O preço da cesta básica de alimentos subiu em todas as 27 capitais do Brasil entre agosto e setembro de 2026, revertendo o alívio registrado no mês anterior. Os dados da Pesquisa Nacional da Cesta Básica de Alimentos, divulgados em 9 de outubro de 2026 pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) em parceria com a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), mostram que São Paulo manteve o maior custo mensal do país, onde o conjunto de itens essenciais atingiu R$ 922,51.
O encarecimento generalizado nas prateleiras refletiu problemas climáticos nas regiões produtoras, custos logísticos pressionados por conflitos internacionais e a dinâmica do câmbio sobre produtos exportáveis e importados. Com os reajustes, o trabalhador remunerado pelo salário mínimo vigente de R$ 1.621,00 precisou comprometer, em média, 50,2% do rendimento líquido para adquirir os alimentos básicos para uma única pessoa adulta.
A alta observada em setembro de 2026 contrasta com o cenário de agosto de 2026, quando o levantamento oficial divulgado em 10 de setembro de 2026 havia apontado recuo nos preços em 25 das 27 capitais e uma média nacional de R$ 727,00. Na virada de um mês para o outro, produtos que antes ajudavam a conter as despesas domésticas, como a batata e o óleo de soja, passaram a registrar fortes elevações no varejo, somando-se à escalada do tomate e da carne bovina.
Ranking das capitais mostra onde a alimentação pesa mais no bolso
A Pesquisa Nacional da Cesta Básica de Alimentos foi implantada originalmente em São Paulo em 1959 para calcular o Índice de Custo de Vida (ICV) e, após acordo firmado entre a Conab e o Dieese, teve sua cobertura ampliada de 17 para todas as 27 capitais brasileiras a partir de agosto de 2025, servindo de base para a Política Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional e para a Política Nacional de Abastecimento Alimentar. No levantamento referente a setembro de 2026, as maiores altas percentuais concentraram-se na região Centro-Sul do país, onde a metodologia inclui a coleta de preços da batata.
Florianópolis liderou a variação mensal com aumento de 7,61%, fazendo o valor da cesta alcançar R$ 915,62, o segundo maior do território nacional. O Rio de Janeiro teve a segunda maior elevação proporcional, de 7,32%, com o custo saltando de R$ 851,19 em agosto de 2026 para R$ 913,46 em setembro de 2026, posto que colocou a capital fluminense como a terceira mais cara do Brasil.
Em São Paulo, o conjunto de alimentos essenciais subiu 2,43% na comparação mensal, passando de R$ 900,59 em agosto de 2026 para R$ 922,51 em setembro de 2026. Na ponta oposta, as capitais das regiões Norte e Nordeste registraram os menores valores nominais — em razão também de uma composição metodológica distinta, que prevê menor quantidade de carne bovina, substitui a farinha de trigo pela farinha de mandioca e não inclui a batata. Aracaju teve a cesta mais barata do país em setembro de 2026, cotada a R$ 587,76, acima dos R$ 570,98 verificados na capital sergipana em agosto de 2026. Nas cidades do Norte e do Nordeste, o custo total permaneceu abaixo da linha de R$ 700,00, com exceção de Palmas, Belém e Macapá.
- São Paulo (SP): R$ 922,51, com alta mensal de 2,43% em relação aos R$ 900,59 de agosto de 2026.
- Florianópolis (SC): R$ 915,62, com avanço mensal de 7,61%, a maior taxa percentual do país no período.
- Rio de Janeiro (RJ): R$ 913,46, com elevação de 7,32% frente aos R$ 851,19 do mês anterior.
- Cuiabá (MT): R$ 891,24, registrando acréscimo de 4,66% sobre os R$ 851,57 de agosto de 2026.
- Curitiba (PR): R$ 841,93, após subida de 5,39% no mês, acumulando 14,10% no ano e 11,43% em 12 meses.
