Estudos revelam por que até 14% dos usuários de canetas emagrecedoras não perdem peso

Caneta emagrecedora
Foto: Caneta emagrecedora - Yusia13/shutterstock.com

A quebra da patente da semaglutida em março ampliou as esperanças por medicamentos mais acessíveis contra a obesidade. Mas pesquisas mostram uma realidade incômoda: entre 9% e 14% dos pacientes não conseguem emagrecer como esperado nos primeiros meses de tratamento com essas canetas injetáveis. A variação depende do medicamento e da dose utilizada.

No estudo STEP 1, publicado em 2021 no The New England Journal of Medicine, 14% dos participantes tratados com semaglutida não perderam sequer 5% do peso corporal. Já no Surmount-1, com tirzepatida, a taxa foi de 9,1% entre quem recebeu 15 mg. Doses menores registraram 11,1% e 14,9% de não resposta.

Fatores biológicos explicam a desigualdade de resultados

A resposta ao medicamento depende de múltiplos fatores. Pacientes com diabetes tipo 2 frequentemente apresentam piores resultados na perda de peso, possivelmente pela maior resistência à insulina. Um estudo de 2024 publicado na Diabetologia analisou 4.467 adultos com diabetes e descobriu que apenas 14% conseguiram, simultaneamente, melhorar o controle da glicose e perder 5% do peso.

O peso inicial, a idade, a duração do diabetes e a função renal também influenciam os resultados. Quanto maior o peso corporal do paciente, menor a exposição do organismo ao medicamento, conforme revelou pesquisa de 2021 na Cell Reports Medicine. Isso ajuda a explicar por que pessoas mais pesadas às vezes não respondem tão bem ao tratamento quanto esperado.

A forma como o corpo absorve, distribui e metaboliza o fármaco varia entre indivíduos. O endocrinologista Paulo Rosenbaum, do Einstein Hospital Israelita, afirma: “Cada pessoa responde de um jeito ao medicamento. A gente pode dizer que 5% a 10% dos pacientes não têm uma boa resposta a esse tipo de tratamento.”

Canetas emagrecedoras, Ozempic, Mounjaro
Canetas emagrecedoras, Ozempic, Mounjaro – MillaF/ Shutterstock.com

Dose insuficiente e efeitos colaterais reduzem a adesão

A estratégia de aumentar gradualmente a dose melhora a tolerância, mas muitos pacientes desistem do medicamento por causa dos efeitos colaterais. Um ensaio de 2025 publicado em The Lancet mostrou que a semaglutida de 7,2 mg foi superior à dose padrão de 2,4 mg. A perda média foi 18,7% contra 15,6% após 72 semanas. Pacientes que receberam a dose mais alta também tiveram maior chance de atingir perdas de 20% e 25%.

Mas o aumento progressivo da dose gera mais náusea, vômito e outros desconfortos. “Muitos pacientes apresentam mais efeitos colaterais nesse processo e acabam desistindo da medicação. Nesses casos, pode ser necessário voltar temporariamente à dose anterior ou avançar mais lentamente”, relata Rosenbaum.

  • Náusea e vômito (mais frequentes com tirzepatida)
  • Diarreia e constipação
  • Desconforto abdominal
  • Fadiga

A interrupção do tratamento sem acompanhamento médico prejudica ainda mais os resultados.

Componente genético abre caminho para tratamentos personalizados

Uma pesquisa recente publicada na Nature, envolvendo 27.885 pessoas usando medicamentos para emagrecimento, identificou uma variante no gene do receptor de GLP-1 associada à maior eficácia do tratamento. O estudo também encontrou associações entre variantes genéticas e maior risco de efeitos colaterais, especialmente com tirzepatida.

Esses achados sugerem que diferenças genéticas influenciam tanto a eficácia quanto os efeitos adversos. Isso abre espaço para abordagens mais personalizadas no futuro, permitindo prever quem responderá melhor e ajustar o tratamento antes de começar.

Medicamentos concurrent interferem nos resultados

O uso de outros fármacos pode bloquear ou reduzir a ação das canetas emagrecedoras. As diretrizes da Sociedade de Endocrinologia recomendam reavaliar e, se possível, substituir medicamentos que favoreçam ganho de peso por alternativas neutras ou que ajudem na perda.

Dentre os que podem prejudicar estão insulina, antidepressivos, antipsicóticos, anticonvulsivantes, glicocorticoides e contraceptivos injetáveis. A revisão desses medicamentos é essencial antes de atribuir a falha do tratamento apenas à caneta emagrecedora.

O que fazer quando o tratamento não funciona

Quando o paciente não atinge a perda de peso esperada, o primeiro passo é verificar se o ajuste da dose foi feito corretamente e se houve continuidade no uso. Em seguida, médicos devem avaliar fatores comportamentais e clínicos: dieta inadequada, consumo excessivo de álcool, sono ruim, estresse e comorbidades.

Há também o aspecto emocional. Alguns pacientes não apresentam a resposta hormonal normal à ingestão de alimentos. “Quando a gente se alimenta, há liberação de hormônios ligados à saciedade e redução do apetite. Mas alguns pacientes não têm essa resposta, e o impulso para comer pode estar mais relacionado a fatores emocionais”, explica Rosenbaum.

Após essa revisão ampla, a estratégia pode ser ajustada com reforço das mudanças de estilo de vida, refinamento da dose ou troca do medicamento. Manter acompanhamento periódico é fundamental para sustentar a perda de peso no longo prazo.

Custo-benefício pressiona países a adotar critérios rígidos

Medicamentos como semaglutida e tirzepatida custam caro, tornando a análise de custo-efetividade crítica para sistemas de saúde. No Reino Unido, a semaglutida foi recomendada apenas em casos específicos, com prazo máximo de uso de dois anos e acompanhamento em serviço multidisciplinar. No Canadá, o reembolso público passou a depender de critérios clínicos e adoção concomitante de dieta e atividade física.

No Brasil, a Conitec rejeitou em agosto de 2025 um pedido da Novo Nordisk para incorporar semaglutida e liraglutida ao SUS, citando alto impacto orçamentário e incertezas sobre custo-benefício. Porém, em 2026, a empresa anunciou um programa piloto oferecendo Wegovy na rede pública do Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro.

Segundo a Novo Nordisk, o programa visa gerar dados sobre impacto clínico, social e econômico em pacientes com obesidade grave. Rosenbaum, porém, alerta: “Ampliar o acesso no sistema público não deve mudar a proporção de pacientes que respondem ou não ao tratamento. Essa variação existe tanto no setor público quanto no privado.”

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