Saúde

OMS divulga relatório sobre avanço de sachês de nicotina e apela por regulação

sachê de nicotina
Foto: sachê de nicotina - Gera Photo/shutterstock.com

A Organização Mundial da Saúde divulgou alerta sobre a rápida expansão global dos sachês de nicotina nesta sexta-feira, denunciando que esses produtos vêm sendo promovidos de forma agressiva entre adolescentes e jovens. O relatório foi publicado às vésperas do Dia Mundial Sem Tabaco, celebrado no próximo dia 31, e aponta lacunas regulatórias críticas em muitos países.

O mercado dos sachês, também chamados de pouches e snus, cresce em ritmo acelerado. Em 2024, as vendas no varejo superaram 23 bilhões de unidades, aumento de mais de 50% em relação a 2023. O valor global do setor foi estimado em quase US$ 7 bilhões em 2025, consolidando a substância como um dos produtos de nicotina que mais avança internacionalmente.

Estratégias da indústria voltadas ao público jovem

A OMS detalha as principais táticas usadas pela indústria para ampliar o alcance dos produtos entre adolescentes. As embalagens discretas e sofisticadas, combinadas com sabores doces como chiclete e balas, fazem parte da abordagem. Campanhas com influenciadores digitais e forte presença em redes sociais intensificam o alcance.

O relatório aponta patrocínio de eventos culturais e esportivos, incluindo a Fórmula 1, e criação de uma imagem associada a um estilo de vida aspiracional. Em alguns casos, as embalagens imitam doces ou marcas populares, aumentando o risco de ingestão acidental por crianças. Essas estratégias normalizam o uso de nicotina, reduzem a percepção de risco e atraem novos usuários rapidamente.

Segundo Etienne Krug, diretor de determinantes da saúde da OMS, esses produtos estão sendo projetados para gerar dependência. “Eles são projetados para gerar dependência, e há necessidade urgente de proteger a juventude da manipulação da indústria”, afirmou Krug. “Esses produtos estão se espalhando rapidamente, especialmente entre adolescentes e jovens que estão sendo alvo de táticas enganosas.”

Riscos de saúde e impacto no desenvolvimento cerebral

A nicotina presente nos sachês é altamente viciante, com riscos especialmente para crianças, adolescentes e jovens adultos cujos cérebros ainda estão em desenvolvimento. A exposição precoce à substância afeta funções como atenção e aprendizado, aumentando a probabilidade de dependência prolongada. O risco cardiovascular também se eleva conforme o tempo de exposição.

Vinayak Prasad, chefe da Iniciativa Livre de Tabaco da OMS, reforçou a urgência da ação governamental. “O uso de sachês de nicotina está se disseminando rapidamente, enquanto a regulação tem dificuldade para acompanhar. Os governos precisam agir agora com salvaguardas fortes e baseadas em evidências.”

Os sachês contêm, além da nicotina, aromatizantes, adoçantes e outros aditivos, liberando a substância diretamente pela mucosa oral sem envolvimento de combustão. Alguns são vendidos com diferentes níveis de nicotina, rotulados como “iniciante”, “avançado” e “expert”, com concentrações que podem chegar a 150 mg.

sachê de nicotina
sachê de nicotina – Natalia Bohren/shutterstock.com

Lacunas regulatórias em escala global

O panorama regulatório revela uma heterogeneidade que contribui para a expansão do consumo. Aproximadamente 160 países não possuem regulamentação específica sobre o produto. Dezesseis nações proibiram completamente a comercialização, enquanto 32 adotaram algum tipo de controle, como restrições à venda para menores, proibição de publicidade ou limitação de sabores.

A falta de uniformidade cria brechas por onde a indústria expande suas operações. Produtos frequentemente escapam das normas existentes, circulando livremente em mercados com vácuo regulatório. Essa situação permite que sachês ganhem presença em redes sociais, grupos de WhatsApp e comércio informal.

No Brasil, a Anvisa se prepara para avaliar se mantém o veto ou abre caminho para regulação do produto. Mesmo proibida, a venda ocorre em canais paralelos ao mercado formal. A decisão da agência terá impacto significativo no consumo interno e na circulação dos sachês pelo país.

Recomendações e medidas propostas pela OMS

A OMS recomenda que os países adotem regulação abrangente para todos os produtos de tabaco e nicotina. As medidas sugeridas incluem proibição ou restrição de sabores, veto à publicidade especialmente em redes sociais, controle rigoroso da venda a menores, advertências claras nas embalagens e limites para a concentração de nicotina. Impostos para reduzir a acessibilidade também constam nas recomendações, assim como sistemas de monitoramento do consumo e das estratégias da indústria.

O relatório ressalta que os produtos não devem ser considerados isentos de risco. A agência da ONU faz apelo direto aos jovens para reconhecerem e rejeitarem as estratégias da indústria. Ações coordenadas e rápidas são essenciais para evitar que uma nova geração desenvolva dependência de nicotina.

Posição da indústria e contraponto

A indústria do tabaco sustenta leitura oposta, argumentando que produtos sem fumaça são parte da solução para reduzir mortes ligadas ao cigarro. Segundo essa perspectiva, o problema estaria na combustão, não na nicotina em si.

A Philip Morris diz que existem evidências científicas relevantes em mercados como os Estados Unidos e a Suécia demonstrando o potencial de benefícios que as bolsas de nicotina podem oferecer. A empresa destaca que a FDA classificou os sachês como “produtos de tabaco de risco modificado” e concluiu que o risco toxicológico é inferior ao do cigarro.

Na Suécia, onde o uso do snus existe há décadas, a prevalência de fumantes é a menor da Europa, em torno de 5%, conforme dados da empresa. A Philip Morris argumenta que as bolsas de nicotina são alternativa muito melhor aos cigarros e podem desempenhar papel relevante na redução do tabagismo entre fumantes adultos, reconhecendo que a regulação deve ser proporcional e baseada em evidências.

A empresa reforça que acredita em abordagens pragmáticas que tragam resultados melhores para a saúde pública do que políticas proibicionistas, citando exemplos de Suécia, Estados Unidos e Nova Zelândia. Para a Philip Morris, as evidências precisam fazer parte do debate regulatório, com prioridade em impedir o acesso por menores de idade enquanto incentiva a migração de fumantes adultos para alternativas de menor risco.