Câmara inicia debates sobre isenção de IR até R$ 5 mil com foco em compensações fiscaisPor Bruna
12 min de leitura
![]() |
A proposta de isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil mensais começou a ser debatida na Câmara dos Deputados, gerando intensas discussões sobre como compensar a perda de arrecadação estimada em R$ 27 bilhões. O projeto, enviado pelo governo federal, busca aliviar a carga tributária de milhões de trabalhadores, mas enfrenta desafios para equilibrar as contas públicas.
O relator do projeto, deputado Arthur Lira, sinalizou a necessidade de ajustes na proposta original, especialmente nas formas de compensação financeira. Ele criticou o modelo de progressão das alíquotas sugerido pelo governo, apontando que a taxação de dividendos pode não ser suficiente para cobrir o impacto fiscal.
Para viabilizar a isenção, Lira estuda medidas como cortes em renúncias fiscais e aumento da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL) para grandes bancos. Além disso, ele propõe transferências diretas a estados e municípios, que podem perder receita com a redução do imposto retido na fonte.
- Principais pontos do projeto:
- Isenção total do IR para rendas até R$ 5 mil mensais a partir de 2026.
- Desconto parcial para quem ganha entre R$ 5 mil e R$ 7 mil.
- Taxação progressiva de até 10% para rendas anuais acima de R$ 600 mil.
- Renúncia fiscal estimada em R$ 27 bilhões pela União.
Preocupações com o equilíbrio fiscal
Arthur Lira, presidente da Câmara e relator da proposta, destacou que o projeto precisa de ajustes para evitar desequilíbrios nas contas públicas. Segundo ele, a renúncia fiscal de R$ 27 bilhões exige fontes de receita robustas, e a taxação de dividendos, embora central na proposta do governo, apresenta limitações. Ele apontou que a alíquota fixa de 10% para rendas acima de R$ 1,2 milhão por ano pode não captar o potencial tributário de fortunas maiores.
O relator sugere uma progressão mais suave nas alíquotas, com aumentos graduais que reflitam melhor a capacidade contributiva dos mais ricos. Essa mudança, segundo aliados de Lira, evitaria um salto abrupto na tributação e reduziria a necessidade de restituições elevadas no ajuste anual do Imposto de Renda.
Além disso, Lira enfatizou a importância de proteger estados e municípios, que dependem da arrecadação do IR retido na fonte, especialmente de servidores públicos. Ele propôs um mecanismo de compensação direta, que dispensaria a intermediação de fundos, garantindo repasses mais rápidos e eficientes aos entes federativos.
- Medidas em estudo por Lira:
- Revisão das alíquotas progressivas para rendas altas.
- Corte de renúncias fiscais em setores econômicos.
- Elevação da CSLL para instituições financeiras de grande porte.
- Transferências diretas para estados e municípios.
Taxação de dividendos sob escrutínio
A taxação de dividendos, proposta como principal compensação pelo governo, prevê uma alíquota progressiva que atinge até 10% para quem recebe mais de R$ 1,2 milhão anualmente. Desde a década de 1990, os dividendos são isentos de Imposto de Renda no Brasil, uma exceção em comparação com a maioria dos países desenvolvidos. A proposta atual busca corrigir essa distorção, mas enfrenta resistências.
O modelo do governo estabelece que dividendos acima de R$ 50 mil mensais terão retenção na fonte de 10%. No entanto, Lira argumenta que muitos contribuintes que pagam essa taxa mensal não alcançarão o limite anual de R$ 1,2 milhão, o que geraria um volume significativo de restituições. Esse descompasso, segundo ele, sobrecarregaria a Receita Federal e poderia frustrar as expectativas de arrecadação.
Para especialistas, a tributação de dividendos é um passo rumo à justiça fiscal, mas exige ajustes para evitar impactos negativos no mercado financeiro. A proposta também inclui a taxação de remessas de dividendos ao exterior, com alíquota fixa de 10%, independentemente do valor, o que pode afetar investidores estrangeiros.

Impacto nos entes federativos
A ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda preocupa estados e municípios, que temem perdas significativas na arrecadação. Como parte do IR é retida diretamente dos salários de servidores públicos, a isenção até R$ 5 mil reduziria a receita de prefeituras e governos estaduais. Um estudo da Consultoria de Orçamento da Câmara estima que o impacto agregado para esses entes pode chegar a R$ 2,9 bilhões.
