O preço do ovo no Brasil subiu quase 20% em fevereiro, e a Quaresma, período de 40 dias que antecede a Páscoa, é um dos principais fatores por trás desse aumento. Iniciada em 26 de fevereiro, a tradição católica reduz o consumo de carne vermelha entre os fiéis, impulsionando a procura por proteínas alternativas como o ovo. Dados do Índice Nacional de Preços ao Consumidor, calculado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, mostram que o produto acumulou alta de 10,49% nos últimos 12 meses até fevereiro, refletindo não apenas a sazonalidade religiosa, mas também outros desafios enfrentados pelos produtores. O custo elevado do milho, base da ração das galinhas, e as ondas de calor que afetaram a postura das aves contribuíram para encarecer o item nas gôndolas, impactando o bolso dos consumidores em todo o país.
Produtores apontam que a Quaresma sempre gera um pico na demanda, mas este ano o aumento começou antes do esperado, surpreendendo o setor. A Associação Brasileira de Proteína Animal destaca que a substituição da carne por ovos é uma tendência consolidada nesse período, enquanto o Instituto Ovos Brasil, organização que reúne empresas do ramo, observa uma retração nas vendas no atacado devido aos preços altos, embora espere uma recuperação com a continuidade da tradição. No Espírito Santo, por exemplo, a menor quantidade de negociações já pressiona por descontos, mas a expectativa é que a procura volte a crescer até o fim do período quaresmal, que termina em 13 de abril.
Além da influência religiosa, o cenário econômico também mantém o ovo em alta. Com a inflação pressionando os preços das carnes bovina, suína e de frango, o produto se consolida como uma opção acessível, tendência que pode persistir mesmo após a Páscoa. Enquanto produtores preveem uma normalização dos valores até meados de abril, analistas alertam que a combinação de menor produção de carne bovina e custos elevados de insumos pode sustentar a inflação do ovo por mais tempo, transformando-o de acompanhamento a protagonista nas mesas brasileiras.
- Alta de 20%: Preço do ovo disparou em fevereiro com a Quaresma.
- Milho caro: Custo da ração impacta produção de ovos no país.
- Calor intenso: Temperaturas altas reduzem postura das galinhas.
Impacto da Quaresma no mercado
A Quaresma, que começou em 26 de fevereiro e segue até 13 de abril, tem um efeito direto no consumo de alimentos no Brasil, especialmente entre os cerca de 120 milhões de católicos do país, segundo estimativas do IBGE. Durante esses 40 dias, muitos fiéis evitam carne vermelha às sextas-feiras e em outros dias específicos, como a Sexta-feira Santa, aumentando a procura por alternativas como peixes, frango e ovos. Esse hábito religioso eleva a demanda por ovos em até 15% em comparação com outros períodos do ano, conforme dados históricos da Associação Brasileira de Proteína Animal, pressionando os preços em um mercado já sensibilizado por outros fatores.
No Espírito Santo, a alta dos preços em fevereiro levou a uma queda nas vendas no atacado, com comerciantes relatando estoques parados e negociações em baixa. A situação gerou uma pressão por descontos, mas a expectativa é que a demanda volte a aquecer nas próximas semanas, à medida que mais consumidores recorrem ao ovo para substituir proteínas mais caras. O Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada registrou que, mesmo com a retração inicial, a tendência é de recuperação, sustentada pela tradição quaresmal que atinge seu pico próximo à Páscoa.
A surpresa neste ano foi o timing da alta. Tabatha Lacerda, do Instituto Ovos Brasil, explica que o aumento geralmente se manifesta mais tarde, mas em 2025 os preços subiram antes mesmo do início oficial da Quaresma. Isso sugere uma antecipação do mercado, possivelmente influenciada por consumidores que ajustaram seus hábitos alimentares ainda em janeiro, diante da inflação persistente de outras proteínas.
Custos de produção em alta
Além da Quaresma, os produtores enfrentam desafios que vão além da sazonalidade religiosa. O milho, principal componente da ração das galinhas, teve alta de 12% no preço médio em 2024, impactado por condições climáticas adversas e aumento da demanda global. Como o Brasil é um dos maiores exportadores do grão, a competição entre o mercado interno e externo pressiona os custos para a avicultura, que consome cerca de 70% do milho na alimentação das aves poedeiras.
