Fenômeno El Niño fica mais intenso e agrava ameaça de eventos climáticos extremos

Por 4 min de leitura
Tempestade El Niño - lixu/Istock.com Foto: Tempestade El Niño - lixu/Istock.com

Eventos do El Niño têm se tornado quase 40% mais intensos nas últimas quatro décadas, apontou um estudo recente da Universidade de Michigan. A pesquisa, publicada na revista *Science*, analisou corais das Ilhas Galápagos para reconstruir um histórico das temperaturas oceânicas de mil anos, revelando que os fenômenos mais recentes superam em força todos os registrados antes de aproximadamente 1850. Esta intensificação acende um alerta global para a crescente ameaça de eventos climáticos extremos.

Corais milenares revelam aquecimento sem precedentes nos oceanos

A equipe de pesquisadores obteve suas conclusões ao examinar 13 amostras de corais das Galápagos. Estes organismos marinhos, ao crescerem, depositam camadas de carbonato de cálcio que funcionam como arquivos naturais das condições da água ao longo do tempo. Através da análise da proporção de estrôncio e cálcio, além de isótopos de oxigênio presentes nos esqueletos dos corais, foi possível estimar a temperatura da água em diferentes períodos históricos.

Os resultados mostraram uma regularidade preocupante. Os registros de El Niños anteriores aos últimos 40 ou 50 anos apresentavam uma intensidade relativamente menor. “Não vemos um período no passado em que os El Niños tenham sido tão fortes quanto hoje”, afirmou Julia Cole, professora e chefe do Departamento de Ciências da Terra e Ambientais da Universidade de Michigan e autora principal do estudo.

Entenda como a força do El Niño impacta o clima global

O El Niño é um fenômeno climático natural que ocorre quando as águas do Pacífico tropical ficam mais quentes do que o normal. Em condições habituais, os ventos alísios empurram a água quente da América do Sul em direção à região da Austrália e Ásia. Contudo, quando esses ventos diminuem de intensidade, parte da água quente retorna para o leste, afetando a circulação atmosférica e alterando a distribuição global de chuvas.

Embora tenha origem no Oceano Pacífico, os efeitos do El Niño se espalham por diversas regiões do mundo. Entre as consequências mais comuns observadas estão:

  • Secas prolongadas em algumas regiões
  • Enchentes e chuvas torrenciais em outras áreas
  • Aumento da incidência de incêndios florestais
  • Perdas agrícolas significativas e insegurança alimentar
  • Danos consideráveis a infraestruturas como casas, estradas e ferrovias

Alerta de fenômeno intensificado acende impacto direto no Brasil

A maior intensidade do El Niño, conforme revelado pelo estudo, significa que os impactos climáticos podem ser mais severos e abrangentes, especialmente em países como o Brasil. Historicamente, o fenômeno tem efeitos distintos em diferentes macro regiões brasileiras, e a sua força amplificada sugere cenários ainda mais críticos para os próximos anos.

Na Região Sul do Brasil, por exemplo, El Niños fortes são frequentemente associados a volumes de chuva acima da média e risco elevado de inundações. Com a intensificação, esses eventos podem se tornar mais frequentes e com potencial destrutivo ainda maior. Já nas regiões Norte e Nordeste, o El Niño costuma agravar períodos de seca, levando à escassez de água e impactando severamente a agricultura familiar e o abastecimento. A descoberta de uma força sem precedentes reforça a necessidade de preparação e adaptação para lidar com eventos climáticos extremos.

Aquecimento global amplia efeitos devastadores do El Niño

Os pesquisadores também buscaram explicações para a crescente intensidade do El Niño, utilizando modelos climáticos para testar se fatores naturais, como erupções vulcânicas ou variações na atividade solar, poderiam justificar a mudança. Nenhuma dessas variáveis conseguiu reproduzir a alteração de intensidade observada nos eventos recentes.

Para Julia Cole, essa ausência de explicações naturais reforça a hipótese de que o aquecimento global tem um papel fundamental na intensificação do fenômeno. A combinação de um El Niño mais forte com um planeta que já está aquecendo devido ao aumento dos gases de efeito estufa pode elevar ainda mais as temperaturas e ampliar os impactos sobre a população, a infraestrutura e os ecossistemas. O resultado do estudo serve como um lembrete urgente da necessidade de combater o aquecimento global e reduzir a dependência de combustíveis fósseis.

Janderson Luiz é colaborador da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2024. Formação: Atleta Profissional de Futebol

Notícias relacionadas