Estudo explora método para enfraquecer o El Niño com uso de nuvens modificadas

El NiñoEl Niño

El Niño - Thrive Studios ID/shutterstock.com

Na terça-feira, 12 de julho de 2026, um grupo de cientistas nos Estados Unidos divulgou uma pesquisa que, embora pareça ficção científica, tem sua origem em um evento trágico e real.

Os grandes incêndios florestais que devastaram a Austrália entre 2019 e 2020, conhecidos como “Black Summer”, liberaram tanta fumaça na atmosfera que ela foi capaz de alterar o comportamento das nuvens sobre o Oceano Pacífico.

O fenômeno, identificado e nomeado por outra equipe de pesquisa em 2023, teria desempenhado um papel crucial no resfriamento das águas do Pacífico, contribuindo diretamente para o estabelecimento de uma fase de La Niña que perdurou de 2020 a 2023.

Foi esse acontecimento climático inesperado que serviu de base para a nova pesquisa conduzida por cientistas norte-americanos, publicada recentemente na renomada revista científica “Science Advances”.

A questão central que os pesquisadores buscaram investigar era: se a fumaça proveniente dos incêndios conseguiu inclinar o clima do Pacífico para um estado mais frio, seria factível reproduzir intencionalmente esse efeito?

A ideia seria utilizá-lo com o propósito de mitigar a intensidade de um El Niño antes que ele pudesse provocar danos significativos.

É importante entender que o El Niño e a La Niña representam duas fases distintas de um mesmo fenômeno climático, denominado ENOS (El Niño-Oscilação Sul). O El Niño se caracteriza pelo aquecimento das águas da região equatorial do Oceano Pacífico em 0,5°C ou mais.

Este fenômeno, que tipicamente acontece a cada dois a sete anos e tem uma duração média de doze meses, provoca um aumento direto na temperatura global. Em contrapartida, a La Niña é o oposto, marcando um resfriamento das mesmas águas e gerando impactos igualmente notáveis, mas com consequências inversas.

A metodologia explorada nos modelos computacionais é conhecida como clareamento de nuvens marinhas (ou MCB, na sigla em inglês).

Esta proposta envolve a pulverização de minúsculas partículas de sal marinho na atmosfera. O objetivo é tornar as nuvens mais baixas mais claras e, consequentemente, mais reflexivas, fazendo com que uma porção maior da radiação solar seja refletida de volta para o espaço, em vez de aquecer o oceano.

Essa abordagem é classificada como geoengenharia solar, um campo tecnológico que, até então, era predominantemente debatido como uma ferramenta de longo prazo para controlar o aquecimento global, o que sempre gerou grande controvérsia.

Utilizando um sofisticado modelo climático, a equipe simulou o impacto que o clareamento artificial das nuvens teria se fosse aplicado antes de dois dos El Niños mais severos das últimas décadas: os ocorridos em 1997-1998 e em 2015-2016.

Os autores indicaram que os resultados foram encorajadores do ponto de vista físico. A intervenção demonstrou capacidade, nas simulações, de reduzir a força desses eventos climáticos, desde que fosse implementada precocemente e por um período adequado.

“Uma das maiores preocupações sociais em torno da geoengenharia é o fato de que, se a usarmos para reduzir riscos climáticos de longo prazo, temos que aplicá-la continuamente, por tempo indefinido”, explicou Jessica Wan, pesquisadora líder do estudo e pós-doutoranda na Universidade de Chicago.

É essa a diferença que os autores destacam em relação a outras propostas de geoengenharia: em vez de tentar segurar o termômetro do planeta ano após ano — um compromisso de décadas, com todos os riscos políticos e técnicos que isso implica —, a ideia seria agir só durante a janela de alguns meses em que um El Niño está se formando.

Katharine Ricke, professora da Scripps Oceanography e coautora do estudo, costuma defender uma abordagem cautelosa com a geoengenharia.

Mas, segundo ela, esse experimento acidental da natureza deu um fôlego extra à pesquisa.

“Foi o avanço-chave para que isso se tornasse uma pergunta de pesquisa viável”, afirmou. “Sem essa oportunidade de validação, acho que nossas descobertas não seriam tão confiáveis.”

