“Se você simplesmente pede para alguém começar a andar, seja passeando por um museu, um supermercado ou até uma sala vazia, é surpreendentemente provável que a pessoa acabe se desviando no sentido anti-horário”, afirmou o doutor Iñaki Echeverría Huarte, da Universidade de Navarra, na Espanha.
Como ocorre com muitas descobertas importantes na ciência, a revelação tem origem na sorte. Durante a pandemia, os pesquisadores realizaram experimentos para verificar quantas pessoas conseguiam compartilhar um espaço mantendo distância segura. Ao revisar os vídeos, notaram que as multidões caminhavam predominantemente no sentido anti-horário.
A surpresa deu início a um projeto completo de pesquisa. Os cientistas realizaram uma série de experimentos nos quais pedestres individuais ou pequenos grupos circulavam por espaços fechados. Repetidamente, os pesquisadores observaram a tendência de andar no sentido anti-horário.
Suspeitando que normas culturais pudessem influenciar o resultado, a equipe se uniu ao doutor Claudio Feliciani, da Universidade de Tóquio. Ele obteve os mesmos resultados no Japão. A constatação se manteve mesmo ao considerar se as pessoas eram destras, usavam o pé direito ou o olho direito como dominante, e apareceu tanto em homens quanto em mulheres. A única diferença identificada foi um viés mais acentuado nas crianças.
“Cada um de nós carrega um pequeno viés pessoal para virar ligeiramente para um lado, e quando muitas pessoas compartilham um espaço, esses pequenos desvios se somam em uma rotação líquida anti-horária”, disse Echeverría Huarte. Os detalhes foram publicados na revista Nature Communications.
Os cientistas ainda não têm certeza da origem do viés, mas realizaram experimentos adicionais em realidade virtual e outros nos quais as pessoas simulavam ter uma perna quebrada, na esperança de avançar na compreensão. Piadistas da equipe brincaram que a tendência oposta poderia aparecer na Austrália e que o efeito Coriolis, no qual a rotação da Terra desvia a direção do vento, estaria envolvido.
“Não sabemos por que isso acontece, mas acreditamos que, ao entender os motivos, poderíamos compreender melhor como percebemos o mundo”, declarou Feliciani. “Isso pode ajudar a fazer outras descobertas que talvez sejam mais importantes do que esta.”
Os humanos não são a única espécie a apresentar tal preferência. Pesquisadores em Bristol mostraram que formigas-do-rochedo têm viés para virar à esquerda ao explorar ninhos desconhecidos.
A suspeita recai sobre a biomecânica. “Nenhum de nós é perfeitamente simétrico, e o modo como o cérebro de cada pessoa reúne informações sensoriais e as coordena com os músculos parece incliná-lo suavemente para um lado”, afirmou Echeverría Huarte. “Devo ser honesto, porém”, acrescentou. “Testamos várias ideias e o viés continua aparecendo de forma teimosa, por isso o mecanismo exato ainda é uma questão em aberto.”
Compreender o viés pode tornar as simulações de multidões e evacuações mais realistas e ajudar a projetar os espaços por onde nos movimentamos diariamente, de museus a supermercados e estações de trem, disse Echeverría Huarte.
Nos primeiros Jogos Olímpicos modernos, em 1896, os atletas corriam no sentido horário pela pista, mas isso foi alterado em 1913 porque a maioria dos competidores considerava essa “direção não natural para correr”, afirmou o professor Gareth Irwin, chefe de biomecânica esportiva e de exercício na Universidade Metropolitana de Cardiff.
Correr no sentido anti-horário agora está escrito nas Leis da Atletismo. “É razoável supor que isso surgiu devido à dominância da perna direita da população”, disse ele. “Correr na curva no sentido anti-horário aplica mais força interna no lado direito do corpo.”
Mas pode ser menos sobre biomecânica e mais sobre a dominância social de pessoas com preferência pela perna direita, acrescentou. “A ideia de dominância do lado direito transcende o esporte e o atletismo, e pode ser vista em outras áreas, como o design de supermercados, influenciando a direção que as empresas pretendem que as pessoas andem e circulem pela loja”, afirmou.

