O Sport Club Corinthians Paulista deu um passo significativo para reorganizar suas finanças ao apresentar, em 21 de julho de 2025, um novo plano de pagamento de dívidas à Justiça, no âmbito do Regime Centralizado de Execuções (RCE). Sob a gestão do presidente interino Osmar Stabile, o clube propõe quitar R$ 190 milhões em dívidas cíveis, englobando compromissos com empresários, fornecedores e jogadores, especialmente relacionados a direitos de imagem. A proposta, que substitui um plano anterior rejeitado, prevê um aumento progressivo no percentual de receitas destinadas aos credores ao longo de dez anos, mas depende de aprovação judicial para entrar em vigor. A iniciativa visa evitar os constantes bloqueios judiciais que têm comprometido o fluxo de caixa do clube, oferecendo maior previsibilidade financeira. A medida não inclui dívidas tributárias nem o financiamento da Neo Química Arena com a Caixa Econômica Federal.
A reestruturação financeira do Corinthians é uma resposta à crise que acumula um passivo total estimado em R$ 2,56 bilhões, conforme balanço de 2024. O clube enfrenta desafios com bloqueios judiciais recorrentes, que já superaram R$ 50 milhões apenas neste ano. A nova proposta busca equilibrar as finanças sem comprometer os investimentos no futebol.
- Principais pontos do plano:
- Pagamento de R$ 190 milhões em até 10 anos.
- Escalada de 4% a 6% das receitas recorrentes destinadas aos credores.
- Prioridade para credores parceiros e preferenciais.
- Correção de dívidas pelo IPCA e SELIC.
O clube agora aguarda a análise da 2ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJSP) para homologar o plano e suspender as execuções judiciais.
Fim de jogo. pic.twitter.com/qiyOYgptrl
— Corinthians (@Corinthians) July 20, 2025
Novo plano de pagamento
A proposta apresentada pelo Corinthians reformula a estratégia inicial, que destinava apenas 4% das receitas recorrentes aos credores e foi considerada insuficiente por parte deles. Agora, o clube sugere um escalonamento: 4% no primeiro ano, 5% no segundo e 6% a partir do terceiro ano, provenientes de receitas como direitos de transmissão e patrocínios. Além disso, para receitas de transferências de jogadores, o percentual será de 5% no primeiro ano, 6,5% no segundo e 8% a partir do terceiro.
Essa abordagem progressiva reflete um esforço para balancear o pagamento de dívidas com a manutenção das operações do clube. A gestão acredita que o plano trará alívio financeiro, reduzindo o impacto de bloqueios judiciais que têm prejudicado o fluxo de caixa, como os R$ 19 milhões bloqueados recentemente em um processo movido pela Pixbet.
Credores parceiros e preferenciais
Um dos destaques do plano é a criação de categorias específicas para os credores. Aqueles classificados como “parceiros”, que continuarem prestando serviços ao clube após a adesão ao RCE, receberão 35% das receitas destinadas ao pagamento das dívidas. Já os credores preferenciais, como idosos, gestantes e pessoas com doenças graves, terão direito a 25% do montante.
O clube apresentou um exemplo hipotético de pagamento mensal de R$ 3 milhões, detalhando como os valores seriam distribuídos entre as categorias. Essa divisão visa incentivar a manutenção de parcerias comerciais e cumprir obrigações legais com grupos prioritários, enquanto os credores ordinários terão suas dívidas quitadas de forma gradual, corrigidas pela taxa SELIC.
Histórico de bloqueios judiciais
Nos últimos anos, o Corinthians enfrentou uma série de bloqueios judiciais que agravaram sua situação financeira. Em 2025, ações movidas por credores como o empresário André Cury, que cobra R$ 28,8 milhões, e Giuliano Bertolucci, com uma dívida de R$ 78,2 milhões, resultaram em penhoras significativas. Esses bloqueios, que já ultrapassaram R$ 50 milhões neste ano, impactaram até mesmo o pagamento de salários, como ocorreu em janeiro.
A adesão ao RCE, iniciada em novembro de 2024, permitiu a suspensão temporária dessas cobranças por 60 dias, enquanto o clube elaborava o plano de pagamento. A liminar, concedida pela 2ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais, foi um alívio temporário, mas a continuidade do regime depende da aprovação do novo plano.
Relação com a Lei da SAF
O Regime Centralizado de Execuções está previsto na Lei 14.193/2021, que instituiu a Sociedade Anônima do Futebol (SAF). Embora o Corinthians não tenha se transformado em SAF, a legislação permite que clubes associativos utilizem o mecanismo para centralizar execuções cíveis. Essa possibilidade foi confirmada pelo Tribunal de Justiça de São Paulo em abril de 2025, quando rejeitou um recurso de uma empresa credora que questionava a legitimidade do clube em adotar o RCE.
