Criptomoeda Bitcoin registra cotação mínima desde pleito de Trump e desestabiliza o mercado global

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Bitcoin, criptomoeda, moeda digital Foto: Bitcoin, criptomoeda, moeda digital - Mehaniq/ Shutterstock.com

A volatilidade voltou a dominar o mercado de criptomoedas, com o bitcoin registrando sua menor cotação desde a eleição de Donald Trump nos Estados Unidos. O recuo acentuado reacende as preocupações entre investidores globais e pressiona os ativos digitais em um ambiente de crescentes incertezas macroeconômicas.

Na tarde de 5 de fevereiro de 2026, a principal criptomoeda do mundo operava em queda significativa, refletindo uma turbulência que se estende por diversos setores da economia digital. A desvalorização afeta diretamente companhias que adotaram o bitcoin como parte de suas estratégias de tesouraria, impactando seus balanços e a confiança do mercado.

Esse cenário de incerteza é exacerbado por múltiplos fatores, incluindo a reavaliação das elevadas avaliações de empresas de inteligência artificial e as persistentes dúvidas sobre o cronograma de cortes nas taxas de juros americanas, que em conjunto, diminuem o apetite por investimentos de maior risco.

Desvalorização e a pressão sobre empresas de cripto

O bitcoin sofreu uma queda de 10,5% em seu valor, atingindo a marca de US$ 64.917 às 17h14, um patamar não visto desde o período imediatamente posterior à eleção presidencial de Donald Trump. Essa desvalorização é particularmente notável porque anula todos os ganhos acumulados desde aquela data, um período em que Trump havia sinalizado uma postura mais favorável aos ativos digitais, impulsionando um otimismo inicial. A turbulência não se restringe apenas ao preço da moeda digital, mas irradia para o mercado de ações global, exercendo uma forte pressão sobre empresas que baseiam seus modelos de negócio na posse e na potencial valorização de criptomoedas. Nos últimos anos, houve um aumento considerável no número de empresas de capital aberto que incorporaram criptoativos em suas reservas, impulsionadas pela expectativa de crescimento contínuo e pela percepção de uma maior aceitação institucional desses ativos financeiros.

Fatores impulsionam a volatilidade do mercado

A euforia em torno do setor de criptoativos, alimentada por perspectivas de alta valorização e por figuras políticas como Donald Trump, que demonstrou apoio a esses ativos durante sua campanha, começa a ser substituída por uma cautela generalizada. A trajetória de sucesso de empresas como a Strategy, que se destacou ao acumular bitcoins em sua tesouraria desde 2020, inspirou muitos a seguir um caminho semelhante, apostando na longevidade e no crescimento do ecossistema.

No entanto, esse otimismo foi drasticamente abalado. Preocupações crescentes com as elevadas avaliações de empresas do setor de inteligência artificial, que têm dominado a atenção dos investidores e direcionado grandes volumes de capital, contribuem para o desvio de recursos de outros segmentos considerados de maior risco, como as criptomoedas.

A incerteza prevalece também em relação à política monetária dos Estados Unidos. O caminho dos cortes nos juros pelo Federal Reserve permanece nebuloso, com sinais mistos da economia. Essa indefinição gera um ambiente de aversão ao risco, que impacta diretamente ativos mais voláteis e especulativos, como o bitcoin, tornando-os menos atraentes para investidores em busca de segurança.

Esse conjunto complexo de fatores empurrou o bitcoin para seu nível mais baixo desde novembro de 2024, provocando uma série de oscilações negativas e instabilidade considerável para muitas empresas de tesouraria de ativos digitais, conhecidas pela sigla em inglês “DATs”, que agora enfrentam desafios operacionais e de avaliação.

Desempenho das companhias no cenário atual

A Strategy, um dos nomes mais emblemáticos entre as compradoras de bitcoin, viu suas ações despencarem de US$ 457 em julho para US$ 111,27 no dia da notícia, alcançando seu menor valor desde agosto de 2024. Essa queda expressiva demonstra a forte e intrínseca correlação entre o desempenho do bitcoin e a avaliação de mercado dessas empresas. A volatilidade dos preços do ativo digital traduz-se diretamente na percepção de valor da companhia e no humor dos acionistas, que reagem rapidamente a qualquer mudança no panorama das criptomoedas.

Em dezembro anterior, a Strategy já havia revisado drasticamente suas projeções de lucro para 2025, citando o fraco desempenho do bitcoin como principal motivador. A companhia havia projetado um lucro líquido entre US$ 6,3 bilhões e um prejuízo de US$ 5,5 bilhões, uma mudança significativa em relação à previsão inicial de lucro de US$ 24 bilhões. Além disso, a empresa anunciou planos para a criação de uma reserva específica destinada a assegurar o pagamento de dividendos, sinalizando uma tentativa estratégica de estabilizar a confiança dos investidores e mitigar a percepção de risco em meio ao cenário adverso do mercado.

