Psilocibina combinada com terapia aumenta taxa de abstinência do tabagismo
Pesquisadores da Universidade Johns Hopkins divulgaram resultados robustos de um ensaio clínico em que a psilocibina, composto ativo dos cogumelos mágicos, superou significativamente os adesivos de nicotina no tratamento do tabagismo. Seis meses após o tratamento, 52% dos participantes que receberam uma alta dose de psilocibina permaneceram abstinentes de cigarros, comparado a apenas 25% no grupo que utilizou adesivos de nicotina. Os participantes foram designados aleatoriamente para receber cerca de 30 mg de psilocibina ou adesivos, além de 10 sessões de terapia cognitivo-comportamental distribuídas ao longo de 13 semanas.
O tabaco permanece como um dos vícios mais desafiadores de abandonar. A nicotina é tão viciante quanto cocaína e heroína, talvez ainda mais. Aproximadamente 70% dos fumantes adultos declaram querer parar, contudo menos de um em cada dez consegue em um período de 12 meses através dos métodos convencionais. Esse cenário motivou Matthew Johnson, autor principal do estudo e professor de psiquiatria e ciências comportamentais, a investigar abordagens alternativas.
Mecanismo de mudança comportamental e perspectiva vital
A solução parece estar enraizada em uma transformação filosófica profunda. Quase todos os participantes que conseguiram abandonar o tabagismo relataram um ponto comum crucial: de repente compreenderam que suas prioridades e valores fundamentais haviam se alterado de maneira que fumar não mais fazia sentido em suas vidas. Johnson observa que “a magnitude da experiência conseguiu superar o desafio psicológico, antes tido como insuperável, de parar de fumar”.
Um achado particularmente notável emergiu do pequeno estudo piloto de 2014, que envolveu 15 participantes fumantes há uma média de 31 anos. Oito meses após receberem duas a três sessões de terapia assistida por psilocibina dentro de um procedimento estruturado de 15 semanas, 80% dos participantes ainda permaneciam abstinentes. Esse resultado contrasta drasticamente com outras terapias comportamentais e farmacológicas para cessação tabágica, que normalmente alcançam uma taxa de abstinência próxima a 35%. Uma participante afirmou que “era como se ela tivesse sido reprogramada, de forma que tocar em um cigarro fosse impossível”.
Histórico de psicodélicos no tratamento de dependências
A exploração do potencial terapêutico de drogas psicodélicas para aliviar dependências não é recente. Durante a década de 1950, pesquisadores utilizavam LSD para tratar alcoolismo, frequentemente com êxito. Mais recentemente, o MDMA ajudou participantes de ensaios clínicos com transtorno por uso de álcool a reduzir significativamente o consumo ou parar completamente. Relatos e estudos-piloto também sugerem que a ibogaína, alcaloide psicoativo extraído do arbusto iboga da África Central, pode reduzir os sintomas de abstinência de opioides.
Lynn Marie Morski, diretora executiva da Associação de Medicina Psicodélica, caracteriza o trabalho de Johnson com psilocibina para tabagismo como “uma das linhas de pesquisa mais convincentes e potencialmente impactantes na ciência psicodélica”. Megan Piper, professora de psicologia clínica da Universidade de Wisconsin-Madison, ressalta que “não há um novo medicamento para parar de fumar nos Estados Unidos há 20 anos, então o potencial aqui é empolgante”, especialmente considerando que o tabagismo é a principal causa evitável de morte e doença globalmente.

Mecanismos neurobiológicos e plasticidade cerebral
Gül Dölen, neurocientista da Universidade da Califórnia em Berkeley, afirma que as novas descobertas são consistentes com investigações anteriores demonstrando que psicodélicos reabrem “períodos críticos” no cérebro. Essas são janelas finitas de sensibilidade e maleabilidade aumentadas que normalmente se restringem à infância, quando o indivíduo está preparado para aprender coisas novas. Nesse contexto específico, “a psilocibina está criando uma janela de oportunidade para aprender novos hábitos relacionados ao tabagismo por meio da terapia cognitivo-comportamental”. A durabilidade da resposta terapêutica provavelmente resulta da reconfiguração permanente de antigos padrões cerebrais.
Johnson, pesquisador que iniciou seu interesse na cessação tabágica em 2006, escolheu esse vício em parte por razões práticas. Comparado a outras substâncias, os marcadores biológicos do cigarro podem ser medidos de forma confiável e barata por meio de uma amostra de ar expirado e urina. Ele também estava interessado em testar psicodélicos em um tipo de vício que não envolvia turbulência emocional extrema ou trauma, mas sim um hábito igualmente viciante que se encaixa perfeitamente na vida diária, tornando ainda mais difícil abandoná-lo.
Próximos passos e ampliação da pesquisa
Johnson e seus colegas estão conduzindo um grande ensaio duplo-cego e randomizado em múltiplos locais. Esse estudo foi possível graças a um financiamento de aproximadamente US$ 4 milhões dos Institutos Nacionais de Saúde dos EUA, a primeira verba do governo americano concedida em mais de 50 anos para investigar os efeitos terapêuticos de uma droga psicodélica. Os participantes receberão duas doses de psilocibina, que Johnson suspeita produzirão melhores resultados que a dose única do experimento anterior.
Pesquisadores também analisam dados de neuroimagem dos participantes para identificar padrões que possam prever a cessação tabágica com sucesso. Johnson suspeita que a plasticidade comportamental esteja no centro da mudança observada. “Se você está preso a um padrão há muito tempo, isso pode te abalar. Não é garantido, mas é uma possível saída.”
Limitações do estudo e perspectivas futuras
Dominique Morisano, psicóloga clínica da Universidade de Toronto, descreve as novas descobertas como “incrivelmente interessantes”, embora ressalve que os resultados precisarão ser replicados com uma amostra maior e mais diversificada. “Este foi um pequeno estudo piloto com participantes altamente instruídos, em sua maioria brancos e com histórico de uso de psicodélicos. Não está claro se a psilocibina seria tão eficaz para todas as pessoas que fumam.”
Johnson reconhece que várias questões permanem em aberto. Ainda não está estabelecido se a porcentagem de pessoas que param de fumar após psilocibina conseguirá manter abstinência de longo prazo, se os resultados promissores podem ser replicados em estudos maiores com populações diferentes, ou quais riscos e efeitos colaterais ainda podem emergir. Morisano sugere ainda que terapeutas poderiam aproveitar ainda mais os efeitos neuroplásticos da psilocibina introduzindo mecanismos adicionais de enfrentamento:
- Exercícios físicos regulares
- Práticas de mindfulness
- Meditação
- Técnicas de ancoragem comportamental
- Integração antes, durante e após a sessão de psilocibina
“O vício é uma condição complexa, agravada por muitos fatores, e qualquer tratamento verdadeiramente eficaz provavelmente precisará envolver múltiplos fatores também”, destaca Morisano. O contexto atual exige criatividade nas intervenções oferecidas a pessoas enfrentando dificuldades com dependência.
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