- Vitória (ES): R$ 829,14, com reajuste mensal de 4,95%, alta de 14,02% no ano e de 11,29% em 12 meses.
- Belo Horizonte (MG): R$ 802,99 pelo levantamento conjunto da Conab e do Dieese, avanço mensal de 5,72%.
- João Pessoa (PB): R$ 660,21, com variação positiva de 2,98% no mês, 10,47% no ano e 8,07% em 12 meses.
- Aracaju (SE): R$ 587,76, menor custo entre as 27 capitais em setembro de 2026.
Outras capitais também apresentaram encarecimento expressivo entre agosto e setembro de 2026, como Porto Alegre (5,93%), Brasília (5,37%), Palmas (4,75%), São Luís (4,71%) e Goiânia (4,54%), enquanto Campo Grande registrou a menor variação mensal positiva, de 0,18%. No acumulado de 12 meses, entre setembro de 2025 e setembro de 2026, todas as 27 capitais ficaram mais caras, com taxas que oscilaram de 2,61% em Boa Vista a 15,14% em Fortaleza. Já no acumulado de 2026, de dezembro de 2025 até setembro de 2026, os preços subiram em todas as cidades pesquisadas, variando entre 3,95% em Campo Grande e 16,76% em Porto Velho.
Salário mínimo necessário chega a R$ 7.750,01 e exige mais horas de jornada
Com base no custo da cesta mais cara do país — registrada em São Paulo a R$ 922,51 —, o Dieese calculou que o salário mínimo necessário em setembro de 2026 deveria ter sido de R$ 7.750,01. Esse montante equivale a 4,78 vezes o piso nacional vigente de R$ 1.621,00. Em agosto de 2026, a estimativa do salário mínimo necessário estava em R$ 7.565,86, ou 4,67 vezes o piso oficial, após ter marcado R$ 7.687,01 em julho, R$ 8.110,92 em junho, R$ 7.999,44 em maio e R$ 7.612,49 em abril de 2026.
A estimativa mensal do Dieese leva em conta a determinação da Constituição Federal de que o piso salarial deve suprir as despesas básicas de um trabalhador e de sua família — composta por dois adultos e duas crianças, que equivalem ao consumo de um adulto — com alimentação, moradia, saúde, educação, vestuário, higiene, transporte, lazer e previdência. Enquanto o valor ideal subiu em setembro de 2026, o Projeto de Lei Orçamentária Anual (PLOA) projeta o salário mínimo oficial para 2027 em R$ 1.741,00, o que representaria um acréscimo nominal de R$ 120,00 (cerca de 7,4%) sobre os R$ 1.621,00 em vigor.
O peso dos alimentos sobre quem ganha o piso nacional de R$ 1.621,00 também aumentou quando medido em tempo de serviço e em comprometimento da renda líquida, calculada após o desconto de 7,5% da Previdência Social, que deixa R$ 1.499,43 disponíveis ao trabalhador. Na média das 27 capitais, a jornada necessária para adquirir os itens da cesta básica subiu de 98 horas e 37 minutos em agosto de 2026 para 102 horas e 11 minutos em setembro de 2026, consumindo 50,2% do salário mínimo líquido.
Em capitais com preços mais elevados, a fatia do salário absorvida pelo supermercado foi ainda maior. Em Curitiba, o trabalhador precisou dedicar 114 horas e 16 minutos de trabalho em setembro de 2026 — ante 108 horas e 25 minutos em agosto de 2026 e 109 horas e 30 minutos em setembro de 2025, época em que o piso era de R$ 1.518,00 —, destinando 56,15% do salário líquido apenas para a cesta básica. Em Vitória, a compra dos itens consumiu 55,30% da renda líquida (R$ 829,14), restando R$ 670,29 para todas as demais contas do mês.
