K-pop: Regime de Kim Jong-un eleva execuções por cultura estrangeira em quase 250%, aponta relatório

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Kim Jong-un Foto: Kim Jong-un - Alexander Khitrov / shutterstock.com

Um grupo de direitos humanos sediado em Seul denunciou um aumento acentuado nas execuções por acesso e divulgação de cultura estrangeira na Coreia do Norte. O relatório indica uma intensificação da repressão estatal contra conteúdos como filmes, dramas de televisão e músicas, incluindo K-pop. Essa política repressiva visa erradicar qualquer influência externa percebida como ameaça à ideologia oficial do regime, conforme os ativistas.

A ONG Transnational Justice Working Group (TJWG) investigou as sentenças de morte no país antes e depois do fechamento das fronteiras, ocorrido em janeiro de 2020. Essa medida foi ordenada pelo líder norte-coreano, Kim Jong-un, como forma de proteger o país da pandemia de covid-19. Os dados revelam que o número de condenações à morte por crimes relacionados à cultura, religião e “superstição” cresceu quase 250% no período pós-fechamento. Essa escalada evidencia a crescente rigidez do regime de Kim Jong-un em manter controle absoluto sobre sua população.

Repressão à cultura estrangeira triplica sentenças de morte

A pesquisa do TJWG, baseada em entrevistas com 880 desertores norte-coreanos, aponta que 153 pessoas foram condenadas à morte na Coreia do Norte entre janeiro de 2020 e meados de dezembro de 2024. Este número representa um crescimento de quase 250% em comparação com o período equivalente anterior ao fechamento das fronteiras do país. Antes de 2020, o assassinato era o crime capital mais frequentemente citado em processos judiciais. A dinâmica repressiva mudou consideravelmente após as restrições impostas.

Nos últimos anos, o foco das acusações se deslocou para a violação das leis de censura. Crimes envolvendo cultura e informações estrangeiras, como filmes, dramas e músicas sul-coreanas, dominaram as sentenças de morte, de acordo com o relatório. Acusações relacionadas à religião e superstição, incluindo a posse de uma Bíblia, também se tornaram alvos prioritários do aparato de segurança estatal. O relatório do TJWG destaca 38 condenações por esses delitos em menos de cinco anos após janeiro de 2020. Em contraste, apenas sete pessoas foram sentenciadas no período anterior. A mudança na legislação penal e a intensificação da fiscalização reforçam o controle ideológico do governo. As autoridades tentam sufocar a entrada de qualquer conteúdo que inspire o livre pensamento.

Elites também consomem conteúdo “proibido”

Especialistas afirmam que a mudança na política repressiva demonstra uma predisposição cada vez maior do regime em usar força letal. O objetivo é assegurar lealdade e reprimir qualquer sinal de descontentamento popular. Apesar da severidade da repressão, uma quantidade significativa de mídia estrangeira continua a circular clandestinamente dentro da Coreia do Norte, especialmente entre as camadas mais jovens da população urbana. Greg Scarlatoiu, diretor executivo do Comitê para os Direitos Humanos na Coreia do Norte, com sede em Washington, argumenta que é tarde demais para o regime reverter essa situação.

Ele enfatiza que a repressão sempre se torna mais severa no país asiático. O número de pessoas que realmente acreditam na doutrina do regime está em declínio drástico, segundo Scarlatoiu. Em vez de uma doutrinação ideológica eficaz, a violência tem se consolidado como a opção preferida do governo para manter a ordem. As estatísticas do TJWG, portanto, são totalmente consistentes com as conclusões de análises realizadas por sua própria organização. Scarlatoiu afirmou que filhos e filhas de membros das elites norte-coreanas, especialmente aqueles que vivem em áreas urbanas, são “viciados” em cultura pop sul-coreana contrabandeada e filmes de ação americanos. Eles arriscam suas vidas diariamente para acessar essas informações proibidas. Em 2018, Kim Jong-un chegou a comparecer a um show de estrelas sul-coreanas, marcando um momento diplomático. Contudo, essa era da “diplomacia do K-pop” parece ter chegado ao fim, cedendo lugar a uma repressão mais violenta.

