A farmacêutica norte-americana Eli Lilly desembolsou US$ 18 bilhões (R$ 91,26 bilhões) em 31 negócios até outubro de 2026 para diversificar seu portfólio antes que as patentes de seus principais produtos comecem a expirar na década de 2030. O volume investido em 14 aquisições e 17 acordos de licenciamento supera em mais de quatro vezes os US$ 4 bilhões (R$ 20,28 bilhões) gastos pela companhia em 39 transações durante todo o ano de 2025.
Com sede em Indianápolis, no estado norte-americano de Indiana, a empresa atingiu valor de mercado aproximado de US$ 1,1 trilhão (R$ 5,58 trilhões) em outubro de 2026, após ter ultrapassado a marca de US$ 1 trilhão (R$ 5,07 trilhões) em novembro de 2025. O desempenho financeiro é puxado pelos medicamentos baseados em GLP-1 (hormônio que regula o açúcar no sangue e o apetite): o Mounjaro, voltado ao diabetes, e o Zepbound, indicado para perda de peso. Ao comentar a necessidade de criar ou comprar novos medicamentos para sustentar o tamanho da companhia no longo prazo, o diretor-executivo (CEO) da Eli Lilly, Dave Ricks, afirmou: “É o desafio que vai nos definir. Se percebermos que não estamos conseguindo fazer isso, então deveríamos devolver o dinheiro aos acionistas e ser uma empresa menor. Mas não é assim que estou pensando neste momento.”
Eli Lilly registra US$ 79,7 bilhões em receita e eleva gastos em pesquisa
Nos 12 meses encerrados em 30 de junho de 2026, a receita acumulada da Eli Lilly cresceu 50% e alcançou US$ 79,7 bilhões (R$ 404,08 bilhões), sendo 62% desse faturamento proveniente das vendas conjuntas de Zepbound e Mounjaro, linha baseada na molécula tirzepatida que superou o oncológico Keytruda no início de 2026 e se tornou a mais vendida do mundo. Apenas no segundo trimestre de 2026, cujos resultados foram divulgados em 5 de agosto de 2026, a receita trimestral somou US$ 23,0 bilhões — alta de 48% na comparação anual —, com US$ 9,9 bilhões gerados pelo Mounjaro e US$ 4,9 bilhões pelo Zepbound, o que levou a empresa a elevar sua projeção de receita anual fechada de 2026 para a faixa entre US$ 85,0 bilhões e US$ 87,0 bilhões.
Além das compras de outras empresas, a Eli Lilly ampliou o orçamento interno destinado à pesquisa e desenvolvimento (P&D). Os aportes subiram de US$ 11 bilhões (R$ 55,77 bilhões) em 2024 para US$ 13,3 bilhões (R$ 67,43 bilhões) em todo o ano de 2025. No primeiro semestre de 2026, o gasto em P&D chegou a US$ 7,3 bilhões (R$ 37,01 bilhões), um avanço de 21% ante o primeiro semestre de 2025. “Vamos gastar em P&D cerca de três vezes o que gastávamos em 2021. É uma curva de crescimento expressiva, e isso significa que, no futuro, a Lilly deverá lançar três vezes mais produtos e medicamentos”, declarou Ricks.
Aquisições bilionárias e parcerias da Eli Lilly em 2026
A estratégia de expansão conduzida por Dave Ricks e pelo vice-presidente executivo, presidente da Lilly Oncology e chefe de desenvolvimento corporativo de negócios da Eli Lilly, Jacob (Jake) Van Naarden, distribuiu recursos entre terapias genéticas, distúrbios do sono, saúde mental e inteligência artificial ao longo de 2026:
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- 12 de janeiro de 2026: anúncio de parceria de até US$ 1 bilhão (R$ 5,07 bilhões) ao longo de cinco anos com a Nvidia para instalar um laboratório de co-inovação em inteligência artificial na região da Baía de São Francisco, na Califórnia, utilizando a plataforma BioNeMo e chips Vera Rubin.
- 31 de março e 24 de junho de 2026: anúncio e conclusão da compra da Centessa Pharmaceuticals por até US$ 7,8 bilhões (US$ 6,3 bilhões à vista, ou US$ 38,00 por ação, e até US$ 1,5 bilhão em metas condicionais), voltada a distúrbios do sono como a narcolepsia por meio de agonistas do receptor de orexina 2, como o candidato cleminorexton.
- 20 de abril de 2026: acordo para adquirir a Kelonia Therapeutics, de Boston, por até US$ 7 bilhões no total (US$ 3,25 bilhões à vista no fechamento e até US$ 3,75 bilhões atrelados a metas clínicas, regulatórias e comerciais), visando o tratamento genético de infusão única CAR-T in vivo KLN-1010 contra o mieloma múltiplo.