Lira propôs a criação de um mecanismo de transferência direta para compensar essas perdas, evitando que os entes federativos dependam de fundos de participação. Ele destacou que municípios menores poderiam se beneficiar da proposta, mas cidades com mais de 50 mil habitantes e estados enfrentariam dificuldades financeiras sem uma solução adequada.
A proposta também prevê que o aumento da massa salarial, decorrente da isenção, poderia impulsionar o consumo e, consequentemente, a arrecadação de impostos como ICMS e ISS. No entanto, essa compensação indireta é vista com ceticismo por governadores e prefeitos, que preferem garantias mais concretas.
Discussões com o Ministério da Fazenda
O secretário de Reformas Econômicas, Marcos Pinto, participou das discussões na comissão especial da Câmara, esclarecendo dúvidas sobre a proposta do governo. Ele defendeu a isenção até R$ 5 mil como um marco na redução das desigualdades, beneficiando cerca de 10 milhões de brasileiros. Pinto também destacou que a taxação de dividendos visa atingir apenas 0,13% dos contribuintes, aqueles com rendas superiores a R$ 600 mil por ano.
Durante o debate, deputados questionaram a viabilidade fiscal da proposta e pediram detalhes sobre os cálculos de renúncia e arrecadação. Pinto reforçou que o governo busca neutralidade fiscal, sem aumento da carga tributária geral, mas admitiu que ajustes podem ser necessários para atender às demandas do Congresso.
Lira, por sua vez, reiterou que a proposta original precisa de revisões para garantir sua aprovação. Ele planeja apresentar um relatório preliminar até o final de junho, com votação prevista para julho, mantendo um cronograma apertado para que a medida entre em vigor em 2026.
- Cronograma da tramitação:
- Reuniões com o Ministério da Fazenda: maio e junho de 2025.
- Apresentação do relatório preliminar: 27 de junho de 2025.
- Votação na comissão especial: 16 de julho de 2025.
- Início da vigência da isenção: janeiro de 2026.
Alternativas para compensação fiscal
Além da taxação de dividendos, Lira avalia outras fontes de receita para compensar a renúncia fiscal. Uma das propostas é reduzir renúncias fiscais concedidas a setores econômicos, como isenções para medicamentos, termelétricas e programas de alimentação. Essas medidas, no entanto, enfrentam resistência de grupos empresariais, que alegam prejuízos à competitividade.
Outra sugestão é o aumento da CSLL para grandes instituições financeiras, que possuem lucros elevados e já são alvo de tributações específicas. Essa medida poderia gerar bilhões em arrecadação, mas precisa ser calibrada para evitar impactos no crédito e nos investimentos.
O relator também considera a revisão de benefícios fiscais no Imposto de Renda Pessoa Jurídica (IRPJ), como a dedutibilidade de juros sobre capital próprio, que foi extinta em propostas anteriores, mas ainda gera debate. Essas alternativas visam equilibrar a proposta sem aumentar a carga tributária geral.
Reações no Congresso
A proposta de isenção do IR até R$ 5 mil tem gerado divisões no Congresso. Parlamentares da base aliada, como o deputado Rubens Pereira Júnior, presidente da comissão especial, defendem a medida como um avanço na justiça tributária. Eles destacam que a taxação de altas rendas alivia a carga sobre os trabalhadores de baixa e média renda.
Por outro lado, deputados de oposição e representantes de setores empresariais questionam o impacto fiscal da renúncia e a possível bitributação com a taxação de dividendos. Eles argumentam que as empresas já pagam impostos como IRPJ e CSLL, e a tributação adicional sobre dividendos poderia desincentivar investimentos.
Lira tem buscado um meio-termo, propondo ajustes que atendam tanto às demandas sociais quanto às preocupações fiscais. Ele enfatizou que o projeto não pode comprometer a responsabilidade fiscal, um princípio que considera essencial para a aprovação no Plenário.
- Posicionamentos no Congresso:
- Base aliada: Apoia a isenção como medida de justiça social.
- Oposição: Critica a renúncia fiscal e defende revisão da taxação de dividendos.
- Setor empresarial: Alerta para impactos na competitividade e investimentos.
- Lira: Busca equilíbrio entre justiça fiscal e responsabilidade orçamentária.
Benefícios para os trabalhadores
A isenção do Imposto de Renda para rendas até R$ 5 mil beneficiaria cerca de 10 milhões de brasileiros, segundo estimativas do governo. A medida dobraria a faixa de isenção atual, que hoje cobre salários até R$ 2.259,20, e incluiria um desconto parcial para rendas entre R$ 5 mil e R$ 7 mil.
