Gigantes corporativas, como Tesla e Coca-Cola, solicitam aos EUA isenção de tarifas sobre importações do BrasilPor Janderson Luiz
5 min de leitura
![]() |
Grandes empresas americanas, incluindo nomes como Tesla, Nestlé, Coca-Cola e eBay, enviaram cartas ao Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) pedindo que produtos brasileiros não sejam incluídos na investigação da Seção 301, que pode impor tarifas adicionais. As companhias alertam que a medida traria impactos negativos significativos para a competitividade interna, as cadeias de suprimentos e os custos para os consumidores norte-americanos. As manifestações foram enviadas no início de julho, pouco antes do início das audiências públicas sobre o tema.
Setor empresarial alerta para riscos das novas tarifas
A solicitação das corporações ocorre em meio à investigação da Seção 301, pela qual o governo americano avalia impor taxas adicionais aos produtos vindos do Brasil. O USTR, órgão responsável pela formulação da política comercial dos EUA, propõe uma tarifa de 12,5% e outra de 25%. A justificativa é que o Brasil adota práticas que “oneram ou restringem” o comércio com os norte-americanos.
As empresas, entretanto, argumentam que a imposição de novas barreiras comerciais ao Brasil pode gerar uma escassez crônica de insumos essenciais nos Estados Unidos. Elas enfatizam que o mercado brasileiro se tornou indispensável para diversas cadeias de produção e consumo, especialmente em setores avançados e no agronegócio.
Cenário de tensão diplomática em discussão
A movimentação empresarial acontece em um período de forte atrito diplomático entre os Estados Unidos e o Brasil. Documentos recentes, divulgados pelo Itamaraty, indicam preocupação com a possibilidade de o governo norte-americano recorrer à “força militar” contra o território brasileiro. Este cenário surgiu após os EUA classificarem unilateralmente facções criminosas como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas internacionais.
Na semana anterior, o Departamento do Tesouro americano já havia congelado bens de dois brasileiros e de quatro empresas por supostas conexões com o PCC. Apesar da complexidade política, as corporações americanas buscam dissociar a questão comercial dos desdobramentos diplomáticos, focando nos prejuízos econômicos internos que as tarifas podem causar. Elas defendem que a penalização comercial de insumos brasileiros pode trazer consequências imediatas para a economia dos EUA.
Detalhes dos pedidos das principais empresas
As grandes corporações apresentaram argumentos específicos para a isenção de tarifas, destacando a dependência americana de produtos e matérias-primas brasileiras. As razões variam desde a falta de capacidade de produção interna até a inviabilidade de aplicar taxas em certos tipos de mercadoria.
- Tesla: A montadora de veículos elétricos e sistemas de energia solicitou a isenção de insumos industriais importados do Brasil. A empresa do bilionário Elon Musk explicou que investe bilhões para diversificar sua cadeia de suprimentos nas Américas, mas a transição exige tempo. Insumos fundamentais para setores como veículos elétricos, robótica e baterias ainda não podem ser produzidos nos EUA com a escala e qualidade necessárias, e taxar esses produtos rapidamente prejudicaria trabalhadores e consumidores americanos.
- Nestlé: A gigante do setor alimentício pediu a inclusão de café instantâneo não aromatizado (café solúvel) e colágeno bovino na lista de produtos isentos. A companhia ressalta que o café em grão não pode ser cultivado em escala comercial nos EUA continentais e que o Brasil é o principal exportador global de colágeno bovino, essencial para a demanda americana de produtos de saúde e bem-estar. A Nestlé também defendeu suas práticas ambientais, mencionando que 96,7% de suas cadeias de suprimentos de commodities primárias já foram avaliadas como livres de desmatamento até o final de 2025.
- Coca-Cola: A fabricante de bebidas solicitou que o suco de laranja brasileiro continue isento e que o limão, com seus derivados, seja adicionado à lista ou receba um período de transição. A empresa destacou a queda drástica na produção de laranja na Flórida, que passou de 242 milhões de caixas na safra 2003/04 para uma estimativa de apenas 12 milhões em 2025/26 devido a doenças e pragas climáticas. O Brasil é considerado um fornecedor vital para as famílias americanas, e a mudança de fornecedores de cítricos exige testes de segurança alimentar, tornando as novas tarifas um encargo adicional.
- eBay: A plataforma global de comércio eletrônico recomendou uma isenção categórica para produtos de segunda mão, usados e seminovos. O eBay argumentou que as tarifas são desenhadas para a produção industrial e agrícola. No caso de um produto usado, o fabricante original já foi pago, e a taxa penalizaria apenas o revendedor e o consumidor de baixa renda. A empresa também apontou a inviabilidade de exigir declarações precisas de país de origem para itens usados, o que geraria um custo burocrático desproporcional.
Próximos passos e a decisão do governo americano
As audiências públicas sobre as tarifas propostas pelo governo americano aos produtos brasileiros estão em andamento. O USTR avaliará as manifestações das empresas e as informações coletadas para decidir sobre a imposição das taxas. A decisão terá implicações significativas não apenas para o comércio bilateral, mas também para a economia interna dos Estados Unidos e o custo de vida dos consumidores. O processo reflete um delicado equilíbrio entre políticas comerciais e as necessidades da indústria e do mercado consumidor.