Outras empresas sentem a pressão global

A onda de desvalorização no mercado de criptomoedas não poupou outras companhias que possuem exposição significativa ao bitcoin e outros ativos digitais. A britânica Smarter Web Company, outra notória investidora em bitcoin, registrou uma queda de quase 18% em suas ações no mesmo dia, refletindo a ampla extensão do impacto no mercado europeu de tecnologia e finanças.

Compradoras rivais de bitcoin, como a Nakamoto e a japonesa Metaplanet, também sofreram perdas consideráveis, caindo quase 9% e 7%, respectivamente, evidenciando uma tendência global de recuo. No mercado brasileiro, a Méliuz registrou um recuo de 4,5%, sendo negociada a R$ 3,41, enquanto a OrangeBTC teve uma desvalorização de 5%, fechando a R$ 6,47, mostrando que a apreensão se espalhou por diferentes geografias.

Cenário de capitulação e ciclos de mercado

A queda contínua do bitcoin, que acumulou quase 20% de desvalorização desde o início do ano, tem intensificado a pressão vendedora, alimentando um ciclo de desconfiança. Esse movimento foi agravado após a nomeação de Kevin Warsh como o próximo presidente do Federal Reserve, gerando expectativas de uma política monetária mais apertada e contracionista, o que é visto como um fator negativo para ativos de risco, incluindo as criptomoedas.

Nic Puckrin, renomado analista de investimentos e cofundador da plataforma Coin Bureau, avalia que o mercado de criptomoedas atingiu um “modo de capitulação total”, ao ver o bitcoin romper a barreira psicológica de US$ 70.000. Segundo Puckrin, a situação atual vai muito além de uma simples correção de curto prazo, indicando uma mudança mais profunda na dinâmica do mercado.

Ele compara o momento atual a ciclos anteriores de baixa, sugerindo que o mercado está em uma fase de transição que “geralmente leva meses, não semanas”. Essa perspectiva indica um período prolongado de instabilidade e ajuste para os ativos digitais, exigindo paciência e reavaliação de estratégias por parte dos investidores.

Estratégias e desafios para levantar capital

Enquanto investidores institucionais mais robustos e com grande volume de capital têm a capacidade de adquirir tokens diretamente no mercado, as empresas de tesouraria de ativos digitais (DATs) oferecem uma alternativa importante. Elas permitem que investidores mais cautelosos e com menos expertise no universo cripto obtenham exposição às criptomoedas por meio de veículos públicos e regulados, aproveitando a oportunidade de alavancar retornos sem a necessidade de gestão direta e complexa dos tokens. Contudo, essa estrutura é intrinsecamente sensível às flutuações de mercado, o que se prova um desafio em momentos de baixa.

A pressão sustentada sobre as ações das DATs, evidenciada pelas quedas recentes, representa um sério desafio para sua capacidade de levantar capital adicional no mercado. A obtenção de novos recursos é crucial para essas empresas, pois lhes permite comprar mais tokens e, assim, sustentar o cerne de seu modelo de negócios, que depende da valorização desses ativos. Muitos executivos dessas companhias enfatizam que o sucesso futuro estará intrinsecamente ligado à sua habilidade de tomar decisões de investimento astutas e de inovar na busca por valor para os acionistas, adotando estratégias diversificadas para enfrentar a volatilidade.

Ampliação do impacto para outros tokens

A turbulência observada no mercado de criptomoedas não se limitou ao bitcoin, estendendo-se por todo o ecossistema de ativos digitais. Empresas que mantêm outros tokens digitais em suas carteiras também registraram perdas significativas, evidenciando uma aversão generalizada ao risco. A Alt5 Sigma, por exemplo, que no ano anterior havia anunciado a acumulação do token WLFI, associado à família Trump, teve uma queda de 8,4%. Similarmente, a SharpLink Gaming, com exposição ao ether, recuou 8%, enquanto a Forward Industries, detentora de solana, perdeu quase 6%, demonstrando a amplitude da aversão ao risco no setor e a interconexão entre os diferentes ativos digitais.

Luís Henrique Costa é jornalista formado pela FMU, editor-chefe e fundador do Mix Vale, portal de notícias em atividade desde 2013. Responde pela direção editorial do veículo, que cobre Brasil e mundo em economia, benefícios sociais, esportes, tecnologia, ciência e entretenimento. Atua na área há mais de 15 anos e lidera uma equipe de cerca de 15 colaboradores.

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