Clima adverso no campo vira o jogo da batata e acelera o preço do tomate
O comportamento das safras agrícolas e as anomalias climáticas continuaram no centro das oscilações de preços entre agosto e setembro de 2026. Em agosto de 2026, o tomate já liderava a pressão inflacionária com aumentos médios próximos de 15% em diversas capitais por causa do inverno atípico, com temperaturas baixas e geadas pontuais que atrasaram o ciclo de maturação no Sul e no Sudeste. No mesmo período de agosto, porém, a batata havia recuado até 10% em algumas praças graças a uma colheita farta no Centro-Oeste.
Em setembro de 2026, a oferta reduzida no campo fez os dois tubérculos e hortaliças dispararem simultaneamente nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste. Nos dados detalhados de capitais do Sul, como Curitiba, seis dos 13 produtos da cesta ficaram mais caros entre agosto e setembro de 2026, puxados justamente pelo tomate, que saltou 53,71% em um único mês, e pela batata, que encareceu 41,63%. Na Bahia, onde a Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais da Bahia (SEI) apurou alta de 3,64% na cesta de Salvador (R$ 608,50), o tomate subiu 39,52% no mês.
Os grãos essenciais para o prato diário também sofreram com a transição climática. Áreas produtoras de arroz e feijão enfrentaram períodos de seca prolongada seguidos por chuvas fortes na colheita, o que reduziu a produtividade e a oferta. Como resultado, em setembro de 2026, o arroz agulhinha registrou elevações mensais como 9,27% em Curitiba e 6,78% em João Pessoa, enquanto o feijão preto subiu 1,26% na capital paranaense, ainda que o feijão carioca tenha recuado 2,13% na capital paraibana.
No setor cafeeiro, a estiagem que prejudicou a floração e o desenvolvimento dos grãos em agosto de 2026 — quando o café moído havia subido cerca de 7% — deu lugar a um leve recuo mensal em setembro de 2026 em parte das capitais, como queda de 3,48% no levantamento nacional de determinadas praças e de 0,38% em João Pessoa, além de retração na banana (-5,85% em Curitiba e -6,96% em outras capitais pesquisadas).
Entressafra, exportações e biocombustíveis pressionam carne, leite, açúcar e óleo
Nos produtos de origem animal e nas commodities agrícolas, a combinação de câmbio, demanda externa e destinação industrial alterou os preços entre agosto e setembro de 2026. A carne bovina de primeira, que em agosto de 2026 já havia subido entre 5% e 8% nos cortes de traseiro devido à valorização do dólar e ao ritmo de embarques, aumentou em 23 das 27 capitais em setembro de 2026. As maiores altas mensais ocorreram em São Luís (11,70%) e Macapá (7,52%), com recuo em apenas quatro capitais: Campo Grande (-2,47%), Maceió (-2,31%), Manaus (-1,45%) e Natal (-0,69%). Em 12 meses, a carne bovina subiu em todas as 27 capitais, de 3,78% em Brasília a 21,09% em Rio Branco, impulsionada pela entressafra — que diminui a oferta de gado para abate —, pelo maior volume exportado e pela expectativa de retomada de compras pela China.
O leite integral, que em agosto de 2026 tivera alta média de 3% atrelada ao custo da ração animal cotada em dólar, apresentou elevação em 16 capitais em setembro de 2026, liderada por Macapá (12,10%), enquanto outras 11 capitais tiveram queda, como Campo Grande (-4,28%) e Curitiba (-3,16%). No acumulado de 12 meses até setembro de 2026, apenas Campo Grande (-5,83%) teve barateamento no leite, contra fortes altas em Recife (27,60%), São Luís (21,29%) e Teresina (19,28%), embora o aumento da oferta no campo aponte menor pressão para os meses seguintes.
