James Webb revela: cometa interestelar 3I/ATLAS pode ter até 12 bilhões de anos e é um fóssil dos primórdios da Via LácteaPor Maria
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O Telescópio Espacial James Webb (JWST) realizou observações que sugerem uma idade impressionante para o cometa interestelar 3I/ATLAS. Estimativas preliminares indicam que o corpo celeste pode ter se formado entre 10 bilhões e 12 bilhões de anos, marcando sua origem nos primórdios da Via Láctea, muito antes da existência do Sistema Solar.
Esta conclusão inicial é parte de um estudo disponibilizado em pré-publicação no servidor Research Square. O trabalho científico aguarda a revisão por pares e a consequente publicação em um periódico especializado. Os dados foram coletados pelo JWST em dezembro de 2025, período em que o cometa se aproximou da Terra.
A análise revela uma composição química singular no cometa 3I/ATLAS, divergente daquela encontrada em cometas que se originaram no nosso próprio sistema planetário. Essa diferença corrobora a tese de que o objeto é de origem extrassolar e que sua formação remonta a uma fase consideravelmente mais antiga da galáxia.
Descoberta do cometa 3I/ATLAS: um visitante raro no sistema solar
A identificação de objetos que chegam de fora do Sistema Solar é um evento de extrema raridade na astronomia. Historicamente, apenas três desses corpos foram confirmados: o asteroide 1I/ʻOumuamua, avistado em 2017; o cometa 2I/Borisov, detectado em 2019; e, mais recentemente, o 3I/ATLAS. Especialistas acreditam na existência de outros visitantes, mas que podem ter escapado à nossa detecção.
O cometa 3I/ATLAS foi primeiramente registrado em 2025, ao adentrar a porção interna do Sistema Solar em uma velocidade de aproximadamente 221 mil quilômetros por hora. Sua rota, caracterizada como hiperbólica, confirmou de imediato que o objeto não estava sob a influência gravitacional do Sol, atestando sua natureza interestelar.
Medições realizadas pelo Telescópio Espacial Hubble indicam que o núcleo do cometa apresenta um diâmetro que varia entre 440 metros e 5,6 quilômetros.
Após a sua entrada em nosso Sistema Solar, o 3I/ATLAS alcançou seu periélio, ponto de maior proximidade com o Sol, na data de 29 de outubro de 2025. Posteriormente, em 19 de dezembro, efetuou sua maior aproximação da Terra, passando a uma distância de aproximadamente 270 milhões de quilômetros.
Em 22 de dezembro, apenas três dias após sua passagem mais próxima da Terra, o Telescópio James Webb capturou observações minuciosas da nuvem de gás exalada pelo cometa. Essas captações constituem a base para a recente análise científica.

Método para calcular a idade do cometa interestelar
A aproximação de um cometa de uma estrela provoca a sublimação do gelo em sua superfície, transformando-o diretamente de sólido para gasoso devido ao calor. Esse processo resulta na formação da “coma”, uma nuvem de gás que circunda o núcleo do cometa.
Por meio da análise da composição dessa nuvem, os pesquisadores conseguem deduzir as substâncias constituintes do corpo original do cometa e as condições sob as quais ele foi formado.
Para o cometa 3I/ATLAS, os cientistas examinaram a proporção de isótopos, que são variações de um mesmo elemento químico. O foco principal da pesquisa incidiu sobre o hidrogênio e o carbono encontrados na água e em outras moléculas emitidas pelo objeto celeste.
Os resultados obtidos trouxeram à tona uma descoberta peculiar: a água do 3I/ATLAS contém proporções excepcionalmente elevadas de deutério, um isótopo mais pesado do hidrogênio. Essa concentração supera a de todos os cometas já registrados dentro do nosso Sistema Solar.
Adicionalmente, a relação entre os isótopos de carbono presentes no cometa excede os valores habituais observados em corpos celestes que se originaram nas proximidades do Sol. Tais discrepâncias sugerem que o cometa, em sua formação, esteve inserido em um ambiente significativamente distinto do nosso.
De acordo com os pesquisadores, a assinatura isotópica aponta para uma formação do cometa 3I/ATLAS há aproximadamente 10 bilhões a 12 bilhões de anos. Isso o tornaria mais de duas vezes mais antigo que o planeta Terra, cuja idade é calculada em cerca de 4,5 bilhões de anos.
Consequentemente, o cometa seria também substancialmente mais antigo que o próprio Sistema Solar, que teve sua origem estimada há cerca de 4,6 bilhões de anos.
Na projeção mais ousada, a idade do cometa se aproximaria da própria Via Láctea, cuja formação inicial data de aproximadamente 13,6 bilhões de anos. Em termos comparativos, o Universo em sua totalidade é estimado em 13,8 bilhões de anos, conforme os dados cosmológicos mais recentes.
Os dados coletados ainda possibilitam uma estimativa das condições físicas do ambiente de formação do cometa. O estudo sugere que o 3I/ATLAS provavelmente se originou em uma área de temperatura extremamente baixa de um disco protoplanetário, que é a nuvem de gás e poeira que orbita estrelas jovens, onde planetas e cometas tomam forma.
As temperaturas estimadas para esse berçário cósmico rondam os –243 °C. Esse ambiente gelado e protegido teria favorecido a conservação de vastas quantidades de moléculas voláteis, incluindo água, monóxido de carbono e outros compostos ricos em hidrogênio.
A composição encontrada pode ter profundas implicações para a trajetória química da galáxia. Caso a estimativa de idade se confirme, isso indica que ambientes propícios à criação de moléculas complexas – inclusive aquelas consideradas precursoras da vida – podem ter existido bilhões de anos antes do surgimento do Sistema Solar.
Desafios na compreensão total da composição do cometa
Embora haja progressos significativos, diversas questões permanecem sem solução. É, na prática, inviável precisar qual sistema estelar foi a origem primária do 3I/ATLAS. Após ser expulso de seu sistema de nascimento, o cometa possivelmente atravessou o espaço interestelar por um período de bilhões de anos.
Durante sua longa jornada, o cometa esteve exposto a raios cósmicos e outras formas de radiação de alta energia. Essa exposição prolongada pode ter provocado alterações parciais em sua composição química original.
Existem indícios de que o objeto sofreu forte irradiação, o que complica a reconstituição de sua trajetória completa. Por essa razão, os cientistas consideram as recentes medições como um fragmento a mais em um quebra-cabeça cósmico de proporções muito maiores.
Enquanto os pesquisadores prosseguem com a análise dos dados, o cometa continua seu rápido afastamento. Após sua passagem pela área interna do Sistema Solar, o 3I/ATLAS agora se dirige para as profundezas do espaço. Em meados de março, ele realizará sua maior aproximação de Júpiter, passando a uma distância de aproximadamente 54 milhões de quilômetros do planeta, uma proximidade significativamente maior do que sua passagem pela Terra.
Ao longo dos próximos anos, o cometa manterá sua trajetória para fora do Sistema Solar. Ele está previsto para cruzar a órbita de Saturno em julho, a de Urano em abril de 2027 e a de Netuno em março de 2028. Posteriormente, o 3I/ATLAS deve se perder novamente no vasto espaço interestelar.







