Uma interação simples entre duas professoras de psicologia na Universidade da Colúmbia Britânica (UBC), no Canadá, transformou-se em uma pesquisa aprofundada sobre a formação de hábitos. A Dra. Jiaying Zhao, especialista em mudanças comportamentais, foi questionada pela colega Dra. Elizabeth Dunn, focada em psicologia da felicidade, sobre como tornar a ação climática mais prazerosa.
Essa pergunta gerou uma revelação para Zhao, conforme ela compartilhou recentemente no podcast The Science of Happiness. A partir dessa conversa, as duas pesquisadoras iniciaram uma colaboração intensa, combinando suas áreas de conhecimento para explorar os mecanismos por trás da adoção de novos comportamentos.
O resultado dessa parceria é o novo livro intitulado “Leave the Lights On” (Deixe as Luzes Acesas), onde as autoras defendem que sentimentos como a alegria são muito mais eficazes para consolidar hábitos duradouros do que emoções negativas, como a culpa ou a vergonha. Este achado se alinha com o princípio do reforço positivo na psicologia comportamental, indicando que experiências agradáveis motivam a repetição de ações.
Entenda por que a vergonha falha e como a alegria impulsiona a mudança
A maior parte das tentativas de modificação de comportamento baseia-se em proibições, como “não coma carne vermelha”, “não falte ao treino” ou “não deixe as luzes acesas”. Essa metodologia, no entanto, falha em promover uma mudança efetiva, apesar de as emoções negativas associadas ao insucesso poderem captar a atenção inicialmente.
Zhao e Dunn descobriram que são as emoções positivas, como a sensação de alegria, que realmente contribuem para a criação de hábitos de longo prazo. Zhao explica que o condicionamento operante, um dos pilares da mudança comportamental, demonstra que somos mais propensos a realizar, repetir e intensificar uma ação quando ela nos proporciona bem-estar.
A Dra. Dunn observou essa dinâmica em sua própria rotina. Percebeu que chegava ao trabalho de bicicleta com um humor muito melhor do que quando enfrentava o trânsito. Da mesma forma, em suas relações pessoais, notou que a reprovação constante de um ex-namorado sobre o desperdício de energia, embora gerasse tensão e vergonha, não alterava seu comportamento. Zhao, conhecida por sua habilidade em calcular emissões, exemplificou que deixar as luzes acesas por toda uma vida equivaleria às emissões de carbono de apenas 13 hambúrgueres.
Conforme Dunn, o foco excessivo na moralização pode desviar a atenção do impacto real das ações. Ela salienta que, quando a moralização se torna dominante, as atitudes são frequentemente interpretadas como um julgamento sobre a pessoa, em vez de uma análise lógica da eficácia do comportamento.
Em um estudo recente, Zhao verificou que as pessoas demonstram maior disposição para adotar ações positivas quando são incentivadas a praticar mais um determinado comportamento, em vez de serem instruídas a parar de fazê-lo. Um exemplo prático seria “coma mais vegetais” em vez de “coma menos carne”. É importante ressaltar que os participantes que seguiram essa abordagem para a formação de hábitos relataram se sentir mais felizes durante o processo.
A abordagem de Dunn e Zhao sob a perspectiva da inteligência emocional
O trabalho desenvolvido por Dunn e Zhao ilustra a aplicação da inteligência emocional (IE) no contexto da formação de hábitos. A IE é definida como a habilidade de identificar e compreender as próprias emoções e as dos outros, utilizando essa percepção para atuar de maneira mais eficaz em relacionamentos, trabalho e na busca por objetivos. O modelo de IE abrange quatro competências principais: autoconhecimento, autogestão, consciência social e gestão de relacionamentos, e especialistas sugerem a realização de avaliações validadas de inteligência emocional para melhor compreensão pessoal.
A estratégia das emoções positivas proposta por Zhao e Dunn se alinha diretamente com a autogestão. Essa competência representa a capacidade de regular as próprias emoções e agir sobre elas de modo a gerar resultados construtivos. Ao selecionar conscientemente as emoções que se quer estimular, é possível fazer com que elas atuem a favor dos objetivos pessoais, em vez de prejudicá-los.