O desembargador Fernando Torres Garcia, relator do caso, destacou que a centralização das execuções não depende da constituição de uma SAF, reforçando a aplicabilidade do regime ao Corinthians. A decisão fortaleceu a estratégia do clube para reestruturar suas finanças sem alterar sua estrutura societária.
Outras negociações em andamento
Além do RCE, o Corinthians busca soluções para outros compromissos financeiros. O clube firmou um acordo com a Câmara Nacional de Resolução de Disputas (CNRD) da CBF para quitar R$ 76 milhões em dívidas com ex-atletas, clubes e empresários. No entanto, a primeira parcela, que venceu recentemente, ainda não foi paga, o que pode gerar novas complicações.
A dívida com a Caixa Econômica Federal, referente ao financiamento da Neo Química Arena, estimada em R$ 710 milhões, também permanece fora do escopo do RCE. Essa obrigação é um dos maiores desafios financeiros do clube, que busca alternativas para equilibrar o orçamento sem comprometer suas atividades esportivas.
- Outros compromissos financeiros do Corinthians:
- R$ 76 milhões devidos na CNRD.
- R$ 710 milhões referentes à Neo Química Arena.
- R$ 170 milhões com agentes esportivos.
Gestão financeira em 2024
O balanço financeiro de 2024, apresentado em abril de 2025, revelou uma receita recorde de R$ 1,1 bilhão, mas também um aumento da dívida bruta para R$ 2,56 bilhões. Apesar do cenário desafiador, a gestão celebrou avanços, como a redução de gastos com contratações na janela de transferências de janeiro. O clube optou por agentes livres e manteve uma política de contenção de despesas, segundo o diretor financeiro.
A consultoria Alvarez & Marsal, contratada para auxiliar na reestruturação, tem desempenhado um papel central na elaboração do plano do RCE. A gestão também destacou a importância de um orçamento rigoroso para 2025, com metas agressivas de redução de custos.
Desafios judiciais com credores
Nem todos os credores estão alinhados com a proposta do Corinthians. A Pixstar, mantenedora da Pixbet, questionou a legalidade do RCE, argumentando que o clube não poderia utilizá-lo por não ser uma SAF. Embora o TJSP tenha rejeitado essa contestação, a disputa evidencia a resistência de alguns credores em aceitar os termos propostos.
Outro caso relevante envolve o empresário André Cury, que acionou a Justiça Federal alegando conduta fraudulenta do clube na inclusão de contratos no RCE. A ação resultou em novos bloqueios, mas o Corinthians conseguiu manter as penhoras restritas à esfera estadual, o que reforça a importância da aprovação judicial do plano para evitar futuras interrupções no fluxo de caixa.
Planejamento para o futuro
O Corinthians aposta no RCE como um marco para sua recuperação financeira. A proposta de escalonamento de pagamentos busca equilibrar as obrigações com credores sem comprometer a competitividade do time no futebol. A gestão interina de Osmar Stabile, que assumiu após a saída de Augusto Melo, enfrenta o desafio de implementar o plano em um cenário de pressão financeira e esportiva.
O clube também planeja disponibilizar relatórios detalhados sobre os pagamentos realizados no âmbito do RCE, aumentando a transparência com os credores e a torcida. A expectativa é que, com a aprovação judicial, o Corinthians consiga estabilizar suas finanças e evitar novos bloqueios que prejudiquem suas operações.
Benefícios esperados do RCE
A adoção do Regime Centralizado de Execuções oferece ao Corinthians a possibilidade de organizar o pagamento de dívidas de forma estruturada. A suspensão de bloqueios judiciais, mesmo que temporária, já trouxe alívio ao caixa do clube, permitindo o planejamento de despesas com maior previsibilidade.
- Vantagens do RCE para o Corinthians:
- Suspensão de penhoras judiciais.
- Parcelamento de dívidas em até 10 anos.
- Prioridade para grupos específicos de credores.
- Redução do impacto de juros altos exigidos por alguns credores.
A iniciativa também é vista como uma alternativa menos drástica à recuperação judicial, permitindo que o clube mantenha suas operações sem a necessidade de mudanças estruturais mais profundas, como a conversão em SAF.
Papel da administração judicial
A Laspro Consultores, nomeada como administradora judicial do processo, será responsável por fiscalizar a execução do plano. O Corinthians deve apresentar documentação contábil dos últimos três anos para garantir a transparência do processo. A administradora também acompanhará a distribuição dos pagamentos, assegurando que os percentuais propostos sejam cumpridos e que os credores recebam os valores devidos.
A supervisão judicial é um componente essencial para a validação do plano e para evitar contestações futuras, como as movidas por credores que questionam a legitimidade do RCE. A expectativa é que o processo traga maior confiabilidade aos stakeholders do clube.
