Um grupo de pesquisadores sul-coreanos identificou que as estrelas no centro da pintura A Noite Estrelada, do pintor pós-impressionista holandês Vincent van Gogh, pertencem ao aglomerado estelar das Híades, localizado na constelação de Touro. O estudo foi publicado na quinta-feira (22) na revista científica Scientific Reports, do grupo Nature Portfolio, e aponta que a configuração celeste retratada na tela corresponde ao céu visível antes do amanhecer de 22 de julho de 1889 em Saint-Rémy-de-Provence, na França. A descoberta altera a datação tradicional adotada por historiadores da arte e pelo Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA), onde a obra integra a coleção permanente, que situava a criação em meados de junho daquele mesmo ano.
A investigação foi conduzida em conjunto pela empresa sul-coreana de ciência espacial e telescópios robóticos SLLAB e pela Escola de Pesquisa Espacial da Universidade Kyung Hee, em Seul, sob a liderança de Elijah Jeong-hyun Kim, primeiro autor do artigo, CEO da SLLAB e doutorando na instituição acadêmica, ao lado do coautor Ho Jin. “Aos meus olhos, o aglomerado estelar em A Noite Estrelada era o das Híades, na constelação de Touro. Mas estudos anteriores o classificavam como Áries”, disse Kim sobre a motivação inicial do trabalho.
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Método Procrustes mapeia cinco estrelas em A Noite Estrelada
Para testar a correspondência geométrica entre a pintura e o céu real sem depender de variações subjetivas da arte, os cientistas aplicaram uma técnica computacional chamada análise de forma Procrustes, um programa que compara padrões espaciais com base nas posições relativas de um grupo de astros, independentemente do tamanho ou da cor atribuídos pelo pintor na tela. O cruzamento estatístico indicou que as cinco estrelas centrais da composição formam o arranjo em formato de V característico das Híades, que subia no horizonte leste acompanhado pelo planeta Vênus e pela Lua antes do nascer do sol, apresentando a correspondência mais forte dentre todas as constelações alternativas testadas pela equipe.
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A precisão do método foi validada em outras telas de Van Gogh cujo conteúdo astronômico já é conhecido pela ciência. Os pesquisadores aplicaram a mesma ferramenta na representação da constelação da Ursa Maior presente na obra A Noite Estrelada sobre o Ródano e na região do Triângulo de Verão retratada na pintura Terraço do Café à Noite, obtendo um índice de compatibilidade geométrica equivalente ao registrado na análise da tela de Saint-Rémy-de-Provence.
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Em declaração originalmente em inglês, o primeiro autor detalhou o momento em que decidiu contestar a classificação antiga da obra: “Para um astrônomo observacional, o aglomerado de estrelas em A Noite Estrelada é o das Híades em Touro. Mas, no momento em que li os estudos anteriores explicando-o como Áries, ouvi a pintura me chamando”, afirmou Kim, em tradução livre. Na avaliação do pesquisador, a partir dos resultados obtidos pelo programa de computador, o ônus da prova na história da arte se inverteu, recaindo agora sobre quem tentar demonstrar que o quadro não poderia ter sido pintado no final de julho.
Dados da pesquisa sobre A Noite Estrelada na revista Scientific Reports
- Título original do artigo: The actual sky of Van Gogh’s Starry Night: a multidisciplinary reconstruction.
- Instituições responsáveis: Empresa espacial SLLAB e Escola de Pesquisa Espacial da Universidade Kyung Hee, na Coreia do Sul.
- Diferença morfológica em A Noite Estrelada: 8,17% de variação entre as cinco estrelas pintadas e o aglomerado real das Híades.
- Diferença morfológica em desenho posterior: 6,62% de variação medida em um estudo a bico de pena feito por Van Gogh após a pintura a óleo.
- Diferença morfológica de referência: 6,54% de variação medida na constelação da Ursa Maior no quadro A Noite Estrelada sobre o Ródano.
- Inclinação do arranjo estelar: 33,13 graus na pintura, dentro da faixa de 32,6 a 35,1 graus calculada para o céu real na manhã de 22 de julho de 1889.
Ciclo lunar e cartas de Van Gogh em Saint-Rémy-de-Provence
Além da medição matemática das posições estelares, a equipe sul-coreana reuniu registros meteorológicos históricos, simulações astronômicas e a correspondência pessoal do pintor holandês para reconstruir a cronologia do trabalho em 1889. A hipótese tradicional de que o quadro havia sido finalizado em meados de junho baseava-se em uma carta enviada por Van Gogh ao seu irmão Theo em 18 de junho de 1889, na qual o artista mencionava ter feito “um novo estudo” de um céu estrelado, mas os autores da nova pesquisa sustentam que essa referência inicial não significa que a tela definitiva estivesse concluída naquela data, podendo ter sido elaborada ao longo de várias sessões até o mês seguinte.
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O comportamento do ciclo lunar serviu como segundo critério físico para descartar a datação de meados de junho. As simulações mostram que, por volta de 19 de junho de 1889, a Lua se encontrava na fase minguante gibosa, apresentando um formato oval assimétrico com cerca de 63% da sua superfície total iluminada pelo Sol. Na tela exposta no MoMA, contudo, o artista desenhou uma fina Lua minguante crescente, fase astronômica que coincide com o céu da madrugada do final de julho.
As cartas redigidas durante o período de internação também trazem menções frequentes ao som de cigarras, um indicativo biológico do clima quente típico do mês de julho no sul da França, e registram observações constantes do planeta Vênus, chamado de estrela da manhã pelo pintor, sem qualquer citação à constelação de Áries. “As estrelas de Áries são relativamente fracas, dificilmente suficientes para inspirar um pintor ao amanhecer”, declarou Kim ao explicar o horário em que o holandês observava o horizonte.
Quatro décadas de debates astronômicos sobre A Noite Estrelada desde 1984
A tentativa de usar a posição dos astros para determinar o dia e o horário exatos da criação de A Noite Estrelada começou há cerca de 40 anos no meio acadêmico norte-americano. As primeiras análises astronômicas da tela foram conduzidas em 1984 pelo historiador da arte Albert Boime e pelo astrônomo George Abell, na Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA), seguidas em 1986 por um levantamento do astrônomo Charles Whitney, na Universidade Harvard. Ambos os trabalhos da década de 1980 propuseram que as estrelas centrais representavam a constelação de Áries, mas chegaram a conclusões conflitantes entre si sobre a configuração do céu.
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Vincent van Gogh viveu internado por doze meses, entre 1889 e 1890, no asilo psiquiátrico de Saint-Paul-de-Mausole, em Saint-Rémy-de-Provence. Para verificar in loco as condições de observação do artista, Elijah Jeong-hyun Kim viajou até a instituição francesa nos meses de junho e julho de 2019. A partir da janela do quarto ocupado pelo pintor e dos esboços deixados por ele, a equipe reconstruiu um campo de visão estreito de cerca de 18 graus voltado para o horizonte leste.
O pesquisador do telescópio espacial Hubble da agência espacial norte-americana (NASA), James Beattie, ressaltou que a visão do céu disponível a partir do quarto no asilo psiquiátrico era bastante restrita durante o período da internação. “Se a identificação se confirmar, poderemos olhar para o céu hoje e reconhecer as mesmas estrelas que Van Gogh viu”, afirmou Beattie.
