Washington aponta teste nuclear secreto Chinês, impulsionando debate sobre novo tratado de armas

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Silhueta foguete, bandeira China Foto: Silhueta foguete, bandeira China - Marko Aliaksandr/shutterstock.com

Os Estados Unidos emitiram uma grave acusação formal contra a China nesta sexta-feira, alegando que a nação asiática realizou um teste nuclear secreto em 2020. A denúncia surge em um período de intensa volatilidade geopolítica, justamente quando a administração americana tem insistido na necessidade de um acordo de controle de armas nucleares mais abrangente. Tal pacto, na visão de Washington, deveria incluir não apenas a Rússia, mas também a crescente potência militar chinesa, em um esforço para conter uma corrida armamentista global que mostra sinais de aceleração e eleva as tensões internacionais.

A alegação americana foi tornada pública um dia após a expiração do último tratado de controle de armas nucleares entre os EUA e a Rússia, o Novo START, em 5 de fevereiro de 2026. Esta data marcou um momento histórico, deixando as duas maiores superpotências nucleares sem limites formais para seus arsenais pela primeira vez em décadas, criando um vácuo preocupante na segurança global.

A comunidade internacional agora observa com apreensão, enquanto as implicações dessa nova dinâmica se desenrolam. A situação eleva o risco de uma escalada na proliferação nuclear e na modernização de armamentos, afetando a estabilidade estratégica global e colocando em xeque décadas de esforços diplomáticos para a desnuclearização.

Detalhes da acusação e a resposta chinesa

Thomas DiNanno, subsecretário de Estado para Controle de Armas e Segurança Internacional, foi o responsável por tornar pública a acusação em um discurso na Conferência Global sobre Desarmamento, realizada em Viena. Ele afirmou categoricamente que o governo dos EUA possuía informações concretas indicando que a China havia conduzido testes com explosivos nucleares, cujo rendimento previsto estaria na ordem de centenas de toneladas. A data específica do suposto evento foi detalhada como 22 de junho de 2020, embora sem fornecer dados técnicos adicionais no momento do anúncio, intensificando as pressões sobre Pequim.

DiNanno não apenas apontou o teste, mas também acusou as forças militares chinesas de tentar “ocultar” essas atividades. Ele detalhou que a China estaria empregando métodos como o “desacoplamento”, uma técnica que visa diminuir a eficácia do monitoramento sísmico internacional. O desacoplamento envolve a criação de grandes cavidades subterrâneas ao redor do ponto de explosão, o que permite que a energia do choque seja parcialmente absorvida pelo solo e pela própria cavidade, resultando em sinais sísmicos consideravelmente mais fracos e difíceis de detectar pelas estações de monitoramento globais, dificultando a rastreabilidade e a transparência.

O cenário geopolítico após o Novo START

A denúncia americana contra a China coincide com um período de profunda reavaliação estratégica no campo do controle de armas. O Novo Tratado START, que impunha limites verificáveis sobre ogivas nucleares implantadas e mísseis balísticos intercontinentais dos EUA e da Rússia, expirou em 5 de fevereiro de 2026, conforme previamente comunicado pelas partes envolvidas.

A ausência de um mecanismo formal de controle de armas entre as duas maiores potências nucleares do mundo é um fato sem precedentes em décadas, criando um ambiente de incerteza e potencial desestabilização. Esta lacuna regulatória pode abrir caminho para uma corrida por modernização e expansão de arsenais, com cada nação buscando assegurar sua superioridade ou paridade estratégica, gerando tensões adicionais em um cenário já complexo.

Desafios para o monitoramento nuclear global

A Organização do Tratado de Proibição Completa de Testes Nucleares (CTBTO), entidade que opera o Sistema Internacional de Monitoramento (IMS) para detectar explosões nucleares em todo o mundo, manifestou-se sobre as alegações. Rob Floyd, secretário executivo da CTBTO, declarou em comunicado oficial que o sistema “não detectou nenhum evento consistente com as características de uma explosão de teste de arma nuclear” em 22 de junho de 2020. Análises subsequentes também não alteraram essa conclusão, levantando questões sobre a natureza exata do teste alegado pelos EUA e as capacidades de detecção para eventos de menor magnitude.

Floyd especificou que o IMS é capaz de identificar explosões nucleares com uma potência equivalente ou superior a aproximadamente 500 toneladas de TNT. Ele exemplificou a eficácia do sistema ao mencionar que todos os seis testes nucleares conduzidos e declarados pela Coreia do Norte foram detectados pelo sistema. Contudo, considerando que o suposto teste chinês teve um rendimento “na casa das centenas de toneladas” – um número que DiNanno não precisou –, não fica claro se a explosão teria atingido o limite mínimo de detecção do sistema da CTBTO.

