Macacos evitam comida suja após surto viral em santuário no Texas

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Macaco-prego - BrianScantlebury/ istockphoto.com Foto: Macaco-prego - BrianScantlebury/ istockphoto.com

Um estudo da Universidade da Califórnia em San Diego (UC San Diego) com macacos-japoneses revelou que os animais ficaram mais cautelosos com alimentos sobre superfícies aparentemente sujas após enfrentarem uma epidemia letal em um santuário no sul do Texas, nos Estados Unidos. A pesquisa, divulgada nesta terça-feira (20) e publicada no periódico científico Royal Society Open Science, demonstrou que os primatas expostos ao surto consumiram comida apoiada sobre fezes em 47% dos testes, índice que subiu para 79% no grupo poupado pela doença.

A mudança de conduta chamou a atenção dos cientistas porque o patógeno que atingiu o santuário em 2020 era transmitido apenas por sangue e saliva, e não por alimentos ou contato com fezes. “De alguma forma, eles estão se adaptando a um risco potencial que percebem”, disse Federico Rossano, professor associado do Departamento de Ciência Cognitiva da UC San Diego, diretor do Laboratório de Cognição Comparada e autor sênior do estudo.

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Experimento com macacos-japoneses testou aversão a fezes em 55 animais

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Foto: macaco – BigDane/Shutterstock.com

Para medir como a experiência da epidemia afetou a rotina dos animais do Born Free USA Primate Sanctuary, a equipe conduzida pelo pesquisador em ciência cognitiva na UC San Diego e autor principal do estudo, Stephan Kaufhold, junto às coautoras Amanda Goguen e Kyliegh Viano, avaliou 55 macacos-japoneses (Macaca fuscata) divididos nos quatro recintos da instituição. Durante os testes, cada animal recebeu duas metades de uva ao mesmo tempo: uma apoiada sobre um bloco de madeira limpo e outra posicionada sobre fezes reais de macaco que haviam sido seladas com uma resina epóxi transparente, técnica aplicada para eliminar qualquer cheiro e impedir o risco real de infecção durante a experiência.

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Nas 117 tentativas realizadas com os integrantes dos três grupos que vivenciaram a epidemia, os primatas pegaram e comeram a uva da superfície com fezes 55 vezes (47% do total). Já entre os macacos do único recinto que não teve casos da doença, o consumo do alimento posicionado na placa suja ocorreu em 63 das 80 tentativas registradas (79%). “Grupos têm histórias, e essas histórias aparecem no comportamento. Viver o surto da doença parece ter tornado esses grupos de macacos mais cautelosos perto de comida que parece contaminada”, declarou Kaufhold, em tradução livre.

Os dados também mostraram que a cautela se espalhou por todo o bando, sem se restringir aos indivíduos que contraíram o vírus. Dentro dos três recintos atingidos, animais que nunca adoeceram, mas acompanharam de perto os companheiros apresentando sintomas ou morrendo, exibiram a mesma rejeição ao alimento na superfície suja que os sobreviventes da infecção. “Aqueles que conviviam com os que estavam doentes se comportaram exatamente da mesma forma”, afirmou Rossano.

Para os autores, o fenômeno indica que a aversão a patógenos em primatas pode ser moldada socialmente a partir de um evento traumático no bando. “Mesmo sem nenhum conhecimento de como a doença é transmitida, ser exposto a outros ficando doentes e morrendo muda a probabilidade de se envolver em comportamentos que potencialmente poderiam levar a alguma forma de doença”, explicou Rossano, em tradução livre. Kaufhold destacou a ampliação desse alerta sanitário entre os animais: “Os macacos veem a doença e os indivíduos doentes e aumentam sua sensibilidade geral, até mesmo em relação a uma via de transmissão que não tem absolutamente nada a ver com a forma como a doença de fato se espalha”.

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Dados e cronologia da pesquisa da UC San Diego no Texas

  • Artigo científico: “Early-life experience and disease exposure affect pathogen avoidance behaviour in macaques” (Experiência no início da vida e exposição a doenças afetam o comportamento de aversão a patógenos em macacos, em tradução livre).
  • Publicação oficial: quarta-feira (21), às 18h10 (horário de Brasília), na revista Royal Society Open Science.
  • Local dos testes: Born Free USA Primate Sanctuary, no sul do Texas (Estados Unidos).
  • Início da epidemia no santuário: 1 de janeiro de 2020, com surto de retrovírus símio tipo II (SRV-2) confirmado em 3 dos 4 grupos de macacos-japoneses.
  • Período de coleta dos testes de alimentação: entre outubro de 2022 e março de 2024.
  • Amostra da segunda etapa sobre histórico de vida: 54 macacos de sete espécies diferentes avaliados no santuário.

Histórico dos macacos no Texas inclui chegada em 1972 e vírus vindo de laboratório

Os grupos de macacos-japoneses que vivem hoje no Born Free USA Primate Sanctuary descendem de animais que foram originalmente transferidos do Japão para o estado do Texas em 1972. A estabilidade sanitária desses bandos foi rompida no início de 2020, no mesmo período em que os casos de Covid-19 avançavam entre humanos, quando o santuário confirmou a circulação do retrovírus símio tipo II (SRV-2). O patógeno, que provoca um quadro de imunodeficiência semelhante à Aids acompanhado de hemorragias graves, foi introduzido no local por meio de um macaco-cinomolgo (Macaca fascicularis) assintomático, acolhido pela instituição após ser aposentado de pesquisas biomédicas em laboratório.

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A transmissão dentro dos recintos ocorreu pelo contato com sangue e saliva em mordidas e arranhões, sem nenhum registro de contágio fecal-oral ou por meio de comida. Enquanto alguns primatas morreram rapidamente devido a quadros hemorrágicos e outros adoeceram aos poucos, os funcionários do santuário intervieram dividindo os bandos, realizando testes e isolando os indivíduos infectados em quarentena até controlar a ameaça.

Criação por humanos reduz cautela dos macacos e estudo aponta limites

Além dos residentes nascidos no próprio local, o santuário abriga animais vindos de zoológicos, ex-cobaias de laboratório e ex-animais de estimação. Na segunda análise do artigo, os cientistas observaram que os macacos criados por seres humanos ou mantidos como animais domésticos no início da vida comeram o alimento sobre as fezes com maior frequência do que os indivíduos nascidos no santuário e criados por suas mães, possivelmente por terem tido menos chances na infância de aprender comportamentos de aversão com outros primatas.

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A primatóloga da Universidade Brown, Elodie Freymann, que não participou da pesquisa, avaliou a relevância de cruzar a biografia dos animais com os testes de campo. “Muitos estudos com primatas ainda deixam de levar em conta o histórico de vida dos animais participantes, como se suas origens ou experiências não desempenhassem um papel crucial nos comportamentos observados. Esse artigo faz justamente o contrário”, afirmou Freymann.

No reino animal, práticas de prevenção contra infecções já foram registradas em outras espécies, como mandris que cheiram fezes para detectar parasitas antes de limpar o pelo de companheiros e animais que se isolam quando estão doentes. No caso do trabalho conduzido no Texas, os pesquisadores da UC San Diego ressaltam uma limitação metodológica importante: como não existia medição do nível de cautela dos macacos-japoneses antes de janeiro de 2020 e apenas um dos quatro recintos escapou do vírus, o estudo observacional aponta uma forte associação ligada ao chamado sistema imunológico comportamental — conjunto de reações psicológicas e sociais que ajudam a evitar o contato com patógenos —, mas não comprova uma relação direta de causa e efeito.

Bruna Santos é colaboradora da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve e colabora para o portal desde 2024. Formação: Professora.

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