Acusação de estupro contra Ryan Mendes ganha novos detalhes com mensagens de desamparo na Nova ZelândiaPor Carolina Costa
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A mulher brasileira que fez uma denúncia de estupro contra Ryan Mendes, capitão da seleção de Cabo Verde, na Nova Zelândia, tentou obter apoio da Federação Cabo-Verdiana de Futebol em diversas ocasiões, porém sem sucesso. Evidências em seu celular incluem registros de contato com ao menos três membros da organização.
Previamente ao registro oficial junto às autoridades policiais, a vítima havia comunicado o ocorrido a Sol Cabral, que atua no setor de operações da federação. Posteriormente à queixa formal, a brasileira procurou novamente a entidade, entrando em contato com Gerson Melo, então diretor de Desenvolvimento, e Igo Gomez, do setor operacional.
As capturas de tela das conversas telefônicas foram incluídas em notificações extrajudiciais enviadas pela brasileira tanto à federação africana quanto à Fifa, somando-se a outras provas da ocorrência. A reportagem do *ge* buscou os três funcionários, mas apenas Gerson Melo forneceu um retorno, afirmando que não possui mais vínculo com a federação e que não esteve na Nova Zelândia.
A polícia da Nova Zelândia mantém a investigação em curso. Após a formalização da denúncia da brasileira contra Ryan Mendes, as autoridades recolheram imagens das câmeras de segurança do hotel. Atualmente, aguardam o resultado do laudo pericial dos exames de corpo de delito, que foram realizados há três meses, para concluir o inquérito e decidir sobre a apresentação da denúncia à justiça.
O incidente aconteceu em 27 de março deste ano, dentro do hotel que hospedava a delegação de Cabo Verde para jogos amistosos em Auckland, Nova Zelândia. A investigação policial começou em 10 de abril. A brasileira estava lá prestando serviços como intérprete e suporte operacional para a seleção de Cabo Verde durante o Fifa Series, contratada pela Federação Neozelandesa.
Omissão de apoio nos primeiros contatos com funcionários da federação

No dia seguinte aos fatos, a brasileira buscou Sol Cabral, funcionária do setor operacional da Federação Cabo-Verdiana presente em Auckland, porém, conforme seu relato, não obteve a ajuda esperada. Duas das capturas de tela incluídas nas notificações extrajudiciais correspondem a essas conversas com Sol Cabral.
Em uma das interações, são visíveis cinco chamadas de WhatsApp não atendidas da parte da funcionária. Em outra, no Instagram, além de uma sexta ligação, há uma mensagem de Sol Cabral: “Por favor preciso falar contigo. Estou sem CHÃO. A minha história na seleção vai acabar e em princípio pode esquecer a minha participação no Mundial. Lutei por isso. O meu sonho vai acabar e a minha reputação”.
A reportagem do *ge* tentou contato com a funcionária em três ocasiões durante a semana, mas não obteve retorno, notando que ela utiliza o recurso de mensagens temporárias no WhatsApp.
Investigação médica confirma lesões e federação minimiza caso
Posteriormente, a brasileira procurou auxílio em uma clínica especializada em sobreviventes de violência sexual, onde passou por exame forense. O relatório médico constatou múltiplos hematomas nas mamas, pescoço e lábios, bem como áreas sensíveis no couro cabeludo e nas nádegas. O exame genital ainda registrou “duas lesões circulares, dolorosas à palpação, na base dos pequenos lábios”. Esses resultados clínicos foram enviados à polícia neozelandesa em 10 de abril, data em que a vítima registrou a ocorrência e passou por perícia na delegacia.
Foi durante esse período de tramitação da queixa que ela documentou conversas com os outros dois membros da equipe: Igo Gomez, do setor operacional, e Gerson Melo, que na época era diretor de Desenvolvimento.