O calor intenso registrado no início do ano também afetou a produção. Temperaturas acima de 30°C, comuns em regiões como o Sudeste e o Centro-Oeste, reduzem a postura das galinhas em até 10%, segundo estudos do setor. Em São Paulo, maior produtor de ovos do país, com cerca de 30% da produção nacional, granjas reportaram quedas na produtividade desde janeiro, quando ondas de calor se intensificaram. A combinação de menos ovos disponíveis e custos mais altos de ração criou um cenário perfeito para a disparada dos preços, que alcançou quase 20% em fevereiro.
A situação preocupa pequenos produtores, que têm menos margem para absorver os custos. Em estados como Minas Gerais e Paraná, responsáveis por grande parte da oferta nacional, granjas familiares relatam dificuldades para manter a produção sem repassar integralmente o aumento ao consumidor, o que pode levar a uma redução na oferta nos próximos meses se as condições não melhorarem.
Ovo como protagonista na mesa
Nos últimos anos, o ovo deixou de ser apenas um acompanhamento para se tornar uma proteína essencial na dieta brasileira. O consumo per capita no país atingiu 251 unidades por pessoa em 2024, um crescimento de 30% em uma década, segundo o Instituto Ovos Brasil. Esse aumento reflete não só a acessibilidade do produto, mas também sua versatilidade e valor nutricional, com cerca de 6 gramas de proteína por unidade, rivalizando com cortes de carne mais caros.
A inflação das carnes contribui para essa mudança. O preço da carne bovina subiu 15% nos últimos 12 meses até fevereiro, enquanto o frango e a carne suína acumularam altas de 8% e 10%, respectivamente. Diante disso, o ovo, mesmo mais caro, segue como a opção mais em conta, com uma dúzia custando em média 10 reais no varejo em março, contra 30 reais o quilo de carne moída em muitas cidades. Analistas da Safras & Mercado apontam que essa substituição deve manter a demanda aquecida mesmo após a Quaresma, especialmente em um ano de menor produção de carne bovina devido à seca prolongada no Centro-Oeste.
A percepção do ovo como alimento básico também cresce. Campanhas do setor destacam seus benefícios, como a presença de vitaminas B12 e D, e a facilidade de preparo, o que o torna atraente para famílias de todas as classes sociais. Em cidades como Rio de Janeiro e Salvador, feiras livres registraram aumento de 25% nas vendas de ovos em fevereiro, evidenciando essa nova realidade alimentar.
- Substituição: Carne cara impulsiona consumo de ovos no país.
- Nutrição: Ovo oferece 6g de proteína por unidade a baixo custo.
- Demanda: Consumo per capita subiu 30% em 10 anos no Brasil.
Preços após a Páscoa
Produtores ligados à Associação Brasileira de Proteína Animal esperam que os preços do ovo se estabilizem até o fim da Quaresma, em 13 de abril. Historicamente, o término do período religioso reduz a pressão sobre a demanda, permitindo uma queda gradual nos valores, que pode chegar a 5% nas semanas seguintes à Páscoa. Em anos anteriores, como 2023, o preço da dúzia caiu de 9,50 reais em março para 8,80 reais em maio, refletindo esse padrão sazonal.
No entanto, analistas alertam que a normalização não é garantida em 2025. Fernando Henrique Iglesias, da Safras & Mercado, prevê que os preços das carnes bovina e de frango continuarão elevados, sustentando a procura por ovos mesmo após o período quaresmal. A menor oferta de gado, resultado de abates reduzidos em 2024, deve manter a carne bovina em patamares altos, com o quilo do contrafilé ultrapassando 40 reais em algumas regiões. Isso pode evitar quedas abruptas no preço do ovo, mantendo-o inflacionado por mais tempo.
A incerteza climática também pesa. Se o calor persistir até abril, a produção de ovos pode continuar comprometida, limitando a oferta e pressionando os preços. Em contrapartida, uma eventual melhora nas condições de temperatura e uma safra de milho mais robusta no segundo semestre poderiam aliviar os custos, mas os efeitos só seriam sentidos meses depois, deixando o consumidor refém da alta no curto prazo.
Exportação e mercado interno
O Brasil ampliou sua presença no mercado internacional de ovos em 2024, com os Estados Unidos quase dobrando as importações do produto. Foram 2,5 mil toneladas exportadas até outubro do ano passado, um aumento de 90% em relação a 2023. A liberação do consumo de ovos brasileiros por humanos nos EUA, antes restrita à indústria, abriu novas oportunidades, mas também pressiona a oferta interna, já que granjas destinam parte da produção ao exterior, onde os preços são mais atrativos.