Essa discrepância sugere que, em caso de utilização de técnicas como o desacoplamento, que atenuam os sinais sísmicos, eventos de menor rendimento podem, de fato, passar despercebidos. Isso destaca uma lacuna potencial nas capacidades de verificação e reforça a complexidade do monitoramento de atividades nucleares subterrâneas, especialmente quando há intenção de ocultação.

A moratória de testes nucleares e violações anteriores

O Tratado de Proibição Completa de Testes Nucleares (CTBT) tem como objetivo primordial proibir qualquer teste de arma nuclear ou outra explosão nuclear em qualquer ambiente. No entanto, sua plena entrada em vigor depende da ratificação por um grupo específico de estados com capacidade nuclear, incluindo EUA e China, o que ainda não ocorreu.

Apesar de ambos os países terem assinado o CTBT, nem os Estados Unidos nem a China o ratificaram. Além disso, a Rússia tomou a decisão de retirar sua ratificação em 2023, o que impede a ativação completa do tratado e de seus mecanismos de verificação. A ausência de ratificação por potências nucleares chave impede a utilização de mecanismos mais sofisticados para lidar com explosões menores, como os previstos no tratado, comprometendo sua eficácia.

Implicações do fim da contenção unilateral dos EUA

O subsecretário de Estado Thomas DiNanno declarou que o dia 5 de fevereiro de 2026 simboliza o “fim de uma era”, marcando o término da contenção unilateral dos Estados Unidos em relação aos seus arsenais nucleares, após a expiração do Novo Tratado START. Embora não tenha afirmado diretamente a intenção de instalar novas armas nucleares, suas palavras indicaram uma forte probabilidade de flexibilização. DiNanno enfatizou que o país prosseguirá com seus programas de modernização nuclear, iniciados quando o Novo START ainda estava em vigor. Ele acrescentou que os EUA mantêm uma capacidade nuclear não implantada, que pode ser ativada para responder ao novo cenário de segurança, caso seja determinado pelo presidente. O objetivo principal é manter uma dissuasão nuclear robusta, credível e modernizada, garantindo a segurança e preservando a paz e a estabilidade global, enquanto Washington busca negociar a partir de uma posição de força.

Pequim rejeita negociações e suas razões estratégicas

A China tem mantido uma postura firme na rejeição de propostas para negociações trilaterais de controle de armas que a incluam, juntamente com os Estados Unidos e a Rússia. A principal justificativa apresentada por Pequim é que seus arsenais nucleares são consideravelmente menores e não se encontram em paridade com os de Washington e Moscou, o que, em sua visão, tornaria qualquer acordo desvantajoso.

Liu Pengyu, porta-voz da Embaixada da China em Washington, D.C., reiterou a posição oficial de Pequim. Ele afirmou que a China segue uma política de “não primeiro uso” de armas nucleares e adota uma estratégia nuclear estritamente focada na autodefesa.

Liu Pengyu também destacou o compromisso contínuo da China com sua moratória de testes nucleares e expressou a vontade de trabalhar com outras partes para defender a autoridade do CTBT e o regime internacional de não proliferação nuclear. Contudo, ele também pediu que os EUA cumpram suas próprias obrigações e compromissos com a moratória, de forma a salvaguardar o equilíbrio e a estabilidade estratégica global.

Especialistas como Matthew Kroenig, do Atlantic Council, questionam a lógica chinesa, argumentando que, se a preocupação é a disparidade de arsenais, a China deveria desejar o controle de armas para limitar as forças americanas e russas. Kroenig sugere que a recusa de Pequim pode ser motivada pelo desejo de construir uma força nuclear de superpotência, com investimentos significativos já feitos nesse objetivo e uma relutância em negociá-lo.

Próximos passos no controle de armamentos

Diante do cenário complexo, Daryl Kimball, diretor executivo da Arms Control Association, ressaltou a urgência de uma “abordagem sensata”, sugerindo negociações bilaterais de controle de armamentos. Ele enfatizou que, independentemente da veracidade das violações alegadas, o simples ato de fazer acusações não resolve a questão e que os canais diplomáticos devem ser priorizados. Kimball defendeu que os Estados Unidos e a Rússia deveriam, e poderiam, continuar a respeitar os limites centrais do que foi o Novo START, a fim de evitar uma escalada desnecessária e manter um mínimo de estabilidade estratégica em um momento tão delicado.

Luís Henrique Costa é jornalista formado pela FMU, editor-chefe e fundador do Mix Vale, portal de notícias em atividade desde 2013. Responde pela direção editorial do veículo, que cobre Brasil e mundo em economia, benefícios sociais, esportes, tecnologia, ciência e entretenimento. Atua na área há mais de 15 anos e lidera uma equipe de cerca de 15 colaboradores.

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