Fósseis no Algarve ligam transformações climáticas globais à origem remota dos mamíferos modernosPor Maria
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Cientistas da expedição DinoDawn encontraram mais de cem microfósseis em formações rochosas avermelhadas perto de Loulé, no interior do Algarve, em Portugal. As peças datam de aproximadamente 230 milhões de anos atrás, durante o período Triássico Superior, e incluem vestígios menores do que um grão de arroz pertencentes a cinodontes, grupo de animais vertebrados que originou os mamíferos modernos e a linhagem dos seres humanos.
O projeto reúne pesquisadores de universidades portuguesas e da Alemanha, além de voluntários e especialistas vinculados ao The Explorers Club. Os trabalhos de campo realizados em 2025 já haviam indicado a presença dessas criaturas diminutas no sedimento local. A equipe retornou às escavações na região algarvia em 17 de outubro de 2026 para aprofundar a triagem e comprovar o registro fóssil.

Rochas de Loulé preservam ecossistema anterior aos dinossauros
A paisagem do Algarve há 230 milhões de anos apresentava rios que cortavam planícies áridas e desaguavam em lagos rasos, em uma época anterior à formação do oceano Atlântico, quando os continentes estavam unidos na Pangeia. Os dinossauros ainda eram raros no planeta, e as margens eram dominadas por fitossauros semelhantes a crocodilos e por anfíbios gigantes. Em 2015, cientistas identificaram na mesma área o Metoposaurus algarvensis, predador aquático com cabeça achatada que chegava a dois metros de comprimento.
Os pesquisadores agora concentram esforços em fragmentos ósseos e dentários de pequenas dimensões. Enquanto esqueletos de grande porte demandam a retirada de blocos protegidos por gesso, com mais de 20 estruturas já transportadas para análise laboratorial, os vestígios dos ancestrais dos mamíferos exigem a coleta manual de quilos de terra avermelhada, lavada e filtrada em malhas milimétricas para separar fragmentos imperceptíveis a olho nu.
Evento Pluvial Carniano impulsionou transformações biológicas profundas
A importância dos fósseis algarvios conecta-se a mudanças no clima terrestre ocorridas entre 234 e 232 milhões de anos atrás, intervalo denominado Evento Pluvial Carniano. O período foi marcado por intensa atividade vulcânica global, aumento das temperaturas e chuvas torrenciais prolongadas que transformaram zonas secas e alteraram ecossistemas continentais.
Nesse cenário de transição ecológica, linhagens de animais desenvolveram características biológicas essenciais para a sobrevivência em novos habitats. Um estudo publicado na revista científica Nature, em 2022, com a participação do paleontólogo Ricardo Araújo, comprovou por meio da microtomografia do ouvido interno de crânios fossilizados que os cinodontes desenvolveram a capacidade de regulação térmica corporal própria, marco da evolução dos mamíferos, exatamente em fases próximas a essa convulsão climática.
Peneiramento minucioso recupera microfósseis em solo português
As técnicas aplicadas no interior de Portugal priorizam a integridade mecânica de dentes isolados e pequenas vértebras, materiais fundamentais para descrever a anatomia dos cinodontes. Cada porção de sedimento recolhida em campo passa por peneiras sucessivas com água corrente, permitindo a separação de minerais densos e grãos de rocha estéreis.
Mais de uma centena de pequenos elementos fósseis retirados dessa forma estão em análise comparativa com acervos internacionais. Os dados anatômicos obtidos ao microscópio permitirão identificar se as populações que viveram no sul de Portugal pertencem a gêneros já conhecidos da Europa Central ou se representam espécies inéditas na paleontologia mundial.
Ficha da expedição paleontológica em Portugal
- Local das escavações: interior do município de Loulé, região do Algarve
- Idade dos sedimentos: 230 milhões de anos, Triássico Superior
- Grupo biológico investigado: cinodontes, ancestrais diretos dos mamíferos
- Material recuperado: mais de cem microfósseis e mais de 20 blocos engessados
- Instituições participantes: universidades de Portugal e da Alemanha com apoio do The Explorers Club
A tradição da paleontologia portuguesa costuma destacar as descobertas de dinossauros de grande porte na Bacia Lusitaniana, como os achados do Jurássico da região da Lourinhã. Os registros do interior algarvio mostram uma fase consideravelmente mais antiga da vida terrestre na Península Ibérica, esclarecendo a origem de linhagens biológicas que sobreviveram a extinções em massa e permitiram o surgimento dos mamíferos atuais.







