Angela Ro Ro, pioneira da MPB, morre aos 75 anos após internação prolongada no Rio de JaneiroPor Carolina Costa
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Angela Ro Ro, nome artístico de Angela Maria Diniz Gonsalves, faleceu nesta segunda-feira, 8 de setembro de 2025, aos 75 anos, no Hospital Silvestre, localizado no Cosme Velho, zona sul do Rio de Janeiro. A artista, internada desde 17 de junho devido a uma infecção pulmonar grave que evoluiu para complicações renais e respiratórias, não resistiu a uma parada cardíaca após um procedimento cirúrgico recente. A causa imediata envolveu uma nova infecção associada à traqueostomia realizada em julho, que visava aliviar a dificuldade respiratória, mas que demandou intubação e 21 dias na Unidade de Terapia Intensiva. Nascida em 5 de dezembro de 1949 na capital fluminense, Ro Ro enfrentava há meses uma saúde fragilizada, agravada por uma renda mensal de apenas R$ 800 oriunda de direitos autorais, sem aposentadoria formal, o que a levou a apelar publicamente por doações via Pix e site dedicado. Sua morte representa a perda de uma das vozes mais potentes e autênticas da música popular brasileira, pioneira em composições que mesclavam bossa nova, jazz e rock, e em assumir abertamente sua orientação sexual em tempos de repressão cultural e política. O velório e sepultamento serão definidos pela família e amigos próximos, com homenagens artísticas já sendo anunciadas por colegas de cena.
A notícia da partida de Ro Ro espalhou-se rapidamente entre fãs e músicos, evocando memórias de uma carreira que começou nos bares noturnos do Rio nos anos 1970. Antes da internação, ela havia cancelado shows por fraqueza e anemia, e em maio divulgou uma suspeita de infecção sanguínea que não se confirmou como câncer, mas que a deixou acamada por semanas.
- Sua voz rouca, apelido de infância “Ro Ro”, definiu um estilo irreverente que influenciou gerações.
- Parcerias com Caetano Veloso e Cazuza destacaram sua habilidade em reinterpretar canções com emoção crua.
- Lutas financeiras durante a pandemia a obrigaram a pedir pix de R$ 10 aos seguidores, revelando vulnerabilidades além do palco.
O declínio de saúde ganhou visibilidade em julho, quando a traqueostomia foi noticiada, seguida de reabilitação vocal que permitiu comunicação verbal no início de agosto. Apesar de melhoras iniciais, como a capacidade de falar e coordenar movimentos, uma hipotensão grave e a parada cardíaca selaram o desfecho.
Início da carreira nos anos 1970
A trajetória de Angela Ro Ro ganhou forma em meio à efervescência cultural do Brasil pós-ditadura inicial. Nascida no Rio, ela estudou piano clássico desde os cinco anos, inspirada por Elis Regina, Maysa e Ella Fitzgerald. Aos 21 anos, em 1971, viajou à Itália e encontrou o cineasta Glauber Rocha, que a indicou para participar do álbum “Transa”, de Caetano Veloso, onde tocou gaita na faixa “Nostalgia”. Essa colaboração marcou sua entrada no circuito artístico, embora ainda como instrumentista.
De volta ao país em 1974, após um período em Londres como garçonete, faxineira e lavadora de pratos em pubs onde cantava esporadicamente, Ro Ro se apresentou em casas noturnas de Ipanema. Sua voz grave e interpretações intensas chamaram atenção da Polygram/Polydor, atual Universal Music. Em 1979, lançou o disco homônimo de estreia, inteiramente autoral, com faixas que se tornaram hinos da MPB.
O álbum vendeu bem e consolidou seu estilo, misturando lirismo romântico a toques de blues e rock. Críticos da época, como os do Jornal do Brasil, elogiaram a autenticidade, contrastando com o romantismo açucarado predominante. Ro Ro não se limitava ao palco; suas composições foram gravadas por Maria Bethânia em “Memória da Pele” e Ney Matogrosso em “Ástarte”, ampliando seu alcance.
Discografia que definiu gerações
O sucesso inicial pavimentou uma série de lançamentos que exploraram temas pessoais e sociais. Em 1980, “Só Nos Resta Viver” trouxe regravações como “Bárbara”, de Chico Buarque e Ruy Guerra, e a autoral “Meu Mal é a Birita”, que ironizava sua imagem de boêmia. O disco vendeu mais de 100 mil cópias, segundo dados da gravadora, e reforçou sua presença em rádios FM emergentes.
Ano seguinte, 1981, veio “Escândalo!”, inspirado em uma polêmica com a ex-namorada Zizi Possi, que a acusou de agressão. A capa simulava uma manchete de jornal, e a faixa-título, de Caetano Veloso, virou símbolo de rebeldia. O álbum abordou vícios e relacionamentos com franqueza, vendendo 150 mil unidades e gerando turnês pelo Nordeste e Sudeste. Ro Ro assumiu publicamente sua lesbiana em entrevistas à Veja, desafiando tabus da época.
- “Gota de Sangue” (1979): Balada visceral sobre perda amorosa, regravada por Gal Costa.
- “Amor, Meu Grande Amor” (1979): Hit romântico que impulsionou vendas e covers por Barão Vermelho em 1996.
- “Agito e Uso” (1979): Crítica sutil ao consumo de drogas, interpretada por Simone em 2008.
- “Tola Foi Você” (1979): Ironia em relações falidas, eternizada em shows ao vivo.
- “Compasso” (2006): Retorno maduro, com influências jazzísticas, gravado pela Indie Records.
