Alan Greenspan, o economista renomado que esteve à frente da política monetária dos Estados Unidos durante cinco gestões no Federal Reserve, sob a administração de quatro presidentes, morreu na última segunda-feira. A informação foi confirmada por sua esposa, Andrea Mitchell, correspondente da NBC News.
O ex-presidente do Banco Central americano completou um século de vida.
Greenspan teve um papel fundamental na formação do capitalismo contemporâneo dos EUA, abrangendo desde o final da Guerra Fria até o despontar da era digital. Sua liderança no Fed coincidiu com um dos mais duradouros períodos de crescimento econômico na história americana, entre 1991 e 2001. Contudo, suas escolhas também geraram críticas, apontadas por alguns como catalisadoras para a crise financeira global de 2007-2008, especialmente sua defesa da desregulamentação bancária.
Andrea Mitchell, que atua como correspondente-chefe em Washington e em assuntos internacionais pela NBC News, divulgou a notícia do falecimento de seu cônjuge em nota oficial. O casal havia celebrado 29 anos de união.
Em seu pronunciamento, Mitchell revelou: “Alan nos deixou em nossa casa nesta manhã, aos 100 anos, devido a complicações da doença de Parkinson”. Ela descreveu o marido como “um gigante que contribuiu para moldar a economia dos EUA por décadas, sob gestões de ambos os partidos, embora sempre com a honestidade de admitir seus erros”.
“Para mim, ele foi meu companheiro, que transformou minha vida desde nosso primeiro encontro em 1984”, disse Mitchell. Ela destacou a paixão de Greenspan por beisebol, pelo time Washington Commanders, tênis, golfe e música, em especial jazz, concluindo: “Ele será sempre lembrado por sua sagacidade e gentileza. Compartilhar a vida com ele foi a maior felicidade que tive”.
Perfil e trajetória inicial de Alan Greenspan
Greenspan nasceu em 6 de março de 1926, no distrito de Washington Heights, em Nova York. Desde cedo, o jovem Alan exibiu notável talento para a matemática. Na juventude, ele estudou na renomada Juilliard School e atuou como saxofonista e clarinetista em um grupo de jazz.
Sua formação acadêmica em economia ocorreu na Universidade de Nova York, onde concluiu o bacharelado em 1948 e o mestrado em 1950. Posteriormente, iniciou o doutorado na Universidade de Columbia, sob a tutoria de Arthur F. Burns, que viria a presidir o Federal Reserve.
A marcante influência de Ayn Rand na vida de Greenspan
Durante os primeiros anos da década de 1950, Greenspan estabeleceu uma conexão com a escritora Ayn Rand, autora de “A Revolta de Atlas”. A filosofia “objetivista” de Rand, focada no interesse próprio e no capitalismo de livre mercado, exerceu profunda influência em libertários e conservadores das gerações seguintes. Greenspan incorporou parte de suas ideias e a honrou em suas memórias de 2007.
No livro “A Era da Turbulência: Aventuras em um Novo Mundo”, Greenspan registrou: “Ayn Rand e eu mantivemos um vínculo estreito até sua morte em 1982, e sou grato pelo impacto que ela teve na minha trajetória. Eu tinha limitações intelectuais antes de conhecê-la”.
Primeiros passos na carreira e na política dos Estados Unidos
Em 1953, Greenspan deixou a Universidade de Columbia para integrar uma consultoria econômica que, mais tarde, seria chamada Townsend-Greenspan Co., Inc. Apenas cinco anos depois, ele ascenderia à presidência e se tornaria o principal proprietário da companhia.
Sua entrada no cenário político se deu em 1967, atuando como consultor na campanha presidencial de Richard Nixon em 1968. Embora tenha contribuído para a transição de Nixon para a Casa Branca, Greenspan optou por não aceitar um cargo formal no governo.
Greenspan ofereceu conselhos a Nixon de maneira informal e, depois da renúncia do presidente em 1974, aceitou a posição de presidente do Conselho de Assessores Econômicos no governo de Gerald Ford, permanecendo até 1977. Durante sua gestão, ele implementou medidas que, combinadas com a política monetária mais rígida do Federal Reserve sob Paul Volcker, contribuíram para a diminuição da inflação de 11% para 6,5%.
Com o início da presidência de Jimmy Carter, em 1977, Greenspan voltou à sua empresa de consultoria em Nova York. Além disso, aceitou um posto como professor adjunto na Universidade de Nova York, onde finalmente obteve seu doutorado em economia.
Anos à frente do Federal Reserve e a “Segunda-feira Negra”
Alan Greenspan retomou sua atuação no serviço público quando o presidente Ronald Reagan o indicou para assumir a presidência do Federal Reserve, sucedendo Paul Volcker. Sua nomeação recebeu a aprovação do Senado em 11 de agosto de 1987, ainda durante o segundo mandato de Reagan.
Em 19 de outubro de 1987, data que ficou marcada como a “Segunda-feira Negra”, o índice Dow Jones Industrial Average sofreu uma queda histórica de mais de 22%, representando o maior declínio percentual em um único dia já registrado. Greenspan reagiu com agilidade para assegurar a liquidez dos mercados, e suas ações, que visavam a sustentar o sistema financeiro em períodos de turbulência, passaram a ser referidas como “Greenspan put”.
