O Rio Grande do Sul viveu um amanhecer gelado na última terça-feira, 1º de julho de 2025, quando pelo menos 70 cidades registraram temperaturas abaixo de zero, marcando a quarta onda de frio do ano e a segunda do inverno. Santana do Livramento, na Fronteira Oeste, atingiu a mínima de -7,3°C, a mais baixa do estado, enquanto Porto Alegre teve 3,1°C, segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet). A massa de ar polar, impulsionada por um ciclone extratropical, trouxe geada generalizada, cobrindo ruas, carros e vegetação. O fenômeno, que deve persistir até sexta-feira, 4 de julho, reflete temperaturas até 5°C abaixo da média, sem previsão de neve. A situação mobilizou alertas do Inmet e ações da Defesa Civil para proteger populações vulneráveis.
A intensidade do frio surpreendeu até os gaúchos, acostumados a invernos rigorosos. Em São José dos Ausentes, na Serra, os termômetros marcaram -5,3°C, e imagens de lagos congelados circularam nas redes sociais. A onda de frio também trouxe desafios logísticos, como pistas escorregadias em rodovias, especialmente na BR-116, em Caxias do Sul.
As condições climáticas extremas são atribuídas a uma combinação de fatores meteorológicos. A Climatempo destacou que a ausência de umidade suficiente impediu a formação de neve, mas favoreceu a geada, que se formou em larga escala nas regiões da Campanha, Sul, Oeste, Central, Costa Doce, Vales e Serra.
- Cidades mais afetadas: Santana do Livramento (-7,3°C), São José dos Ausentes (-5,3°C), Vacaria (-3,2°C).
- Alertas emitidos: Inmet publicou aviso laranja de perigo para declínio de temperatura.
- Duração prevista: O frio intenso deve se manter até 4 de julho, com mínimas negativas.
Essa onda de frio reforça a variabilidade climática do Sul do Brasil, que enfrenta extremos opostos em 2025, como chuvas intensas em junho e calor recorde em Quaraí, com 43,8°C em fevereiro.
Geada transforma paisagens no Sul
A geada foi o destaque visual da onda de frio, cobrindo campos, telhados e veículos com uma camada branca que encantou moradores e turistas. Em Santana do Livramento, imagens de ruas congeladas viralizaram, enquanto em Passo Fundo, na região Norte, propriedades rurais amanheceram sob um manto de gelo. O fenômeno ocorre quando a temperatura do ar próxima ao solo cai abaixo de zero, congelando o orvalho.
Em Soledade, no Norte do estado, a geada vitrificada, conhecida como “glaze ice”, formou uma camada transparente de gelo em cercas e vegetação. Esse tipo de geada, registrado em 24 de junho com -1,8°C, é raro e exige condições específicas, como alta umidade e temperaturas muito baixas. Já a geada negra, observada em algumas áreas, preocupa agricultores, pois congela o interior das plantas, causando necrose e prejuízos às lavouras.
A beleza da geada, no entanto, contrastou com os desafios enfrentados por comunidades rurais. A Defesa Civil do Rio Grande do Sul intensificou a distribuição de cobertores e agasalhos para famílias em situação de vulnerabilidade, especialmente em cidades como Uruguaiana e Santa Maria, onde o frio foi mais severo.
Ciclone extratropical intensifica o frio
A origem dessa onda de frio está em uma poderosa massa de ar polar que avança pelo Cone Sul da América do Sul desde o fim de junho. Um ciclone extratropical, posicionado a leste da foz do Rio da Prata, reforçou a entrada de ventos gelados no Rio Grande do Sul. Esse sistema, segundo a MetSul Meteorologia, criou condições para temperaturas excepcionalmente baixas, com mais de 200 municípios gaúchos registrando mínimas negativas em 1º de julho.
O fenômeno não é isolado. Em Santa Catarina, cidades como Urupema e São Joaquim também enfrentaram temperaturas abaixo de zero, com registros de -6°C em anos anteriores. No Paraná, General Carneiro marcou -7,8°C em 25 de junho, indicando que a onda de frio afetou toda a região Sul do Brasil. A Climatempo prevê que o sistema de alta pressão manterá o tempo firme e seco, prolongando as condições para geada nas próximas madrugadas.
Impactos nas rodovias e segurança
O frio intenso trouxe riscos adicionais às rodovias gaúchas. Na Serra Gaúcha, a BR-116, em Caxias do Sul, registrou dois acidentes sem vítimas devido ao congelamento da pista, que atingiu 0°C na madrugada de 24 de junho. A Polícia Rodoviária Federal bloqueou trechos da rodovia até o gelo derreter, orientando motoristas a redobrarem a atenção.
Em São José dos Ausentes, um lago congelado atraiu curiosos, mas também gerou alertas das autoridades sobre os perigos de caminhar em superfícies frágeis. A Defesa Civil emitiu recomendações para que os motoristas evitem viajar nas primeiras horas da manhã, quando as temperaturas são mais baixas e o risco de pistas escorregadias aumenta.
- Medidas de segurança: Uso de correntes nos pneus em áreas de serra.
- Recomendações: Evitar viagens ao amanhecer e manter veículos aquecidos.
- Áreas afetadas: BR-116, RS-122 e estradas rurais na Serra e Campanha.
