Tratamento inovador para lesões medulares: polilaminina se aproxima do SUS com expectativa de custo acessível
A polilaminina, uma substância revolucionária com potencial para restaurar movimentos em pacientes com lesões medulares, alcança um estágio crucial em sua jornada rumo à disponibilidade pública. Esta inovação, que tem gerado grande expectativa na comunidade médica e entre milhares de pessoas afetadas, representa uma virada de chave no tratamento de condições anteriormente consideradas irreversíveis. A perspectiva de sua integração no Sistema Único de Saúde (SUS) levanta discussões sobre acessibilidade e o futuro da medicina regenerativa no país. A Dra. Tatiana Coelho Sampaio, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e líder da pesquisa por trás da polilaminina, forneceu detalhes essenciais sobre o medicamento, sua proteção industrial e os planos para que ele chegue à população brasileira durante uma entrevista recente.
A substância tem se destacado pelos resultados promissores observados nos estudos iniciais, que apontam para uma capacidade inédita de promover a recuperação funcional em quadros de paraplegia e tetraplegia. A repercussão científica e social em torno da polilaminina reflete a urgência e a necessidade de soluções eficazes para as sequelas de lesões medulares, que impactam significativamente a qualidade de vida de indivíduos e suas famílias.
A transição da fase experimental para a aplicação em larga escala no SUS envolve complexos processos regulatórios e desafios logísticos. O Laboratório Cristália, parceiro estratégico no desenvolvimento e produção, desempenha um papel fundamental ao garantir a infraestrutura necessária e a conformidade com as exigências sanitárias para a disponibilização do tratamento em território nacional.
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A complexa jornada da patente e a estratégia nacional
O histórico da patente da polilaminina é um capítulo à parte, repleto de desafios que poderiam ter desviado a descoberta para o controle internacional. Inicialmente, o Brasil correu o risco de perder a exclusividade sobre a substância devido à falta de pagamento de taxas de manutenção da patente internacional pela UFRJ em anos anteriores. Contudo, a Dra. Tatiana esclareceu que, embora esse contratempo tenha desacelerado o avanço da pesquisa por um período, não impediu a continuidade do desenvolvimento no país.
Felizmente, uma ação estratégica do Laboratório Cristália foi decisiva para reverter o cenário. A empresa, que colabora com a pesquisa desde 2018, agiu prontamente ao depositar novas patentes: uma nacional em 2022 e outra internacional em 2023. Essa manobra assegurou a exclusividade da produção da polilaminina pela farmacêutica brasileira até o ano de 2043, blindando a inovação contra o controle estrangeiro. A cientista enfatizou que, caso a patente original tivesse sido negociada com uma corporação multinacional, uma parcela significativa dos lucros e, mais importante, o controle sobre o acesso à tecnologia teriam sido perdidos para o Brasil.
Preparativos para a chegada ao sistema de saúde
O Laboratório Cristália já oficializou seu interesse em incorporar a polilaminina ao SUS, uma etapa que se tornará viável tão logo o registro definitivo seja concedido pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). A expectativa atual aponta para a conclusão desse processo regulatório entre o final de 2026 e 2027, marcando o início de uma nova era para pacientes com lesões medulares no Brasil. A farmacêutica está empenhada em um robusto plano de investimentos para atender à futura demanda.
Para se preparar para a produção em larga escala, o Cristália investiu massivamente em expansão industrial e logística. Uma das ações foi a aquisição da unidade da Takeda, localizada em Jaguariúna, no interior de São Paulo, o que expande significativamente sua capacidade fabril. Além disso, a empresa destinou R$ 400 milhões para a construção de um novo complexo em Itapira, também em São Paulo, projetado especificamente para a fabricação industrial da polilaminina e outros biofármacos.
Produção e matéria-prima essencial
A matéria-prima fundamental para a produção da polilaminina é a placenta humana, um recurso biológico que o laboratório já está coletando e armazenando. A Dra. Tatiana detalhou que uma única placenta é capaz de gerar até três frascos do medicamento, o que sublinha a viabilidade e a sustentabilidade do processo produtivo em grande volume.
Este método de obtenção da polilaminina destaca a importância da pesquisa e do desenvolvimento de biotecnologias no país, utilizando recursos que, de outra forma, seriam descartados. A capacidade de estocar o princípio ativo e a eficiência na produção prometem suprir a demanda que virá com a incorporação ao SUS, sem comprometer a qualidade ou a segurança do tratamento. A parceria entre a UFRJ e o Cristália exemplifica um modelo bem-sucedido de translação do conhecimento científico para o benefício social.
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Desmistificando o custo do tratamento
A questão do valor do tratamento é naturalmente uma das maiores preocupações. Embora o preço final de mercado da polilaminina ainda não esteja estabelecido, uma vez que depende da aprovação regulatória da Anvisa e de extensas negociações para sua incorporação tecnológica no SUS, a acessibilidade é um pilar central da parceria entre a universidade e a farmacêutica.
A Dra. Tatiana reforçou que o objetivo principal é garantir que o medicamento chegue àqueles que precisam, com um custo que seja viável para o sistema público de saúde. Atualmente, o acesso à polilaminina ocorre por meio de processos de judicialização ou em regimes de uso compassivo, onde os custos são absorvidos diretamente pelo laboratório ou custeados pelo Estado via determinação judicial. A projeção é que a produção em escala industrial no Brasil resulte em uma redução drástica do custo por dose.
Acessibilidade e desafios regulatórios
A redução esperada no custo por dose tornaria a polilaminina uma alternativa financeiramente mais atrativa em comparação com terapias biotecnológicas importadas. Essa condição é crucial para a viabilidade de sua inclusão no SUS, permitindo que um número muito maior de pacientes seja beneficiado sem onerar excessivamente os cofres públicos.
A negociação de preços com o governo, que envolve órgãos como a Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED) e a Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (CONITEC), será um passo determinante para definir o preço final de aquisição pelo sistema público. Esse processo visa equilibrar o investimento em inovação com a capacidade de pagamento do Estado, garantindo um preço justo e acessível.
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O papel da ciência e o alerta contra a judicialização
Apesar do entusiasmo com a polilaminina, a Dra. Tatiana fez um importante apelo por cautela e rigor científico. Ela lembrou que o medicamento ainda se encontra na Fase 1 dos estudos clínicos, e a compreensão completa de seus efeitos e segurança requer a continuidade e finalização de todas as etapas de pesquisa.
Um ponto crítico destacado pela pesquisadora é a importância da aplicação da polilaminina dentro de um período ideal: a eficácia é significativamente maior quando administrada em até 72 horas após a lesão. Essa janela terapêutica estreita ressalta a necessidade de um sistema de saúde ágil e bem coordenado para identificar e tratar pacientes elegíveis rapidamente, uma vez que o tratamento esteja disponível.
A Dra. Tatiana também alertou sobre os riscos da judicialização excessiva, ou seja, o uso do medicamento por meio de ordens judiciais antes da conclusão dos estudos e da aprovação formal. “A judicialização excessiva atrapalha a ciência”, pontuou a pesquisadora, explicando que pacientes fora dos protocolos clínicos controlados não geram dados científicos padronizados. Essa falta de dados robustos pode comprometer o avanço do conhecimento sobre a polilaminina e atrasar sua disponibilização segura e eficaz para toda a população. O ideal é que a ciência siga seu curso, com a coleta de evidências sólidas que comprovem a segurança e a eficácia em larga escala antes da adoção generalizada.










