O deputado estadual Val Ceasa, do PRD do Rio de Janeiro, está sob investigação por suspeita de ligação com o Terceiro Comando Puro (TCP) e teve uma movimentação de mais de R$ 13 milhões em transações imobiliárias. A informação foi divulgada pelo Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ), apontando uma possível “incompatibilidade” entre o patrimônio declarado pelo parlamentar e os valores apurados durante o inquérito. O deputado e o ex-vereador Ulisses Marins são suspeitos de tentar barrar a demolição de um luxuoso resort pertencente ao traficante Álvaro Malaquias Santa Rosa, conhecido como Peixão, um dos líderes da facção, localizado em Parada de Lucas, no Complexo de Israel, Zona Norte carioca.
Em 2022, Val Ceasa informou à Justiça Eleitoral possuir um patrimônio de cerca de R$ 1 milhão. Contudo, as investigações do MPRJ revelaram que o deputado e empresas ligadas a ele realizaram transações de imóveis que superam os R$ 13 milhões. Entre os negócios identificados pelos investigadores estão a construção de um galpão em um imóvel comercial no Espírito Santo e a aquisição de duas propriedades, uma no Recreio dos Bandeirantes e outra na Barra da Tijuca.
Nesta quinta-feira, durante a ação policial, foram cumpridos 14 mandados de busca e apreensão direcionados aos envolvidos. Duas pessoas foram detidas em flagrante por posse ilegal de arma de fogo: Suelen Silva dos Reis, conhecida como Suelen Bacana, e seu atual companheiro, Michael Johnny Vianna de Azevedo, que era um dos alvos da operação.
Intervenção política em batalhão da Polícia Militar
As apurações indicam que o deputado Val Ceasa e o ex-vereador Ulisses Marins teriam agido para cancelar uma operação programada para dezembro de 2023, que tinha como objetivo demolir o resort de Peixão. Conforme o MPRJ, a dupla compareceu ao 16º Batalhão da Polícia Militar (BPM), em Olaria, no dia 11 de dezembro daquele ano, solicitando informações sobre uma ação policial sigilosa.
Em seu depoimento, o comandante do batalhão relatou que Val Ceasa defendeu a manutenção do local, alegando que este seria utilizado para “ações sociais”. O deputado ainda teria afirmado ter sido informado sobre a operação por membros da associação de moradores da região.
Além de procurar a Polícia Militar, Val Ceasa e Ulisses Marins também buscaram a Prefeitura do Rio para obter detalhes sobre a operação de demolição. Brenno Carnevale, que era secretário municipal de Ordem Pública (Seop) na época e atualmente comanda a Força Municipal, confirmou ao Ministério Público os contatos feitos pelo deputado e pelo então vereador sobre a ação planejada.
Testemunhando, Carnevale afirmou ter sido procurado por Val Ceasa para discutir a operação, com o deputado demonstrando interesse em saber se havia alguma atividade prevista para as áreas de Parada de Lucas e Vigário Geral. O então secretário municipal de Ordem Pública garantiu que nenhuma informação operacional ou detalhe do planejamento foi repassado.
O ex-vereador Ulisses Marins também entrou em contato com Carnevale, expressando preocupação com as possíveis consequências que uma operação de demolição poderia gerar na comunidade.
A farsa dos “projetos sociais” no imóvel
Após a intervenção dos políticos, a Polícia Militar esteve no local e encontrou uma faixa recém-instalada com a inscrição: “Colônia de Férias do Projeto de Deus Kids”. Em uma operação posterior, os policiais descobriram uma nova faixa com os dizeres “Projeto Social da Criança ao Idoso Realização Val Ceasa, Ulisses Marins e Dani Cunha”. No entanto, o Ministério Público esclarece que, em inúmeras operações realizadas pela polícia, nunca foi constatada qualquer atividade social no imóvel.
A Secretaria Municipal de Assistência Social do Rio de Janeiro comunicou que não possui nenhum registro dos projetos citados nas faixas. O documento informa que não foram encontrados cadastros oficiais nem da “Colônia de Férias do Projeto Deus Kids”, em Parada de Lucas, nem do “Projeto Social da Criança ao Idoso”, em Vigário Geral.
Segundo o MPRJ, logo após a visita dos políticos ao 16º BPM, foram realizadas alterações no local com o intuito de “disfarçar” que o espaço era utilizado por integrantes do TCP. Além da instalação das faixas que faziam alusão a supostas atividades sociais, a academia de ginástica foi desativada e a pintura que remetia à facção criminosa foi apagada.
Cancelamento de operação sigilosa abriu caminho para a facção
As conversas para a destruição do resort estavam acontecendo em reuniões confidenciais entre a Polícia Militar, a Prefeitura do Rio e o Ministério Público do Rio (MPRJ) desde 29 de novembro de 2023. A operação havia sido agendada para 14 de dezembro do mesmo ano. Contudo, a ação foi cancelada devido à interferência dos parlamentares, que demonstraram que a operação já havia sido vazada e ainda levantaram a hipótese de que o imóvel era utilizado para projetos sociais, o que na prática beneficiou diretamente a facção.
Na época, conforme o Ministério Público, a informação sobre o alegado projeto social foi recebida “sem que tivesse sido apurado de que forma as notícias acerca da demolição administrativa até então sigilosas — chegaram ao conhecimento dos parlamentares”. Após a interferência política, o local voltou a ser utilizado por criminosos do TCP, que inclusive realizaram melhorias na estrutura, evidenciando o impacto negativo do vazamento da operação.
Detalhes da operação que mira elo de agentes públicos com o tráfico
O MPRJ cumpre nesta quinta-feira 14 mandados de busca e apreensão contra o deputado estadual Val Ceasa, o ex-vereador Ulisses Marins, que atualmente é servidor municipal, e o ex-assessor parlamentar Jair de Mendes. Eles são investigados por suspeita de envolvimento com o Terceiro Comando Puro (TCP). Os mandados estão sendo executados no gabinete do parlamentar na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), além de outros endereços na Ceasa, na capital fluminense e no estado do Espírito Santo.
Segundo o MPRJ, a investigação teve início a partir de indícios de que os agentes públicos teriam procurado a Polícia Militar para obter informações sobre uma operação sigilosa. Esta operação visava a demolição de imóveis associados à facção em Parada de Lucas, no Complexo de Israel. Os investigadores apontam que eles teriam usado a influência de seus cargos para sustentar que os imóveis seriam destinados a serviços sociais, uma versão que não foi confirmada pelas apurações e resultou no adiamento da operação.