São Paulo, que responde por 30% da produção nacional, lidera as exportações, seguido por Minas Gerais e Paraná. O setor celebra o crescimento, mas o impacto no mercado doméstico é sentido, com menos ovos disponíveis para o consumidor local em um momento de alta demanda. A balança comercial positiva, com o ovo brasileiro ganhando espaço em países como Japão e México, eleva a receita dos produtores, mas também contribui para a pressão inflacionária no varejo.
A combinação de exportações recordes e consumo interno elevado cria um cenário desafiador. Enquanto o setor avícola lucra com o mercado externo, o brasileiro comum enfrenta preços mais altos nas feiras e supermercados, especialmente em períodos como a Quaresma, quando a procura já é naturalmente maior.
Cronograma da Quaresma e preços
A alta do ovo segue um calendário influenciado pela Quaresma e por fatores econômicos:
- 26 de fevereiro: Início da Quaresma eleva a demanda por ovos no Brasil.
- Fevereiro inteiro: Preço sobe quase 20% com calor e custo do milho.
- 13 de abril: Fim da Quaresma pode estabilizar valores, dizem produtores.
- Segundo semestre: Safra de milho pode aliviar custos se clima melhorar.
Esse cronograma mostra como a tradição religiosa se entrelaça com variáveis climáticas e econômicas, definindo o comportamento do mercado de ovos ao longo do ano.
Efeitos regionais da alta
Em estados como Espírito Santo e Minas Gerais, a alta dos preços gerou reações distintas. No Espírito Santo, a queda nas vendas no atacado pressionou por descontos, mas a expectativa de aumento na demanda quaresmal mantém os produtores otimistas. Em Minas, segundo maior produtor do país, granjas relatam dificuldades para atender tanto o mercado interno quanto as exportações, com o custo do milho impactando a lucratividade.
No Nordeste, como Bahia e Pernambuco, o ovo segue como alternativa às carnes mais caras, com feiras livres registrando aumento de 20% na procura em fevereiro. Já em São Paulo, o maior polo produtor, os preços refletem a pressão dupla de exportação e consumo local, com a dúzia chegando a 11 reais em algumas regiões metropolitanas. Essa variação regional destaca como o impacto da Quaresma e dos custos de produção afeta differently cada parte do país.
A situação também afeta o varejo. Supermercados em cidades como Rio de Janeiro e Brasília ajustaram os estoques, oferecendo promoções para atrair consumidores, mas a oferta limitada impede quedas significativas nos preços. Pequenos comerciantes, como feirantes, relatam que o aumento reduziu as vendas em até 10%, especialmente entre famílias de baixa renda que dependem do ovo como base alimentar.
Ovo na cultura alimentar
O papel do ovo na culinária brasileira cresceu exponencialmente. De pratos simples como ovos mexidos a receitas tradicionais como a quiche e o bolo de milho, o produto é versátil e acessível, custando menos de 1 real por unidade mesmo com a alta. Sua ascensão como proteína principal reflete uma mudança cultural, impulsionada tanto pela economia quanto por campanhas que promovem seus benefícios nutricionais.
Na Quaresma, o ovo ganha ainda mais destaque. Pratos como omeletes com legumes e tortilhas substituem refeições com carne em muitas casas, enquanto padarias aumentam a produção de pães e bolos que levam ovos para atender à demanda sazonal. Essa adaptação mostra como a tradição religiosa molda o consumo e sustenta a relevância do produto no mercado.
A percepção pública também evoluiu. Antes visto como vilão por mitos sobre colesterol, o ovo hoje é reconhecido como um alimento saudável, com estudos apontando que seu consumo moderado não eleva riscos cardíacos. Essa reviravolta fortalece sua posição como escolha prática e econômica em tempos de inflação.
Curiosidades sobre o ovo no Brasil
Alguns fatos destacam a importância do ovo no cenário atual:
- Consumo per capita atingiu 251 ovos por pessoa em 2024, maior índice em 20 anos.
- São Paulo produz 9 bilhões de ovos por ano, liderando o mercado nacional.
- Exportações para os EUA subiram 90% em 2024, com 2,5 mil toneladas enviadas.
- Quaresma aumenta a demanda por ovos em até 15% em relação a outros meses.
Esses dados ilustram como o ovo se tornou um pilar da economia e da dieta brasileira, especialmente em períodos como a Quaresma, quando fatores culturais e econômicos convergem para elevar seu valor e consumo.

