Apreensões de canetas emagrecedoras contrabandeadas do Paraguai registraram aumento expressivo de 1.079% entre 2024 e 2025, segundo dados da Receita Federal. O número de unidades retidas passou de 2.544 para 30.011 no período, o que representou um prejuízo estimado em R$ 31,8 milhões ao crime organizado. Esse crescimento reflete a alta demanda por medicamentos à base de tirzepatida, como o Mounjaro, vendidos sem prescrição médica em farmácias paraguaias e distribuídos ilegalmente no Brasil via internet e fronteiras.
A comercialização ocorre principalmente em grupos de WhatsApp e Telegram, onde vendedores oferecem produtos sem exigência de receita. Em conversas monitoradas, administradores orientam sobre dosagens iniciais de 2,5 mg por semana e aumentos progressivos conforme o organismo se adapta. Caixas de 60 mg chegam a ser vendidas por cerca de R$ 1,3 mil, com entrega rápida em diversas regiões, incluindo Santa Catarina.
O fenômeno expõe usuários a riscos significativos, pois os produtos não contam com garantia de composição, qualidade ou refrigeração adequada. Especialistas destacam que substâncias injetáveis exigem controle rigoroso, e a ausência de supervisão médica pode levar a complicações imprevisíveis.
Rotas de entrada e foco na fronteira do Paraná
O Paraná concentra a maior parte das apreensões, respondendo por 43% do total nacional em 2025, com destaque para Foz do Iguaçu. A Ponte da Amizade, que liga Ciudad del Este a Foz, é o principal ponto de passagem. Até meados de fevereiro de 2026, já foram retidas 14.685 unidades na alfândega local, superando em 93% o volume de todo o ano anterior.
Contrabandistas utilizam métodos criativos para ocultar as canetas, como esconder em caixas de sabão em pó ou compartimentos de veículos. Fiscalizações de rotina identificaram cargas de até mil unidades em um único veículo. O aumento no volume apreendido indica expansão do comércio para 18 estados em 2025, contra 11 no ano anterior.
O valor médio das unidades caiu de R$ 2,7 mil para R$ 1 mil, sugerindo estratégia de maior quantidade em vez de alto preço unitário. São Paulo lidera em valor financeiro das apreensões, seguido por Paraná e Ceará.
Riscos sanitários e notificações de efeitos adversos
A Anvisa registra crescimento de 282% em notificações de eventos adversos graves associados a princípios ativos para emagrecimento entre 2024 e 2025. Os casos incluem hospitalizações, incapacidade persistente e mortes suspeitas, que passaram de 17 para 50 no período. Plataformas de monitoramento apontam complicações como náuseas intensas, pancreatite e desidratação.
Um caso emblemático envolveu uma auxiliar administrativa de 42 anos internada em estado grave em Belo Horizonte após uso de Lipoless adquirida no Paraguai. Ela desenvolveu complicações neurológicas severas. Relatos em grupos de venda mencionam sintomas como vômitos, diarreia e dores abdominais, com orientações para interrupção imediata.
Endocrinologistas enfatizam que esses medicamentos, mesmo os originais, requerem exames prévios e acompanhamento para evitar riscos. Sem isso, o uso para fins estéticos em pessoas sem obesidade ou comorbidades aumenta perigos, pois não há estudos de segurança para esse perfil.
Venda aberta no Paraguai e alertas das autoridades
Farmácias em Ciudad del Este promovem abertamente canetas de tirzepatida em vídeos nas redes sociais, exibindo estoques em caminhões e geladeiras lotadas. A Dinavisa, autoridade sanitária paraguaia, classificou o comércio como grave risco à saúde pública em comunicado de dezembro de 2025. Os problemas incluem composição não garantida, substâncias não declaradas e falta de informações sobre dosagem.
No Brasil, desde junho de 2025, medicamentos como Mounjaro exigem receita médica retida na farmácia. A Anvisa proíbe diversas marcas irregulares de tirzepatida e similares, como TG Lipoless e Tirzec. Importação pessoal só é permitida com prescrição brasileira, quantidade limitada a três meses e produto original.
Consequências legais para envolvidos no comércio ilegal
Transportar, vender ou prescrever canetas irregulares pode configurar múltiplos crimes. Entre eles, falsificação ou adulteração de produtos terapêuticos, com pena de 10 a 15 anos de prisão, exercício ilegal da medicina e contrabando. Em casos extremos, se o uso resultar em morte, pode haver enquadramento por homicídio com dolo eventual.
Advogados criminalistas destacam que vender sem conhecer os riscos à saúde do comprador equivale a assumir a possibilidade de consequências fatais. A orientação médica adequada, com exames, é essencial para mitigar perigos.
O único caminho legal para aquisição envolve receita médica brasileira específica para Mounjaro original, da Eli Lilly, com apresentação na fronteira ou farmácia autorizada.
A combinação de demanda estética, acesso fácil no Paraguai e vendas online sem controle impulsiona esse mercado clandestino. As autoridades intensificam fiscalizações, mas os riscos à saúde permanecem elevados para quem opta por esses produtos sem supervisão profissional.