Foi amplamente elogiado por seu manejo da economia durante a que se tornou, na época, a mais extensa expansão econômica dos EUA, de março de 1991 ao primeiro trimestre de 2001. Este foi um período de grandes transformações, com o avanço da globalização e o surgimento da internet. Greenspan esteve à frente do Fed em momentos cruciais, como o colapso da bolha da internet e os impactos dos atentados de 11 de setembro de 2001.
Greenspan atingiu um patamar de celebridade à medida que os mercados acionários registravam recordes durante a gestão do presidente Bill Clinton. O jornalista Christopher Hitchens o descreveu como “a celebridade mais improvável da América”, enquanto a revista The Economist o classificou como “estrela do rock”, e seus apoiadores o chamavam de “o maestro”.
Aposentadoria e as severas críticas pós-crise financeira de 2008
Após cumprir cinco mandatos consecutivos de quatro anos, Alan Greenspan se aposentou em 31 de janeiro de 2006. Sua gestão foi a segunda mais longa na presidência do Federal Reserve, superada apenas por William McChesney Martin, que liderou a instituição de 1951 a 1970.
Após a crise financeira de 2007-2008, Greenspan tornou-se alvo de intensas críticas devido a escolhas que, na opinião de muitos, pavimentaram o caminho para o colapso. Apesar de ter emitido um famoso alerta em 1996 sobre a “exuberância irracional” que inflava artificialmente os preços das ações, ele foi responsabilizado por não ter agido de forma decisiva contra a bolha imobiliária que se formava no início dos anos 2000. Essa ironia ressalta o desafio de traduzir a previsão econômica em ação política eficaz, um ponto crucial para debates posteriores sobre regulação.
Em 2011, a Comissão de Inquérito sobre a Crise Financeira, formada por integrantes de ambos os partidos políticos, determinou que a crise foi parcialmente provocada pela inação de Greenspan. A comissão apontou falhas em desencorajar a negociação de títulos baseados em hipotecas de alto risco (subprime) em um cenário de expansão imobiliária insustentável, e também pela sua defesa da desregulamentação do setor financeiro.
O relatório da comissão mencionava, em um de seus trechos, que “mais de três décadas de desregulamentação e a aposta na autorregulação pelas instituições financeiras, ideias apoiadas por Alan Greenspan e outros, com o aval de sucessivas administrações e Congressos, e ativamente promovidas pelo influente setor financeiro, removeram barreiras cruciais que poderiam ter prevenido a catástrofe”.
Em outubro de 2008, durante seu testemunho perante o Comitê de Supervisão e Reforma Governamental da Câmara dos Representantes, Greenspan classificou a crise financeira como um “tsunami de crédito que acontece uma vez a cada século”.
“A crise, contudo, mostrou-se muito mais vasta do que eu poderia ter imaginado”, admitiu o economista.
O papel de Greenspan na política e sua relação com diferentes presidentes
Após sua saída do Federal Reserve, Greenspan estabeleceu sua própria empresa de consultoria em Washington e publicou diversas obras.
Em seu livro de memórias “A Era da Turbulência” e em várias entrevistas, Greenspan compartilhou suas percepções sobre os presidentes com quem colaborou. Ele descreveu Nixon como um homem inteligente, mas paranoico. Em uma entrevista de 2009, disse que Ford “era uma pessoa verdadeiramente boa, que não nutria ambições implacáveis”.
Sobre Reagan, o presidente que o indicou para o Fed, Greenspan afirmou em um discurso de 2003 na Biblioteca Reagan que ele “acreditava firmemente em um conjunto restrito de princípios importantes e agia de acordo com eles”.
Embora republicano por toda a vida, Greenspan mantinha uma relação de proximidade com o democrata Bill Clinton, elogiando sua inteligência e rigor fiscal. Em tom de brincadeira, ele chegou a dizer que Clinton “foi o melhor presidente republicano que tivemos em muito tempo”.
As interações de Greenspan com George H.W. Bush e George W. Bush, pai e filho, foram mais complexas. O ex-presidente Bush pai chegou a culpar publicamente Greenspan pela crise econômica que, possivelmente, influenciou sua derrota eleitoral, fato que Greenspan registrou em seu livro como algo que o “surpreendeu”.
Greenspan expressou decepção com George W. Bush filho por não ter contido o orçamento, mesmo com um Congresso de maioria republicana. Ele acreditava que os republicanos colheram as consequências ao perderem o controle de ambas as casas legislativas nas eleições de meio de mandato de 2006. “Os republicanos no Congresso se perderam. Trocaram princípios por poder. Acabaram sem nenhum dos dois”, escreveu em sua obra.
Os sucessores de Greenspan e as honrarias recebidas
Entre os economistas que sucederam Greenspan na liderança do Federal Reserve estão Ben Bernanke, Janet Yellen, Jerome Powell e, a partir de maio, Kevin Warsh, que foi indicado pelo presidente Donald Trump.
Alan Greenspan foi agraciado com várias homenagens, tanto em nível nacional quanto internacional. Em 2000, recebeu a Legião de Honra do governo francês. Em 2002, a Rainha Elizabeth II o nomeou Cavaleiro Honorário do Império Britânico. Sua mais alta condecoração civil nos Estados Unidos foi a Medalha Presidencial da Liberdade, concedida pelo então presidente George W. Bush em 2005.

