Deepfakes de nudez entre jovens: como identificar os danos psicológicos e o que fazer

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Menino triste com notebook na cama Foto: Menino triste com notebook na cama -New Africa/Shutterstock.com

A criação e o compartilhamento de imagens íntimas falsas, conhecidas como deepfakes, têm se espalhado rapidamente entre adolescentes no Brasil, gerando sérios danos psicológicos e desafios legais. O fenômeno, que utiliza inteligência artificial para manipular fotos ou vídeos, atingiu proporções preocupantes, levantando alertas sobre a necessidade de proteção às vítimas e de medidas efetivas de combate. A dimensão do problema é vasta e complexa, afetando a saúde mental de muitos jovens e exigindo uma resposta coordenada entre diferentes setores da sociedade.

O avanço das imagens manipuladas entre adolescentes

O uso indevido de tecnologias de inteligência artificial para criar deepfakes de nudez, especialmente com o rosto de adolescentes, representa uma grave violação de direitos e um crime com consequências devastadoras. Essas imagens são frequentemente compartilhadas em grupos de amigos, redes sociais ou plataformas de mensagens, ampliando o alcance do abuso e expondo as vítimas a um ciclo de humilhação e sofrimento. A facilidade de acesso a ferramentas de edição, muitas vezes gratuitas e intuitivas, contribui para a proliferação desses conteúdos, tornando o desafio ainda maior para pais, educadores e autoridades. A ausência de consentimento torna a prática especialmente perversa, transformando a imagem de um indivíduo em ferramenta de assédio e extorsão.

Graves consequências psicológicas para as vítimas de deepfake

As repercussões para a saúde mental das vítimas são profundas e duradouras. Especialistas em psicologia alertam que a descoberta de ter a imagem alterada e exposta em um contexto íntimo e falso pode desencadear uma série de transtornos. Entre eles estão quadros de ansiedade severa, depressão profunda, crises de pânico, baixa autoestima e isolamento social. Muitos adolescentes atingidos podem desenvolver pensamentos suicidas ou automutilação devido ao estigma e à vergonha associados à exposição. O impacto se estende para além do ambiente digital, afetando o desempenho escolar, as relações familiares e a capacidade de construir vínculos de confiança. A sensação de impotência e a dificuldade em reverter a situação agravam o sofrimento.

Celular
Celular – Foto: DuoNguyen / Unsplash

O que a legislação brasileira prevê para o combate aos deepfakes

No Brasil, embora não exista uma lei específica para deepfakes de nudez, diversas previsões legais podem ser aplicadas para responsabilizar os infratores. A Lei Carolina Dieckmann (Lei nº 12.737/2012) tipifica o crime de invasão de dispositivo informático, que pode ser usado caso o acesso à foto original da vítima tenha ocorrido por meio de hacking. A Lei nº 13.718/2018 incluiu o crime de divulgação de cena de estupro ou de cena de sexo ou pornografia sem o consentimento da vítima. Além disso, o Código Penal prevê crimes contra a honra, como difamação e injúria, e crimes de falsa identidade. O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) oferece proteção adicional a menores de idade, e o Marco Civil da Internet (Lei nº 12.965/2014) estabelece a responsabilidade das plataformas pela remoção de conteúdo ilícito mediante ordem judicial. Juristas apontam que a tipificação penal precisa ser atualizada para abranger de forma mais clara as particularidades dos deepfakes.

Medidas práticas para denunciar e solicitar a remoção de conteúdo

Para as vítimas de deepfake, é essencial agir rapidamente para minimizar os danos. O caminho da denúncia e da remoção de conteúdo envolve diversas etapas cruciais:

  • Reunir evidências: Colete o máximo de provas possível. Isso inclui capturas de tela das imagens, links de onde foram publicadas, nomes de usuários envolvidos na disseminação e data de visualização do conteúdo. É importante que as evidências mostrem a URL completa e a data da captura.
  • Buscar apoio psicológico: O impacto emocional é significativo. Procurar um psicólogo ou terapeuta é fundamental para lidar com o trauma e o sofrimento. Escolas e centros de apoio social podem oferecer suporte inicial.
  • Registrar boletim de ocorrência (B.O.): Vá a uma delegacia de polícia, preferencialmente especializada em crimes cibernéticos, para registrar um boletim de ocorrência. Leve todas as provas coletadas. O B.O. é o primeiro passo para a investigação e para formalizar a denúncia.
  • Acionar as plataformas digitais: Entre em contato com as redes sociais, aplicativos de mensagens ou sites onde as imagens foram divulgadas. Utilize os canais de denúncia específicos de cada plataforma. A maioria delas possui políticas contra a disseminação de conteúdo íntimo não consensual. A solicitação deve ser feita com base nas políticas de uso e na legislação aplicável.
  • Buscar assessoria jurídica: Um advogado especializado em direito digital pode orientar a vítima sobre as melhores ações legais a serem tomadas, incluindo a busca por uma ordem judicial para a remoção definitiva do conteúdo e a responsabilização civil e criminal dos agressores. A Justiça pode determinar a quebra de sigilo de dados para identificar os responsáveis.

A urgência de prevenção e educação digital no ambiente escolar

Além das ações reativas, a prevenção desempenha um papel fundamental no combate à disseminação de deepfakes entre jovens. É crucial que escolas, pais e responsáveis promovam uma educação digital robusta, ensinando os adolescentes sobre os riscos da internet, a importância da privacidade e o conceito de consentimento. Campanhas de conscientização sobre deepfakes e suas consequências podem ajudar a desmistificar a prática e a encorajar as vítimas a procurar ajuda. O desenvolvimento de um senso crítico em relação ao conteúdo online e a valorização da empatia são ferramentas poderosas para construir um ambiente digital mais seguro. Investir em programas educativos que abordem a ética no uso da tecnologia e a cidadania digital é um passo essencial para proteger as futuras gerações dos perigos da manipulação de imagens. A colaboração entre governo, empresas de tecnologia e sociedade civil é vital para enfrentar essa crescente ameaça.

Beatriz Lima é colaboradora da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2024.

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