Para trabalhadores formais, a isenção representaria um aumento na renda disponível, especialmente para a classe média baixa. O governo argumenta que essa medida estimularia o consumo e a economia, com impactos positivos na arrecadação de impostos indiretos, como o ICMS.
A proposta também mantém as alíquotas atuais da tabela progressiva do IR (7,5%, 15%, 22,5% e 27,5%) para rendas acima de R$ 7 mil, garantindo que a tributação continue progressiva. No entanto, o foco na taxação de altas rendas visa redistribuir a carga tributária, aliviando os mais pobres.
Desafios na tramitação
A tramitação do projeto enfrenta obstáculos no Congresso, especialmente pela pressão de setores econômicos e pela necessidade de consenso entre governo e parlamentares. A retirada da urgência constitucional, anunciada no início de maio, deu mais tempo para debates, mas também sinalizou dificuldades na articulação política.
Lira tem trabalhado para construir um texto que equilibre as demandas de diferentes grupos, mas a resistência de grandes bancos e empresas com investidores estrangeiros pode atrasar a votação. A proposta de taxação de dividendos, embora popular entre a base aliada, enfrenta críticas de quem teme impactos no mercado de capitais.
O cronograma prevê a apresentação do relatório preliminar em junho, mas a votação final dependerá de negociações intensas. A expectativa é que o projeto seja aprovado até o final de 2025, para que a isenção entre em vigor em 2026.
Pressão de grupos econômicos
Grandes bancos e empresas de alta renda têm se mobilizado contra a taxação de dividendos, segundo parlamentares. Eles alegam que a medida, combinada com a tributação já existente sobre o lucro das empresas, poderia configurar bitributação, desincentivando investimentos no Brasil.
Lira reconheceu a pressão, mas afirmou que a justiça tributária é uma prioridade. Ele destacou que a proposta visa atingir apenas 141,4 mil contribuintes, ou 0,13% do total, que recebem rendas acima de R$ 600 mil por ano. Ainda assim, o relator busca alternativas para minimizar os impactos no setor privado.
A mobilização de grupos econômicos também inclui lobby no Senado, onde o projeto enfrentará nova análise após a aprovação na Câmara. A expectativa é que o debate se intensifique nos próximos meses, com possíveis ajustes no texto final.
- Grupos contrários à taxação:
- Grandes bancos: Temem aumento da CSLL e impactos no lucro.
- Empresas listadas na bolsa: Preocupam-se com a atratividade para investidores.
- Investidores estrangeiros: Questionam a alíquota de 10% sobre remessas ao exterior.
- Associações empresariais: Defendem revisão para evitar bitributação.
Ajustes na progressividade
A proposta de alíquotas progressivas para rendas acima de R$ 600 mil por ano foi um dos pontos mais debatidos na comissão especial. O governo estabeleceu uma escala que começa em 0% e chega a 10% para rendas anuais de R$ 1,2 milhão, mas Lira considera essa progressão muito rígida.
Ele sugeriu uma curva mais elástica, com aumentos graduais que reflitam melhor a capacidade contributiva. Por exemplo, rendas entre R$ 600 mil e R$ 750 mil pagariam 2,5%, enquanto valores mais altos teriam alíquotas ajustadas para evitar saltos bruscos.
Essa mudança reduziria o volume de restituições no ajuste anual, já que a retenção na fonte de 10% para dividendos acima de R$ 50 mil mensais poderia superar o imposto devido por muitos contribuintes. O relator acredita que uma progressão mais suave também facilitaria a aceitação da proposta no Congresso.
Expectativas para 2026
A isenção do Imposto de Renda até R$ 5 mil, se aprovada, entrará em vigor em janeiro de 2026, impactando diretamente a declaração do IRPF de 2027. O governo estima que a medida beneficiará cerca de 10 milhões de trabalhadores, especialmente aqueles com rendas entre R$ 2.259,20 e R$ 5 mil.
A proposta também prevê descontos parciais para rendas entre R$ 5 mil e R$ 7 mil, com uma redução progressiva que alivia a carga tributária. Para rendas acima disso, a tabela do IR permanecerá inalterada, mantendo a progressividade do sistema.
Lira destacou que o projeto é um passo importante para reduzir desigualdades, mas enfatizou a necessidade de ajustes para garantir sua viabilidade fiscal. Ele espera que as discussões na Câmara avancem rapidamente, com apoio da base aliada e de setores da oposição.







