Bactéria descoberta pela NASA sobrevive esterilização ao entrar em dormência profunda
Cientistas identificaram uma bactéria capaz de sobreviver aos rigorosos protocolos de limpeza usados na montagem de espaçonaves. A Tersicoccus phoenicis foi encontrada inicialmente em salas limpas da NASA. Pesquisadores da Universidade de Houston publicaram em 2025 o estudo que explica o mecanismo de resistência do microrganismo.
A descoberta ocorreu a partir de amostras coletadas em 2007. Engenheiros swabaram o piso de uma sala de montagem no Centro Espacial Kennedy, na Flórida, durante a preparação do módulo Phoenix Mars. Anos depois, em 2013, a análise identificou a espécie nova. O mesmo organismo apareceu em uma instalação na Guiana Francesa, a cerca de 4 mil quilômetros de distância.
Descoberta inicial em duas salas limpas distantes
A bactéria surgiu em ambientes extremamente controlados. Um isolado veio do piso da sala ISO 8 no Kennedy Space Center. Outro veio do Centro Espacial de Kourou. Nenhuma outra localização natural registrou a presença até o momento. Isso chamou atenção dos especialistas.
O nome Tersicoccus phoenicis combina termos que remetem à limpeza, à forma cocóide da célula e à missão Phoenix. A espécie pertence ao grupo Actinobacteria. Ela não forma esporos, característica comum em bactérias resistentes. Mesmo assim, conseguiu persistir.
- As salas limpas mantêm filtragem contínua de ar.
- Controlam pressão para bloquear partículas externas.
- Aplicam radiação, calor e agentes químicos.
- Eliminam fontes de umidade e nutrientes.
Essas medidas criam condições hostis à vida microbiana. A Tersicoccus phoenicis, porém, demonstrou capacidade de adaptação.
Estudo de 2025 revela o estado de dormência
Pesquisadores liderados por Madhan Tirumalai, da Universidade de Houston, testaram o comportamento da bactéria. Eles submeteram as células a estresse nutricional e dessecamento. Em poucas horas, a maioria entrou em dormência. A atividade metabólica caiu a níveis quase imperceptíveis.
Testes de cultivo tradicionais indicavam morte. As colônias não cresciam. Quando os cientistas adicionaram o fator promotor de ressuscitação (RPF), as células voltaram à atividade. O microbiologista descreveu o fenômeno de forma clara. A bactéria não estava morta. Apenas fingia.
O artigo saiu na revista Microbiology Spectrum em agosto de 2025. Experimentos mostraram que, após sete dias de seca, quase nenhuma célula crescia sem o estímulo específico. Com o RPF, o crescimento retomava mesmo após longos períodos. Isso confirma a viabilidade das células dormentes.
O estudo focou na cepa 1P05MA T, isolada no Kennedy Space Center. Resultados indicam que a dormência ajuda organismos não esporulantes a sobreviver em salas de montagem. Centenas de microrganismos já foram catalogados nesses ambientes ao longo dos anos. Em 2025, 26 novas bactérias foram identificadas em amostras semelhantes.
Riscos para a proteção planetária
Missões espaciais buscam evitar contaminação terrestre em outros corpos celestes. A presença de microrganismos resistentes levanta questões sobre a eficácia total dos protocolos atuais. Uma bactéria dormente pode viajar em superfícies de naves e reativar em condições diferentes.
Especialistas da Universidade da Flórida, como Nils Averesch, destacam o impacto. A capacidade de suspender o metabolismo aumenta a plausibilidade de sobrevivência durante viagens longas. Isso vale tanto para contaminação forward quanto para análise de amostras em busca de vida extraterrestre.
Astronautas também enfrentam riscos indiretos. O ambiente espacial altera o sistema imunológico. Microrganismos que escapam detecção poderiam se tornar problema em missões tripuladas. Até agora, não há registro de infecções graves ligadas a esse tipo específico. O monitoramento continua.
Implicações para ambientes terrestres
A dormência não afeta apenas a NASA. Hospitais, indústrias farmacêuticas e alimentícias usam esterilização rigorosa. Bactérias que escapam detecção podem comprometer processos críticos. William Widger, coautor do estudo, apontou o potencial de organismos problemáticos se não forem identificados corretamente.
Cientistas propõem ajustes nos métodos de detecção. Uma estratégia inclui estimular a reativação antes de testes. Outra envolve análise de material genético mesmo sem crescimento visível em laboratório. Essas mudanças buscam reduzir riscos em múltiplos setores.
A trajetória da Tersicoccus phoenicis ilustra os desafios da microbiologia em ambientes extremos. Da coleta em 2007 à explicação em 2025, o caso exigiu mais de uma década de investigação. O avanço reforça a necessidade de protocolos atualizados para exploração espacial e aplicações terrestres.
Jeronimo Santos é colaborador da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2016: Formação: Marketing