Nos anos 1980, “A Vida é Mesmo Assim” (1984) e “Eu Desatino” (1985) mantiveram o ritmo, com a última incluindo “Mônica”, homenagem a uma vítima de violência de gênero no Rio, que chocou o país. A canção denunciava machismo, citando casos como Aida Curi, e foi destaque em programas como “Fantástico”.
Parcerias e influência na MPB
Ro Ro construiu redes com gigantes da música brasileira, ampliando seu impacto. Sua composição “Malandragem”, com Frejat e Cazuza, virou clássico na voz de Cássia Eller, mas nasceu para ela em 1988, no álbum “Prova de Amor”. Cazuza, amigo próximo, elogiava sua “voz de contralto que corta como faca”.
Maria Bethânia gravou “Fogueira” em 1983, e em setembro de 2025, dias antes da morte de Ro Ro, Bethânia a homenageou no show “Mares da Espanha”, dos 60 anos de carreira, interpretando “Na Cama” com emoção. Outras parcerias incluem Marina Lima em “Simples Carinho” (1982) e Zélia Duncan em “Agito e Uso”.
Nos anos 1990, após hiato por vícios, Ro Ro emagreceu 35 quilos e lançou “Ao Vivo – Nosso Amor ao Armagedon” (1993), capturando energia de shows no Canecão. Em 2000, “Acertei no Milênio” marcou renascimento, com faixas otimistas. Ela apresentou o talk-show “Escândalo” no Canal Brasil de 2004 a 2005, entrevistando Elba Ramalho e Ana Carolina.
A década de 2010 trouxe “Feliz da Vida!” (2013), ao vivo pela Biscoito Fino, e o tributo “Coitadinha Bem Feito”, com homens regravando suas canções, como Lenine em “Balada da Arrasada”. Seu último estúdio, “Selvagem” (2017), explorou maturidade com blues e MPB, incluindo “O Grito”, balada de 2021 que ecoava lutas pessoais.
Polêmicas que moldaram sua imagem
A personalidade forte de Ro Ro gerou controvérsias que alimentaram sua aura lendária. Em 1981, o episódio com Zizi Possi virou escândalo nacional, com manchetes em O Globo acusando-a de violência doméstica. Ro Ro rebateu em entrevistas, transformando o episódio no álbum “Escândalo!”, que vendeu apesar da repercussão negativa.
Em 1986, abandonou uma entrevista com Cidinha Campos na TV Manchete por perguntas invasivas sobre drogas e temperamento. “Estão abusando”, disse ao sair, gerando debates sobre privacidade de artistas. Durante a pandemia, em 2020, pediu doações de R$ 10 via Pix, expondo precariedade: “Tanta gente dando golpe, e eu preciso de verdade”.
Em 2023, cancelou shows no Teatro Rival por “motivos emergenciais de saúde”, adiando “Cheia de Amor pra Dar”, que contava origens de “Malandragem”. Críticos como os da Rolling Stone a ranquearam como 33ª maior voz brasileira, elogiando sua pioneirismo LGBTQIA+ em era conservadora.
Lutas financeiras e apelos recentes
Antes da internação fatal, Ro Ro enfrentava instabilidade econômica crônica. Sem shows desde maio de 2025, devido a anemia e suspeita de infecção, ela divulgou chave Pix (625.962.507-30) em post ofegante: “Estou com dificuldade física, mas amo a vida”. Em julho, após traqueostomia, seu advogado Carlos Eduardo Campista de Lyrio atualizou que ela passava por diálise, com renda de R$ 800 insuficiente para contas hospitalares.
Um show beneficente “Fogueira” ocorreu em 12 de julho no Teatro Rival, com Elisa Addor, Simone Mazzer e Isabella Taviani interpretando sucessos como “Gota de Sangue”. Em agosto, lançou site angelaroro.com para doações, poupando voz para recuperação. Apesar de voltar a falar, uma nova infecção levou à cirurgia e parada cardíaca.
- Doações via Pix ajudaram em exames e internação inicial, totalizando milhares de reais de fãs.
- Show beneficente arrecadou para reabilitação vocal, com piano de Cristina Bhering.
- Site oficial facilitou contribuições, enfatizando “qualquer valor será bem-vindo”.
Ro Ro influenciou artistas como Letrux, que a convidou para o Coala Festival em 2023, e Caetano Veloso, com quem dividiu palco em novembro de 2023 na Arena Jockey, celebrando “Transa”. Seu documentário, em produção por Liliane Mutti para Curta!, narrará vida e obra, previsto para 2026.
Homenagens de colegas e legado cultural
A morte de Ro Ro provocou ondas de tributo imediato. Paulinho Lima, produtor amigo, confirmou o falecimento, destacando sua “luta até o fim”. Laninha Braga, ex-namorada e cuidadora, descreveu a reanimação de 15 minutos após hipotensão. Fãs lotaram redes com áudios de “Amor, Meu Grande Amor”, hit de 1979 que soa profético hoje.
Em lives e posts, artistas como Joyce Moreno relembraram duetos nos anos 1980. Seu pioneirismo em direitos LGBTQIA+ inspirou Zélia Duncan e Liniker, que citam “Escândalo!” como marco. A Rolling Stone Brasil planeja edição especial, enquanto o Circo Voador, palco de show ao vivo em 2006, anuncia sessão gratuita de filmes sobre MPB.
Ro Ro deixou mais de dez álbuns, composições gravadas por dezenas de intérpretes e uma voz que desafiou normas. Sua partida, em meio a batalhas de saúde e finanças, reforça debates sobre apoio a artistas veteranos. Shows póstumos e reedições digitais já são especulados, garantindo que sua rouquidão ecoe por décadas.







