SUS intensifica assistência a povos indígenas do Ceará com quase mil consultas especializadas e entrega de óculos
O Sistema Único de Saúde (SUS) está realizando uma série de atendimentos especializados e procedimentos em comunidades indígenas do Ceará, com uma terceira expedição que visa alcançar aproximadamente 11 mil pessoas de 79 aldeias. A iniciativa, que prevê a oferta de cerca de 980 consultas em diversas especialidades, além da entrega de óculos de grau, busca diminuir a carência de serviços de saúde em regiões onde o acesso é dificultado por longas distâncias e desafios de deslocamento.
A ação teve início no município de Itarema, onde os serviços estão disponíveis até o domingo, 16 de agosto. Na sequência, a partir de quarta-feira, 19 de agosto, e se estendendo até o dia 22, as equipes de saúde levarão os atendimentos para as aldeias localizadas em Crateús. Esta mobilização é parte de um esforço conjunto para reforçar a integração entre a Atenção Primária à Saúde Indígena e a Rede de Atenção à Saúde (RAS), assegurando que as populações mais isoladas tenham acesso a cuidados essenciais.

Avanço na assistência: Detalhes da terceira expedição
A expedição atual é a terceira do tipo promovida pelo SUS, demonstrando um compromisso contínuo com a saúde das comunidades indígenas. A programação inclui um vasto leque de serviços, com foco em especialidades que frequentemente apresentam maior demanda reprimida. A meta é realizar um total de 980 consultas especializadas, distribuídas entre:
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- Oftalmologia: 490 consultas, essenciais para a detecção e correção de problemas de visão.
- Clínica Médica: 175 atendimentos, cobrindo diagnósticos gerais e acompanhamento de condições crônicas.
- Pediatria: 175 consultas, dedicadas à saúde e desenvolvimento infantil.
- Saúde da Mulher: 140 atendimentos, incluindo exames preventivos e acompanhamento ginecológico.
Além das consultas, a iniciativa engloba a realização de procedimentos importantes, como colposcopias, e a inserção de métodos contraceptivos como o dispositivo intrauterino (DIU) e o Implanon. A entrega de óculos de grau, baseada na indicação clínica, também integra os serviços oferecidos, impactando diretamente a qualidade de vida dos beneficiados. Os atendimentos abrangem os Polos Base de Itarema, Crateús, Monsenhor Tabosa e Poranga, atendendo aos povos Tremembé, Potyguara, Kariri, Kalabaça, Tabajara, Tupinambá e Gavião.
Vozes da aldeia: O impacto direto na vida indígena
A presença dos serviços de saúde diretamente nas comunidades é um diferencial significativo, como ressalta Francisco da Silva Félix, um idoso Tremembé de 87 anos. Morador pioneiro da Aldeia Varjota, em Itarema, e uma figura respeitada por seus 12 filhos, netos e bisnetos, ele foi um dos primeiros a realizar um exame de vista durante a ação. “É muito bom ser atendido aqui, perto da minha casa, dentro da aldeia. Moro aqui desde que nasci. O atendimento foi muito bom, o pessoal me tratou muito bem. Espero melhorar ainda mais da minha visão”, compartilhou Francisco, que enfrenta limitações visuais no olho esquerdo.
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O depoimento de Francisco ilustra a importância da descentralização dos serviços de saúde, aproximando o atendimento de quem mais precisa e superando as barreiras geográficas. A possibilidade de receber cuidados médicos sem precisar se deslocar por longas distâncias representa não apenas conveniência, mas um acesso real à saúde para muitos que, de outra forma, teriam dificuldades em obter assistência.
Estratégia integrada: Fortalecendo a atenção primária
A iniciativa no Ceará é fruto de uma colaboração estratégica entre o governo estadual e entidades parceiras, incluindo a Agência Brasileira de Apoio à Gestão do SUS (AgSUS) e o Instituto Suel Abujamra, por meio do Projeto Aldeia em Foco. Essa parceria é fundamental para fortalecer a integração entre a atenção primária à saúde indígena e a rede de atenção mais ampla. A ação está alinhada ao programa “Agora Tem Especialistas”, instituído pela Lei nº 15.233, de 7 de outubro de 2025, que visa ampliar a disponibilidade de profissionais em áreas carentes.
Este modelo de atuação itinerante é cuidadosamente planejado em articulação com as Equipes Multidisciplinares de Saúde Indígena (EMSI) e a Rede de Atenção à Saúde local. A abordagem respeita as particularidades culturais, territoriais e assistenciais de cada povo atendido, seguindo as diretrizes da Política Nacional de Atenção à Saúde dos Povos Indígenas (PNASPI). Essa estrutura garante que os serviços sejam não apenas eficazes, mas também culturalmente sensíveis e apropriados.
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Olhar indígena na gestão: Participação e respeito cultural
A participação ativa de lideranças e gestores indígenas no acompanhamento das ações de saúde é um pilar central da iniciativa, reforçando seu caráter participativo e inclusivo. Lucinha Tremembé, Secretária de Saúde Indígena e membro do povo Tremembé, destacou a relevância dessa presença. “Sou indígena do povo Tremembé e estar aqui, no chão da aldeia, acompanhando esse trabalho, é motivo de muita satisfação”, afirmou.
Para a secretária, essa proximidade e envolvimento demonstram um novo modelo de assistência, construído com base no respeito às especificidades culturais dos povos indígenas e no empenho em superar obstáculos geográficos e logísticos para garantir um acesso equitativo à saúde. Essa perspectiva é crucial para a efetividade das políticas públicas, assegurando que as ações de saúde reflitam as reais necessidades e contextos das comunidades.
Alcance e estrutura: O SUS nas comunidades do Ceará
Antes de chegar ao Ceará, a expedição do SUS já havia beneficiado outras regiões do país. A primeira edição ocorreu na Terra Indígena Andirá-Marau, em Maués (AM), atendendo aos povos assistidos pelo Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI) Parintins. Posteriormente, a ação se deslocou para o território do povo Pirahã, no sul do Amazonas, prestando assistência aos indígenas da área de cobertura do DSEI Porto Velho.
A estrutura do Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI) Ceará é robusta, atendendo a uma população de aproximadamente 31,7 mil indígenas aldeados, distribuídos em 27 municípios, sendo 18 no Ceará e 9 no Piauí. O DSEI Ceará é composto por 14 Polos Base, 27 Unidades Básicas de Saúde Indígena (UBSI) e uma Casa de Saúde Indígena (Casai), formando uma rede de apoio essencial para a saúde dessas comunidades. A integração com órgãos como a Sesai, AgSUS e gestores estaduais e municipais do SUS é fundamental para qualificar o cuidado e ampliar a resolutividade da atenção primária.