Na troca de mensagens com Igo Gomez, a brasileira chegou a mencionar Sol Cabral. “Mas como deves imaginar eu não tomei conhecimento de nada. E que seja melhor com os advogados de Ryan”, escreveu Gomez. A brasileira, então, contrapôs: “Sim, claro, mas Sol ficou sabendo no dia seguinte. Ou seja, também é um problema da Federação. Mas agora está tudo com os advogados e a justiça”. Igo Gomez, por sua vez, reforçou a visão institucional ao afirmar: “Esse é um problema pessoal de Ryan e a FCF cabo-verdiana não aprova situações do gênero em lado nenhum. Mas não deixa de ser um problema pessoal de Ryan”. A federação, ao se posicionar dessa forma, tenta se eximir da responsabilidade institucional, mesmo com o incidente ocorrendo enquanto a vítima prestava serviço para a equipe.
O funcionário Igo Gomez também foi contatado pela reportagem em diversas ocasiões para comentar o caso, mas não houve retorno.
Diálogo com outro diretor e as notificações oficiais
Em 24 de abril, uma nova troca de mensagens ocorreu com Gerson Melo, então diretor de Desenvolvimento da federação. A brasileira solicitou os contatos dos advogados tanto da entidade quanto do atleta. Melo prometeu providenciar o contato do advogado de Ryan Mendes, porém, a família da vítima alega nunca ter recebido essa informação.
“Minhas advogadas perguntaram se o contato para com a federação de Cabo Verde é com você ou com Dan Merkel?”, questionou a brasileira, referindo-se ao secretário-geral da entidade. Gerson Melo esclareceu: “Deve ser sempre o SG o Dan. Para questões institucionais”. Ao ser indagado se Merkel estava ciente dos acontecimentos, Melo respondeu na noite de 24 de abril: “Sim. Embora seja um assunto pessoal do Ryan, o SG (Dan) está a par. O assunto já está com as pessoas indicadas”.
Na manhã do dia 25 de abril, a brasileira replicou, reiterando sua posição: “Gerson, como falei ao Igo, isso também é um assunto da federação de Cabo Verde, pois eu estava prestando um serviço a vocês no momento do ocorrido, e o Ryan é um jogador de vocês e que no momento estava convocado para os jogos, então sim, é um problema pessoal dele, mas também da federação. Mas a partir de agora serão minhas advogadas que entrarão em contato.”
A reportagem também tentou contato com Dan Merkel, secretário-geral da federação, mas até o momento não houve resposta.
Em 10 de maio, duas semanas após as últimas conversas, a brasileira e seu marido enviaram notificações extrajudiciais à Federação Cabo-Verdiana e à Fifa. Os documentos incluíam o relato detalhado, provas do caso e um pedido de punição ao jogador, especificamente sua exclusão da Copa. Em 20 de maio, preencheram o formulário de Safeguarding da Fifa, destinado a denúncias de proteção, mas não obtiveram resposta.
Detalhes do incidente e a versão da denunciante
Em seu depoimento à polícia da Nova Zelândia, a brasileira narrou que, após o primeiro jogo de Cabo Verde no Fifa Series, contra o Chile, recebeu um convite para uma reunião em uma sala privativa da seleção no hotel. Ela compareceu, acreditando que precisaria atuar como intérprete. Contudo, percebeu que era uma confraternização e retornou ao seu quarto ao sentir-se indisposta.
Ainda em sua denúncia, a brasileira afirmou que, pouco tempo depois, escutou batidas na porta. Ao abri-la, imaginando uma solicitação de apoio profissional, Ryan Mendes adentrou o quarto, agredindo-a fisicamente com esganaduras, socos e mordidas, e em seguida a estuprou.
No próprio hotel, a vítima registrou fotografias das lesões aparentes, incluindo cortes na boca e hematomas no pescoço, perna e lateral do corpo. Essas imagens foram entregues às autoridades policiais e também foram visualizadas pela equipe do *ge*.
A polícia da Nova Zelândia confirmou à reportagem a existência de um inquérito em andamento. Contudo, devido às leis de privacidade estritas do país, não divulgou detalhes sobre os nomes dos acusados.
Segundo uma advogada criminal consultada pela família, o processo de análise dos exames de corpo de delito, fase atual da investigação, pode se estender por até seis meses.