As simulações revelaram que quanto mais cedo o clareamento das nuvens era iniciado — no começo da fase de desenvolvimento do El Niño — e quanto maior sua duração, mais eficaz era o resultado em conter o fenômeno. Intervenções realizadas tardiamente, apenas no pico do evento, apresentaram impacto mínimo.

Os pesquisadores também identificaram um efeito colateral que exige consideração: nas simulações que obtiveram maior sucesso em atenuar o El Niño, a subsequente fase de La Niña tendeu a ocorrer mais cedo e, em certos cenários, com maior intensidade. Este achado serve como um lembrete contundente de que qualquer alteração em um componente do sistema climático global invariavelmente provoca reações em outros.

Ainda assim, para Ricke, a proposta merece ser seriamente avaliada. “É uma forma diferente de pensar a geoengenharia”, declarou a pesquisadora.

“Precisamos entender muito mais, mas, se existe uma maneira de usar isso, somada às demais ferramentas de redução de risco, para mitigar El Niños, por que não considerar?”

O caráter experimental da pesquisa em laboratório

Foto: El Niño – Sentinel-6 Michael Freilich/NASA/NOAA

É crucial reiterar que nenhuma dessas descobertas foi testada em condições reais. Os próprios autores do estudo enfatizam que o trabalho se trata de uma “prova de conceito”, e não de um plano de ação concreto.

Toda a análise foi realizada estritamente dentro de um único modelo climático. Ademais, os pesquisadores informam que não há conhecimento de qualquer iniciativa para aplicar essa técnica no El Niño que se prevê ser potencialmente forte para 2026, conforme projeções sazonais.

Especialistas independentes, consultados pelo Science Media Centre da Espanha e não envolvidos na pesquisa, corroboram a necessidade de cautela.

Carlos García-Soto, pesquisador do CSIC (Instituto Espanhol de Oceanografia), destacou que a própria equipe de autores foi transparente sobre os limites do trabalho.

“O estudo é uma contribuição científica interessante porque explora uma possibilidade física por meio de simulação climática. No entanto, convém interpretar seus resultados com prudência (…) modificar deliberadamente um sistema climático tão complexo quanto o El Niño exige um nível de evidência muito superior ao necessário para demonstrar que uma hipótese é fisicamente plausível”, avalia.

De forma similar, o meteorologista Ernesto Rodríguez Camino, presidente da Associação Meteorológica Espanhola, enxerga a pesquisa como um ponto de partida para novas investigações, mesmo que uma aplicação prática ainda esteja distante.

“É de se supor que este trabalho dará origem a muitos outros trabalhos que explorem formas de mitigar extremos meteorológicos e climáticos, origem de tantas perdas humanas e materiais”, pontuou.

A cautela dos especialistas se justifica pela magnitude do que está em jogo. Conforme os próprios autores do estudo, eventos de El Niño de grande intensidade já resultaram em trilhões de dólares em prejuízos para a economia global. Essa quantia ajuda a explicar por que, apesar das incertezas, a ideia de tentar “desarmar” um El Niño antes que ele ocorra é vista por essa equipe de cientistas como uma questão que merece ser continuamente investigada.

Entenda o El Niño e seus impactos globais no clima

O El Niño representa um aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico, especificamente na região próxima à linha do Equador.

Ele faz parte de um ciclo climático natural que alterna entre fases quentes (El Niño), frias (La Niña) e neutras, gerando efeitos em diversas partes do globo.

Esse aquecimento provoca mudanças na circulação da atmosfera, alterando os padrões de chuvas e temperaturas em distintas localidades do planeta.

No Brasil, os efeitos tendem a ser desiguais: enquanto a região Sul geralmente experimenta maiores volumes de chuva, áreas do Norte e Nordeste podem enfrentar períodos de seca mais prolongados.

O fenômeno também exerce influência sobre a temperatura global. Em anos de El Niño mais intenso, o planeta frequentemente registra um calor acima da média histórica, somando-se ao aquecimento global já em curso.

A intensidade do El Niño varia de um evento para outro, e com ela, seus impactos. Em um planeta que já se encontra mais quente, mesmo episódios de intensidade moderada podem manifestar efeitos mais severos do que os observados no passado.