O grupo Stay Free Alberta apresentou formalmente uma petição na segunda-feira (4 de maio) reivindicando um plebiscito sobre a independência da província canadense. Os organizadores afirmam ter coletado mais de 300 mil assinaturas, superando em larga margem o mínimo de 178 mil exigido pela lei provincial.
Mitch Sylvestre, diretor do movimento, descreveu o momento como histórico. A verificação das assinaturas, contudo, foi suspensa por decisão judicial enquanto se aguarda o julgamento de uma ação movida por grupos indígenas que argumentam que a separação violaria direitos constitucionais e tratados centenários.
Impasse legal sobre direitos das Primeiras Nações
Um tribunal de Alberta pausou o processo de validação das assinaturas. A Primeira Nação Athabasca Chipewyan contest o plebiscito alegando que a criação de uma fronteira internacional prejudicaria direitos garantidos por tratados firmados entre a Coroa Britânica e comunidades indígenas há mais de cem anos.
Kevin Hille, advogado que representa os interesses indígenas, afirmou à BBC que seus clientes possuem argumentação sólida. Ele ressaltou que a independência de Alberta significaria o rompimento de acordos fundamentais para a proteção territorial e do modo de vida dessas comunidades. Um tribunal já havia determinado em dezembro que o plebiscito seria inconstitucional pelos mesmos motivos, embora o governo provincial tenha alterado suas leis subsequentemente para permitir que a petição prosseguisse.
A decisão final sobre este novo desafio legal deve ser anunciada no final de maio.
Cronograma e estrutura do plebiscito
Se as assinaturas forem validadas, os albertanos iriam às urnas em 19 de outubro para responder uma única pergunta: “Você concorda que a província de Alberta deixe de fazer parte do Canadá para se tornar um Estado independente?”
Os organizadores da petição tinham até maio para coletar o número mínimo de assinaturas. Segundo Sylvestre, o movimento ultrapassou essa meta em aproximadamente 70%, com 300 mil subscrições confirmadas ou em processo de verificação.
Perfil econômico e motivações separatistas
Alberta ocupa uma posição estratégica no oeste canadense. A província, com 661.848 km² e quase cinco milhões de habitantes, é a quarta mais populosa do país e detém recursos naturais significativos que alimentam tanto a economia local quanto nacional.
A região possui duas bases econômicas distintas:
- Setor turístico e ambiental: Montanhas Rochosas com paisagens protegidas, parques nacionais e atrações ecológicas
- Indústria extrativista: Bacia Sedimentar Ocidental rica em carvão, petróleo, gás natural e areias betuminosas, com Alberta sendo o maior produtor de petróleo do país (3,79 milhões de barris por dia em 2020)
A insatisfação com o governo federal concentra-se na percepção de que Ottawa, sob administração do Partido Liberal, impôs obstáculos à indústria de combustíveis fósseis em favor de legislação climática. Cidadãos da região sentem-se negligenciados pela capital federal em relação aos seus interesses econômicos e de desenvolvimento.
Oposição à separação e apoio internacional
Pesquisas de opinião indicam resistência local ao projeto separatista. Cerca de 25% da população de Alberta apoiaria a independência, conforme levantamento realizado em fevereiro pela empresa Abacus Data. Uma petição rival denominada Forever Canadian (“Para sempre, canadense”) coletou 450 mil assinaturas contra a separação e aguarda análise de comitê quanto ao seu prosseguimento.
Apesar do apoio minoritário internamente, líderes do movimento visitaram representantes do governo do presidente americano Donald Trump. Jeff Rath, um dos organizadores e advogado que defende a independência de Alberta, declarou à BBC em janeiro que as reuniões abordaram um “estudo de viabilidade” sobre possível financiamento de US$ 500 bilhões (aproximadamente R$ 2,5 trilhões) em caso de separação provincial.
Rath esclareceu que o grupo não solicitou formal mente recursos dos Estados Unidos.
Questões ambientais e impacto nas comunidades indígenas
A extração intensiva de combustíveis fósseis em Alberta gera preocupações sanitárias e ambientais. Cidadãos expressam receios sobre contaminação de água e solos, emissões de gases de efeito estufa e consequências para a saúde coletiva.
Para as Primeiras Nações, a infraestrutura de petróleo e gás representa ameaça adicional. Essas operações comprometem fontes de alimentos silvestres essenciais para a subsistência e cultural das comunidades indígenas, ampliando a conexão entre questões econômicas, ambientais e direitos constitucionais no debate separatista.
