Revolta, raiva… Alma lavada. Eu tive essa sensação de alma lavada. Não por mim. Mas porque eu sabia que… Durante o atendimento ele falou que estava atendendo umas quatro pessoas de home care. Não sei se são crianças. Mas a todo momento eu pensava que tinha que fazer alguma coisa, porque eu sabia que ele não era quem ele dizia ser”.
Diogo Serpa, que usurpava a identidade de Jeferson Targino Sampaio, já possuía registros criminais entre os anos de 2023 e 2025 por falsidade ideológica e subtração de fármacos. A investigação policial também revelou que, em 2021, ele utilizou um documento de identificação médica para obter preferência na imunização contra a Covid-19. As autoridades planejam apurar de que forma as empresas de home care e a operadora do plano de saúde autorizaram os atendimentos de Diogo.
O delegado Thiago Venturini Antunes detalhou os crimes pelos quais Diogo foi detido: “Ele foi preso em flagrante por exercício irregular da medicina, falsa identidade, uso de documento público, tentativa de estelionato e causar perigo à saúde e à vida de outrem. São cinco delitos”.
As forças de segurança agora procuram por detalhes sobre o verdadeiro Jeferson. O jornalista Carlos de Lannoy conversou com Jeferson Targino Sampaio no início da noite de 7 de agosto de 2026. Ele relatou ter conhecido Diogo em 2020, em uma instituição de saúde em Belford Roxo, na Baixada Fluminense. No entanto, afirmou estar sem contato com Diogo há três anos, desde que se mudou para Santos, no litoral paulista.
Jeferson Targino Sampaio afirmou: “Não faço ideia como ele conseguiu um crachá desse. Meu carimbo também não sei como ele pode ter feito, se falsificou. Eu já fiz boletim de ocorrência, fiz uma carta que vou enviar agora para o Cremerj. Já acionei advogado para me dar suporte também, para ver o que eu posso fazer”.
A defesa de Diogo dos Santos Serpa não foi localizada para comentar o ocorrido.
A Unimed Nova Iguaçu comunicou que Diogo dos Santos Serpa não integra seu corpo clínico, e que sua ligação era com uma companhia terceirizada. Segundo a Unimed, era responsabilidade dessa empresa atestar a documentação dos profissionais. A operadora informou que está em processo de descredenciamento da empresa, além de ter registrado a ocorrência policial e notificado o Conselho Regional de Medicina.
A Health Mais Cuidados e Gestão, uma das empresas de home care envolvidas, declarou que os médicos mencionados não fazem parte de seu quadro e que a paciente não foi localizada em seus registros. A Alpha Care Cuidados, por sua vez, não se manifestou até o momento.






