Fóssil de Archaeopteryx revela penas inéditas e explica voo

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Fóssil ave do Jurássico - ca2hill/ istockphoto.com Foto: Fóssil ave do Jurássico - ca2hill/ istockphoto.com

Pesquisadores do Field Museum of Natural History, em Chicago, nos Estados Unidos, descreveram o 14º exemplar conhecido de Archaeopteryx e identificaram tecidos moles e penas inéditas que explicam como as primeiras aves conseguiam voar. O estudo, publicado na revista científica Nature em 14 de maio de 2025, analisa um fóssil de aproximadamente 150 milhões de anos que reforça a transição evolutiva entre dinossauros e aves prevista pelo naturalista britânico Charles Darwin.

Apelidado de Chicago Archaeopteryx, o fóssil do Período Jurássico tem o tamanho aproximado de um pombo, o que faz dele o menor exemplar da espécie já registrado pela ciência. A pesquisa foi liderada por Jingmai O’Connor, curadora associada de répteis fósseis no Field Museum, em parceria com Hu Han, pesquisador do Instituto de Paleontologia de Vertebrados e Paleoantropologia (IVPP) da Academia Chinesa de Ciências.

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“O Archaeopteryx não é o primeiro dinossauro a ter penas, ou o primeiro dinossauro a ter ‘asas’. Mas achamos que é o dinossauro mais antigo conhecido que foi capaz de usar suas penas para voar”, afirmou Jingmai O’Connor, em tradução livre.

Penas tertiais do Archaeopteryx explicam a capacidade de voo ativo

A principal descoberta anatômica no Chicago Archaeopteryx foi a identificação, pela primeira vez em um fóssil do gênero, de penas secundárias internas especializadas chamadas tertiais. Localizadas no úmero, o osso da parte superior do braço, e presentes nas duas asas do exemplar, essas estruturas fechavam a abertura entre a asa e o corpo do animal para formar uma superfície aerodinâmica contínua capaz de gerar sustentação no ar, característica ausente em dinossauros emplumados não aviários, cujas penas paravam na altura do cotovelo.

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“Essas penas estão ausentes em dinossauros emplumados que são parentes próximos das aves, mas não são exatamente aves. As penas das asas deles param no cotovelo. Isso nos diz que esses dinossauros não aviários não podiam voar, mas o Archaeopteryx podia”, declarou O’Connor.

Em um desdobramento da pesquisa com o mesmo fóssil, publicado em 2 de fevereiro de 2026 na revista científica The Innovation, a equipe de O’Connor identificou novas estruturas ligadas ao gasto calórico do animal. O exemplar preservou ossos complexos da língua, uma ponta do bico sensível e papilas orais projeções carnudas no céu da boca que ajudavam a capturar e engolir alimentos para suprir a alta demanda de energia exigida pelo voo.

Preparação do fóssil no Field Museum preservou ossos em três dimensões

Diferentemente da maioria dos outros espécimes já encontrados, que estão incompletos e achatados na rocha, o exemplar de Chicago permaneceu quase inteiro, sem apenas um dedo, e manteve os ossos em três dimensões. “Os ossos estão simplesmente preservados de forma primorosa em 3D; você realmente não vê isso em todos os outros espécimes. Também temos mais tecidos moles fossilizados associados ao nosso espécime do que vimos em qualquer outro indivíduo”, disse a curadora associada do Field Museum.

O processo de preparação no museu norte-americano foi chefiado pela preparadora chefe de fósseis Akiko Shinya. A equipe utilizou exames de microtomografia computadorizada e luz ultravioleta para distinguir os ossos minúsculos e os tecidos delicados da matriz de rocha calcária sem danificar o material externo.

A análise detalhada da pele e do esqueleto permitiu mapear como o animal se movimentava fora do ar. O formato das almofadas plantares preservadas nos pés indica adaptação para caminhar no solo, sem garras especializadas para a captura de presas, enquanto vestígios de pele no dedo maior da mão direita mostram que o dedo menor era livre e móvel na ponta, o que permitia escalar superfícies, além de o fóssil apresentar uma morfologia do céu da boca intermediária entre dinossauros troodontídeos e aves do Período Cretáceo e a primeira coluna vertebral completa conhecida do gênero, provando que a cauda era mais longa do que a ciência registrava até então.

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“Mas o nosso espécime está tão bem preservado e tão bem preparado que estamos de fato aprendendo uma tonelada de novas informações, da ponta do focinho à ponta da cauda”, afirmou O’Connor.

Dados técnicos e cronologia do Chicago Archaeopteryx

  • Espécime: 14º exemplar conhecido de Archaeopteryx descrito pela ciência, o menor já registrado.
  • Idade e origem: cerca de 150 milhões de anos (Período Jurássico), retirado de depósitos de calcário perto de Solnhofen, no sul da Alemanha, antes de 1990.
  • Agosto de 2022: chegada do fóssil ao Field Museum, em Chicago, após aquisição junto a colecionadores privados com apoio de doadores.
  • Tempo de preparação: mais de um ano de trabalho liderado por Akiko Shinya com uso de luz ultravioleta e microtomografia computadorizada.
  • 27 de setembro de 2024: início da exibição pública do fóssil no Field Museum.
  • 14 de maio de 2025: publicação do estudo principal na revista Nature (DOI: 10.1038/s41586-025-08912-4).
  • 2 de fevereiro de 2026: publicação do segundo estudo na revista The Innovation sobre a anatomia bucal e da língua.

Relação do Archaeopteryx com a teoria da evolução de Charles Darwin

O exemplar analisado nos Estados Unidos foi descoberto por um colecionador privado antes de 1990 em Solnhofen, na Alemanha, e permaneceu inacessível para pesquisas científicas em coleções particulares até ser comprado pelo Field Museum em agosto de 2022. A região alemã é a mesma onde o primeiro fóssil de Archaeopteryx foi encontrado há mais de 160 anos.

Aquela primeira descoberta ocorreu pouco tempo depois da publicação do livro “A Origem das Espécies”, lançado por Charles Darwin em 1859, no qual o naturalista propôs a teoria da evolução por seleção natural. Na época, o Archaeopteryx forneceu a primeira grande evidência fóssil das ideias de Darwin ao exibir formas de transição entre répteis ou dinossauros como dentes, garras nas asas e uma longa cauda óssea e as aves modernas, caracterizadas por penas e asas.

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O novo exemplar de Chicago amplia o contexto das previsões de Darwin ao demonstrar que as características corporais surgiram em combinações distintas ao longo das gerações, e não todas de uma só vez. As análises sobre o fóssil continuam em andamento no Field Museum e tiveram novos detalhes destacados em um vídeo especial publicado pela Encyclopaedia Britannica em 2 de outubro de 2026.

Bruna Santos é colaboradora da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve e colabora para o portal desde 2024. Formação: Professora.

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