Em uma cena breve, mas impactante, o treinador Carlo Ancelotti aparece na praia, com seu sapato preto impecável, ao interceptar uma bola de jornal amassado. Ele então fita a notícia: “O Brasil acredita no hexa”, em um trecho de doze segundos que se tornou viral, acumulando mais de 12 milhões de acessos apenas na plataforma YouTube.
Mesmo com a brevidade, a presença do técnico italiano, com seu estilo característico e a icônica sobrancelha arqueada, o posiciona como uma figura central para poucas empresas durante esta Copa. Historicamente reservado para grandes craques como Romário e Ronaldo, esse papel de estrela publicitária agora é de Ancelotti, que, apesar de ser amplamente procurado por diversas companhias desde sua chegada ao Brasil, optou por selar contratos apenas com a Brahma, a Volkswagen e a Amazon, todas parceiras oficiais da Confederação Brasileira de Futebol (CBF).
Bernardo Pontes, CEO da Alob Sports e ex-diretor de marketing de clubes renomados como Flamengo, Vasco e Fluminense, salienta que “os valores envolvidos para colaborar com uma personalidade do calibre de Ancelotti estão muito acima do padrão. Somente empresas no topo da pirâmide financeira possuem o poder de investimento necessário para associar sua imagem a um nome de tal envergadura”.

O especialista ainda revelou que sua agência recebeu diversas propostas para campanhas com Ancelotti, mas muitas não se concretizaram por limites orçamentários, e outras vieram de patrocinadores que são concorrentes diretos da própria CBF.
As produções publicitárias com a participação do técnico, quando somadas, acumulam mais de 80 milhões de visualizações, um feito notável até para a trajetória profissional do próprio Ancelotti, consagrado como o maior campeão da Champions League e ex-comandante do Real Madrid, time mais vitorioso do cenário futebolístico global.
Os cachês do técnico Ancelotti são, como esperado, bastante elevados. Enquanto o antigo treinador da seleção brasileira, Tite, negociava contratos publicitários em torno de R$ 2 milhões, Ancelotti, em contrapartida, firmou acordos muito mais expressivos, com valores que chegam a cerca de R$ 10 milhões, pagos em euros, evidenciando seu altíssimo poder de atração comercial no mercado global.
Após estrear como estrela de uma campanha da Volkswagen, que incluiu sua presença em uma cerimônia na CBF, o técnico tem sido visto frequentemente utilizando um veículo da montadora alemã. Já para a Brahma, ele marcou presença em eventos de Carnaval em São Paulo, Salvador e Rio de Janeiro.
Guilherme Almeida, diretor de marketing da Brahma, explica que a escolha de Ancelotti teve como propósito “trazê-lo como um novo ícone que reascendeu a esperança, aquele sentimento de ‘humm… talvez dê para o Brasil'”.
As declarações do diretor da cervejaria refletem a essência do filme, concebido pelos diretores Gustavo Moraes e Marco Lafer. A produção visual busca capturar a desconfiança que permeava o torcedor brasileiro, especialmente diante das frequentes trocas de presidentes e técnicos na Seleção, até a chegada do renomado profissional italiano.
Marco Lafer ressalta que o momento em que Ancelotti segura o jornal, exibindo a manchete “o Brasil acredita no hexa”, “simboliza fortemente a sua vinda para o Brasil”.
Em edições anteriores da Copa, outros técnicos também estrelaram campanhas publicitárias. Dunga, por exemplo, apelava para sua imagem de bravura em um comercial da Brahma, afirmando que “em campo tem que ser guerreiro”. Já Tite participou de propagandas para uma empresa de televisores, um banco e a rede McDonald’s.
No comercial da Volkswagen, Ancelotti é retratado sonhando acordado com o título mundial – com seu sotaque característico, ele afirma “todo santo dia” –, e visualiza um canarinho amarelo ao descer do carro. A cena ainda inclui uma brincadeira em que ele recebe um “banho de gelo” dos “jogadores”.
Um dos diretores do comercial comenta, de forma bem-humorada, que Ancelotti “não busca ser um grande ator”. Segundo ele, “a sinceridade dele é fundamental, a maneira como ele transmite suas falas, até mesmo com o movimento da sobrancelha. É ele mesmo”.
O especialista Bernardo Pontes observa que “as empresas foram muito hábeis em aproveitar a imagem de Ancelotti, e ele, por sua vez, demonstrou grande adaptabilidade à cultura brasileira”. Ele adiciona que “Rodrigo Caetano (diretor de Seleções), mesmo não sendo nativo do Rio, desempenhou um papel crucial na conexão com a cidade, permitindo que as marcas o integrassem estrategicamente, infundindo um ‘DNA brasileiro’ nas campanhas publicitárias. Ancelotti, inclusive, teve a iniciativa de solicitar, desde suas primeiras coletivas, que as perguntas fossem feitas em português”.
Ronaldo Fenômeno atua ao lado de Ancelotti em filmagens
O comercial da Brahma, filmado entre 15 e 18 de março, utilizou cenários diversos no Rio de Janeiro, desde o Morro da Conceição até a praia do Arpoador. A produção contou com 12 atores principais e 250 figurantes, em uma ambientação que remetia a momentos históricos da Seleção Brasileira em Copas do Mundo.
Além da participação especial de Ancelotti, o elenco incluía, evidentemente, Ronaldo Fenômeno, o campeão mundial de 2002. Como antigo jogador do atual técnico da Seleção, desde os tempos de Milan, Ronaldo foi fundamental para deixar Ancelotti mais à vontade durante todo o dia de gravação.
Marcos Lafer relembra que “foi excelente ter Ronaldo por perto, pois ele ajudou a descontrair Ancelotti”. O treinador “ficou mais confortável naquele ambiente incomum, rindo, conversando em italiano e até me provocando junto com Ronaldo quando eu solicitava mais algumas tomadas”. Segundo Lafer, “ele ouvia: ‘Ô, Ancelotti, na Copa você tem quantas chances? Uma só, né?’ As brincadeiras eram constantes”.