Preocupações com a agricultura
A geada, embora bela, representa uma ameaça significativa para a agricultura. Em regiões como Vacaria e Passo Fundo, produtores de milho, trigo e hortaliças relatam perdas parciais devido ao congelamento. A geada negra, observada em áreas de vento forte e baixa umidade, é especialmente prejudicial, pois danifica as plantas internamente, reduzindo a produtividade.
A Fetag-RS, federação que representa os trabalhadores rurais, alertou que as lavouras de inverno podem sofrer impactos semelhantes aos registrados em 2024, quando a estiagem já comprometeu a safra de soja. Técnicas como a cobertura de cultivos com lonas e a irrigação prévia foram adotadas por alguns agricultores para minimizar os danos, mas a escala do frio limitou a eficácia dessas medidas.
Ação da Defesa Civil e apoio à população
A Defesa Civil do Rio Grande do Sul reforçou as ações de assistência em 155 municípios afetados por eventos climáticos em 2025, incluindo as chuvas de junho e a atual onda de frio. Em Porto Alegre, a prefeitura organizou pontos de coleta de agasalhos, enquanto voluntários em Santana do Livramento distribuíram cobertores para moradores de rua.
O governo estadual também anunciou a liberação de recursos emergenciais para reforçar o atendimento em cidades como Santa Cruz do Sul e Uruguaiana, onde as temperaturas negativas agravaram a situação de famílias em áreas de risco. A prioridade é garantir que populações vulneráveis, como idosos e crianças, tenham acesso a abrigo e roupas adequadas.
Histórico de frio no Rio Grande do Sul
O Rio Grande do Sul tem um histórico de temperaturas extremas no inverno. Em 2019, Serafina Corrêa registrou -4,9°C, enquanto em 2017, Porto Alegre teve a menor temperatura desde 2013, com 2,2°C. A onda de frio de 2025, no entanto, se destaca pelo número de cidades afetadas e pela intensidade das mínimas, superando episódios recentes em abrangência.
Comparado a outros anos, o inverno de 2025 reflete a influência de mudanças climáticas, que intensificam eventos extremos. Enquanto o estado enfrentou calor recorde em fevereiro, com 43,8°C em Quaraí, as ondas de frio de junho e julho mostram a oscilação típica do clima gaúcho, agravada por fenômenos globais como o aumento da temperatura dos oceanos.
Cuidados para enfrentar o frio
Autoridades de saúde alertaram para os riscos de doenças respiratórias e hipotermia durante a onda de frio. A Secretaria da Saúde do Rio Grande do Sul recomendou medidas simples, mas eficazes, para proteger a população:
- Hidratação: Beber água mesmo no frio para evitar desidratação.
- Roupas adequadas: Usar camadas de roupa, incluindo gorros e luvas.
- Aquecimento seguro: Evitar aquecedores improvisados para prevenir incêndios.
- Atenção a grupos vulneráveis: Monitorar idosos e crianças.
Hospitais em Porto Alegre e Santa Maria registraram aumento na procura por atendimento devido a infecções respiratórias, reforçando a importância de cuidados preventivos.
Previsão para os próximos dias
A Climatempo prevê que as temperaturas permanecerão abaixo da média até 4 de julho, com possibilidade de novas geadas nas madrugadas. Em Porto Alegre, as mínimas devem variar entre 3°C e 5°C, enquanto na Serra, cidades como Gramado e Canela podem registrar temperaturas próximas de zero.
A ausência de chuvas significativas manterá o tempo seco, favorecendo a formação de geada, mas também reduzindo os riscos de alagamentos, como os registrados em junho, quando o Rio Jacuí transbordou. A expectativa é que, a partir de sábado, 5 de julho, uma nova frente quente eleve gradualmente as temperaturas, encerrando a onda de frio.
Curiosidades sobre o frio gaúcho
O inverno no Rio Grande do Sul é conhecido por atrair turistas em busca de paisagens congeladas e eventos culturais. Algumas peculiaridades da onda de frio de 2025 chamaram atenção:
- Lagos congelados: São José dos Ausentes registrou um lago completamente congelado, atraindo visitantes.
- Turismo de inverno: Gramado e Canela reforçaram atrações como festivais de chocolate e passeios noturnos.
- Recordes históricos: A mínima de -7,3°C em Santana do Livramento é a mais baixa do ano até agora.
- Humor local: Em Cerrito, a prefeitura “vestiu” um monumento com agasalho, gerando memes nas redes sociais.
Cenário climático em 2025
O ano de 2025 tem sido marcado por extremos climáticos no Rio Grande do Sul. As chuvas de junho, que causaram inundações e deixaram mais de 10 mil desabrigados, contrastam com o frio intenso de julho. Dados do Copernicus indicam que o aquecimento global, com a temperatura média do planeta ultrapassando 1,6°C em 2024, intensifica esses eventos, aumentando a frequência de ondas de frio e calor fora de época.
No Rio Grande do Sul, a combinação de ciclones extratropicais e massas de ar polar cria condições para temperaturas extremas, como as registradas em 1º de julho. A MetSul Meteorologia alerta que, embora julho deva ter menos episódios de frio intenso em comparação a junho, novas ondas de frio podem ocorrer nas próximas semanas, exigindo preparo contínuo das autoridades e da população.