- 16 de julho de 2026: acordo de compra da nova-iorquina AtaiBeckley por até US$ 3,8 bilhões (US$ 2,8 bilhões à vista, equivalentes a US$ 6,75 por ação, mais até US$ 1 bilhão em direitos contingentes), focada no spray intranasal psicodélico BPL-003, em Fase 3 para depressão resistente ao tratamento.
- Outras transações em 2026: compras da Merida Biosciences (doenças autoimunes, até US$ 2,875 bilhões), Ajax Therapeutics (cânceres hematológicos, até US$ 2,7 bilhões), Orna Therapeutics (terapia celular, até US$ 2,4 bilhões) e Ventyx Biosciences (inflamação, até US$ 1,2 bilhão), além de colaboração de pesquisa em setembro de 2026 com a InnoCare Pharma de até US$ 3,35 bilhões (US$ 100 milhões adiantados e até US$ 3,25 bilhões em metas).
Ao avaliar o ingresso no segmento de medicamentos psicodélicos com a AtaiBeckley, Jake Van Naarden destacou a mudança na recepção médica a esses compostos. “Há uma mudança na sociedade em relação à percepção desses medicamentos. Se 20 anos atrás isso era visto como uma espécie de charlatanismo de fundo de quintal, não acho que seja mais o caso. Este é um campo legítimo da medicina, ponto final. E acredito que os psiquiatras estejam extremamente entusiasmados com isso”, disse o executivo. Já Bryan Roberts, sócio da gestora de venture capital Venrock, que investiu na Kelonia Therapeutics, apontou o tamanho do desafio financeiro da farmacêutica: “Hoje, eles têm mais poder de fogo na indústria farmacêutica do que qualquer outra empresa do planeta. O risco é: quem vai querer ser a pessoa que estava no comando durante a maior queda de patentes e de receita da história?”
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Perda de patentes do Prozac e do Zyprexa na Eli Lilly
Fundada em 1876 em Indianápolis pelo coronel Eli Lilly, químico farmacêutico e veterano da Guerra Civil Americana, a empresa produziu penicilina em larga escala durante a Segunda Guerra Mundial, lançou o antidepressivo Prozac em janeiro de 1988 e criou em 2024 a plataforma de venda direta on-line LillyDirect nos Estados Unidos. A urgência atual de Dave Ricks — que ingressou na companhia em 1996 e assumiu o cargo de CEO em 2017 — tem origem nas crises internas enfrentadas pela fabricante quando produtos líderes perderam a proteção de patente.
Em 2001, o vencimento da patente do Prozac provocou uma retração financeira batizada internamente de “Ano X”. Uma década depois, a perda de exclusividade do antipsicótico Zyprexa, em 2011, e do antidepressivo Cymbalta, em 2013, configurou o período chamado de “Anos YZ”, quando a divisão então chefiada por Ricks perdeu 60% de sua lucratividade em três anos e precisou demitir funcionários e encerrar pesquisas. “O dia do lançamento não é cedo demais para começar a trabalhar na próxima grande inovação, mesmo que ela só aconteça 12 anos depois. Porque, quando você se aproxima do fim desse ciclo, já é tarde demais, e acaba tomando medidas desesperadas, absurdas e que não funcionam”, afirmou Ricks.
Aprovação do Foundayo e envio da retatrutida à FDA em 2027
Enquanto desenvolve terapias em estágio inicial voltadas à proteína tau sob a supervisão do diretor científico e de produtos Dan Skovronsky e do vice-presidente de descoberta de moléculas Andrew Adams — somadas ao medicamento contra o Alzheimer Kisunla, aprovado em 2024 e com vendas anuais próximas de US$ 500 milhões (R$ 2,54 bilhões) —, a Eli Lilly prepara seus próximos lançamentos comerciais e regulatórios. Na divisão de oncologia, a empresa mantém nove moléculas em ensaios clínicos de Fase 3 para seis tipos de câncer e prevê a divulgação de resultados de sete novos medicamentos em testes avançados ao longo dos próximos 12 meses, ao mesmo tempo em que amplia a linha contra obesidade após a Food and Drug Administration (FDA, agência reguladora dos Estados Unidos) aprovar em 1º de abril de 2026 o Foundayo (orforglipron), comprimido oral diário de GLP-1 sem restrições de água ou alimentos, e planeja submeter à FDA no primeiro trimestre de 2027 o pedido de aprovação da retatrutida, fármaco experimental que concluiu os estudos de Fase 3 para obesidade, apneia obstrutiva do sono e dor de osteoartrite no joelho.
