Cientistas revelam mistério climático de 3 milhões de anos em gelo antártico
Cientistas analisaram gelo da Antártida que registra condições de até 3 milhões de anos atrás. Os resultados indicam que o planeta esfriou de forma significativa, mas os níveis de dióxido de carbono e metano na atmosfera caíram apenas de modo modesto. Dois estudos publicados na revista Nature apresentam os dados. A pesquisa vem do Centro de Exploração do Gelo Mais Antigo, ligado à Universidade Estadual do Oregon.
Os achados ampliam o registro direto de gases de efeito estufa e temperaturas oceânicas. Até então, núcleos contínuos chegavam a no máximo 800 mil anos. Amostras de Allan Hills, na borda da camada de gelo antártica oriental, permitiram “instantâneos” de períodos mais antigos.
Amostras de Allan Hills oferecem visão ampliada do passado
O gelo na região de Allan Hills sofreu distorções pelo movimento da camada. Isso gera amostras de diferentes épocas em vez de uma sequência linear contínua. Pesquisadores recuperaram bolhas de ar presas no gelo antigo. Julia Marks-Peterson, doutoranda da Universidade Estadual do Oregon, liderou um dos trabalhos. Sarah Shackleton, agora professora na Instituição Oceanográfica Woods Hole, coordenou o outro.
Ed Brook, diretor do centro COLDEX, destacou que os registros estendem as análises muito além do possível antes. As amostras vêm de um esforço colaborativo financiado pela Fundação Nacional de Ciência dos Estados Unidos. O projeto busca gelo ainda mais antigo, com indícios recentes de até 6 milhões de anos em alguns pontos.
- Bolhas de ar preservam composição atmosférica direta de até 3 milhões de anos
- Gases nobres permitem estimar temperaturas médias dos oceanos globais
- Amostras mostram condições do Plioceno, período mais quente que o atual
- Pesquisa cruza dados de gelo com evidências de fósseis e linhas costeiras antigas
- Equipe analisa preservação do gelo antigo para planejar novas perfurações
Temperaturas oceânicas caíram 2 a 2,5 graus Celsius
Um estudo mediu gases nobres nas bolhas para reconstruir mudanças na temperatura do mar. O resfriamento médio dos oceanos atingiu entre 2 e 2,5 graus Celsius no período. O declínio ocorreu de forma mais acentuada no início, há cerca de 3 milhões de anos. Esse intervalo coincide com a formação de grandes calotas de gelo no Hemisfério Norte.
As águas superficiais continuaram a esfriar de modo mais gradual até cerca de 1 milhão de anos atrás. Os pesquisadores apontam possível influência de alterações na circulação de calor entre superfície e profundidade. Métodos anteriores focavam em locais específicos. Os novos dados oferecem sinal global das condições oceânicas.
O resfriamento afetou tanto camadas profundas quanto superficiais, mas em ritmos distintos. Evidências fósseis de florestas em regiões hoje frias, como Alasca e Groenlândia, confirmam o planeta mais quente no Plioceno. Níveis do mar também estavam mais elevados, com linhas costeiras antigas registradas na costa leste dos Estados Unidos.

Níveis de CO2 e metano variaram pouco no longo prazo
O segundo estudo produziu as primeiras medições diretas de dióxido de carbono e metano no gelo desse período. O CO2 permaneceu abaixo de 300 partes por milhão na maior parte do tempo. Há cerca de 2,7 milhões de anos, o nível estava em torno de 250 ppm. Depois caiu cerca de 20 ppm até 1 milhão de anos atrás. O metano se manteve estável em aproximadamente 500 partes por bilhão.
Estimativas anteriores baseadas em sedimentos sugeriam valores mais altos de CO2. Os resultados do gelo indicam discrepância e reforçam a necessidade de registros diretos mais longos. Hoje, segundo a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica, o CO2 médio em 2025 atingiu 425 ppm e o metano, 1.935 ppb.
Os dados mostram que o resfriamento gradual da Terra não acompanhou queda forte nos gases de efeito estufa. Outros elementos do sistema climático ganharam destaque nas análises.
Outros fatores influenciaram mudanças climáticas de longo prazo
Mudanças na refletividade da Terra, na cobertura de gelo e vegetação, além de variações na circulação oceânica, provavelmente atuaram de forma relevante. Os pesquisadores destacam que gases de efeito estufa não explicam sozinhos a tendência observada. O trabalho ajuda a entender interações entre diferentes componentes do clima terrestre.
Julia Marks-Peterson afirmou que o estudo refina a visão sobre climas mais quentes do passado. A equipe continua a analisar amostras para responder novas perguntas surgidas com os resultados. Perfurações em andamento e métodos aprimorados buscam gelo ainda mais antigo.
O projeto COLDEX recebe apoio de programas da Fundação Nacional de Ciência. O trabalho de campo na Antártida conta com infraestrutura do Programa Antártico dos Estados Unidos. Amostras ficam sob curadoria na Instalação de Núcleos de Gelo em Denver, no Colorado.
Pesquisas futuras buscam gelo de até 6 milhões de anos
Cientistas identificaram gelo potencialmente mais antigo na base de núcleos de rocha. Análises dessas amostras já estão em curso. Novas perfurações visam localizar mais material preservado. O objetivo inclui melhorar reconstruções de CO2 e estudar outros gases aprisionados.
Os achados atuais ampliam o entendimento sobre evolução climática. Eles oferecem base mais sólida para comparar condições passadas com o cenário atual. A pesquisa reforça a importância de registros paleoclimáticos extensos.
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