Dois itens que haviam caído em agosto de 2026 mudaram de direção em setembro de 2026: o açúcar e o óleo de soja. Após recuar cerca de 2% em agosto, o açúcar subiu em 18 capitais em setembro de 2026 — chegando a 5,08% em Natal e 4,17% em João Pessoa —, ficou estável em Cuiabá e Aracaju e caiu em sete cidades, como São Luís (-11,49%). As chuvas que reduziram a oferta de cana e o direcionamento da safra para a produção de etanol puxaram o preço no varejo, apesar de, em 12 meses, o item acumular queda em todas as capitais, de -4,23% em São Luís a -26,04% em Campo Grande.
O óleo de soja, que havia baixado cerca de 6% em agosto de 2026, voltou a subir em setembro de 2026 (com avanços de 0,68% a 1,52% nas capitais analisadas), pressionado pelo crescimento da demanda de óleo bruto para a fabricação de biocombustível prevista para o ano seguinte, ainda que em 12 meses o produto tenha ficado mais barato em 22 capitais, como Boa Vista (-12,25%) e Manaus (-10,88%). Já o pão francês manteve a trajetória de alta observada desde agosto de 2026 (quando subira 4%), registrando avanço como os 3,67% de João Pessoa em setembro de 2026 por causa da dependência brasileira do trigo importado e da cotação do dólar.
Cenário geopolítico eleva índice mundial da FAO e encarece logística
O movimento de alta captado pelo Dieese e pela Conab no Brasil acompanhou a tendência internacional medida pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). Em setembro de 2026, o índice de preços dos alimentos da FAO avançou 1,5% no mês e atingiu a média de 136 pontos, o patamar mais elevado em quase quatro anos, desde novembro de 2022.
De acordo com o relatório conjunto do Dieese e da Conab, a pressão global decorre tanto de eventos climáticos extremos quanto de gargalos logísticos provocados por conflitos internacionais. No mercado doméstico, essa conjuntura soma-se ao custo do transporte rodoviário e às variações da gasolina e do óleo diesel — atrelados ao petróleo no exterior e ao câmbio —, que encarecem o frete do campo até os centros de distribuição.
Fatores macroeconômicos internos, como a taxa básica de juros, também pesam na formação dos preços nas gôndolas ao encarecer o crédito para financiamento agrícola e estocagem dos varejistas. Políticas de incentivos fiscais, subsídios ao produtor e regulação de estoques públicos e do comércio exterior de commodities seguem como os instrumentos utilizados pelas autoridades econômicas para tentar conter o repasse inflacionário.
Alternativas de compra para aliviar o orçamento doméstico em outubro
Diante da virada de preços constatada nos dados de setembro de 2026, as recomendações de compra para as famílias precisaram ser ajustadas em relação ao mês anterior. Como a batata deixou a lista de quedas e subiu mais de 40% no Centro-Sul, unindo-se à alta de mais de 50% do tomate in natura, a orientação para preservar a renda é substituir o tomate fresco por polpas ou molhos industrializados, cujos preços sofrem menor oscilação sazonal, e buscar outras raízes ou legumes da estação com oferta regular.
Na escolha das proteínas, com a carne bovina de primeira acumulando alta em 23 capitais em setembro de 2026 e em todas as 27 cidades no período de 12 meses, a troca por cortes bovinos de segunda, carne de frango ou ovos reduz o gasto semanal. Já os itens que apresentaram recuo mensal em setembro de 2026 em diversas praças — como a banana, a manteiga, a farinha de mandioca e o feijão carioca em capitais do Nordeste, ou o leite integral nas 11 cidades onde houve baixa — oferecem margem para recompor a despensa.
Elaborar listas fechadas antes de ir ao supermercado, comparar valores em atacarejos e acompanhar os boletins semanais de oferta das centrais de abastecimento continuam sendo medidas práticas para contornar a carestia. Os próximos dados oficiais da Pesquisa Nacional da Cesta Básica de Alimentos, referentes à coleta de outubro de 2026 nas 27 capitais brasileiras, serão divulgados pelo Dieese e pela Conab na primeira quinzena de novembro de 2026.