Execuções públicas como ferramenta de controle total

Casos específicos ilustram a brutalidade da repressão imposta pelas autoridades. Em janeiro de 2022, uma mulher de vinte e poucos anos e seu namorado foram executados publicamente na província de Pyongan do Sul. O motivo do crime foi assistir e compartilhar filmes, novelas e outros programas de televisão sul-coreanos, considerados ilegais pelo Estado. A mulher, filha de um membro sênior do Ministério da Segurança do Estado, não teve a vida poupada por sua origem influente. Este fato chocou observadores. O restante da família foi sumariamente enviado para um campo de prisioneiros políticos, conforme o portal de notícias Daily NK, que citou fontes dentro do país.

A execução obrigou cerca de 300 moradores locais a comparecerem, servindo como uma advertência severa. Aproximadamente 20 pessoas, acusadas de pegar emprestado ou compartilhar as músicas e filmes da mulher não identificada, foram forçadas a assistir sentadas na primeira fila enquanto a sentença era cumprida com extrema rigidez. Todos eles foram presos logo após o evento, ampliando a atmosfera de terror. Song Young-Chae, acadêmico e ativista sul-coreano da Coalizão Mundial para Acabar com o Genocídio na Coreia do Norte, descreve a situação como “terrível, mas, devo dizer, não é realmente uma surpresa”. Ele aponta que esses são os métodos que o regime utiliza para exercer controle sobre o povo. Se o regime perceber que está perdendo controle, com mais norte-coreanos assistindo a filmes estrangeiros, a única ferramenta restante é mais violência.

  • O regime norte-coreano teme videoclipes e programas de televisão estrangeiros.
  • Esses conteúdos dão ao seu povo um vislumbre do mundo além das fronteiras do Norte.
  • Eles expõem a mentira de que os norte-coreanos vivem em um paraíso utópico.
  • A última coisa que o líder quer é que imagens do exterior incitem o livre pensamento.
  • A busca por liberdade e felicidade individual é vista como uma ameaça existencial ao regime.

Críticas à proibição de balões com conteúdo informativo

Grande parte do conteúdo estrangeiro entrava no país graças a ativistas que armazenavam o material em pen drives e os enviavam além da fronteira através de balões. Contudo, o governo da Coreia do Sul aprovou uma lei no ano passado proibindo explicitamente essa prática. A medida faz parte dos esforços do presidente Lee Jae-myung para melhorar as relações com Pyongyang, gerando ampla controvérsia entre defensores dos direitos humanos.

Song Young-Chae critica veementemente a proibição, chamando-a de um “grande erro” com consequências negativas. Ele argumenta que essa era uma das principais exigências do governo de Pyongyang, demonstrando o medo do regime. “É claro que dar acesso à informação para a população de lá alarma o regime”, afirmou o ativista. Ele reforça: para realmente ajudar o povo norte-coreano a buscar uma vida melhor, é fundamental dar acesso irrestrito a mais informação do mundo exterior. Scarlatoiu também descreve a decisão sul-coreana como um “erro de proporções épicas”, relembrando sua própria experiência de vida na Romênia comunista, onde informações de rádios estrangeiras foram cruciais para a queda do regime.

Ele enfatiza o poder transformador da informação vinda do mundo exterior. Scarlatoiu lembra que até 80% dos romenos não confiavam na propaganda oficial do regime comunista. Eles recebiam suas notícias da Deutsche Welle, da BBC, da Voz da América e da Rádio Europa Livre. Essas emissoras desempenharam um papel crucial durante a queda do regime de Nicolae Ceausescu em dezembro de 1989. “Os norte-coreanos precisam ouvir a história da Coreia do Sul próspera, livre e democrática”, conclui Scarlatoiu, defendendo a persistência na estratégia de balões. Isso, segundo ele, só pode acontecer por meio de panfletos lançados em balões e outros meios já bastante limitados de levar informações vitais ao país deles. A restrição sul-coreana, portanto, é vista como um revés para a liberdade de informação na Coreia do Norte.

Luís Henrique Costa é jornalista formado pela FMU, editor-chefe e fundador do Mix Vale, portal de notícias em atividade desde 2013. Responde pela direção editorial do veículo, que cobre Brasil e mundo em economia, benefícios sociais, esportes, tecnologia, ciência e entretenimento. Atua na área há mais de 15 anos e lidera uma equipe de cerca de 15 colaboradores.

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