Desconto de vale-transporte: empresas têm limite de 6% sobre o salário do funcionário

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Vale transporte, transporte público - GaudiLab/ Shutterstock.com Foto: Vale transporte, transporte público - GaudiLab/ Shutterstock.com

O vale-transporte representa um dos direitos mais básicos garantidos aos trabalhadores no Brasil, mas sua aplicação ainda gera muitas dúvidas entre empregados e empregadores. A legislação estabelece uma regra clara: a companhia tem a obrigação de fornecer o benefício, porém, só pode descontar até 6% do salário-base do colaborador. Qualquer valor excedente ao limite do custo do transporte deve ser arcado integralmente pela própria empresa.

O artigo 4º da Lei 7.418/85 estabelece que o empregador pode descontar no máximo 6% do salário fundamental do empregado para cobrir uma parte dos gastos com o vale-transporte. Caso o custo real do deslocamento seja inferior a essa porcentagem, o desconto aplicado deve ser apenas o valor efetivo do transporte.

  • Salário base: R$ 1.621,00
  • * Desconto máximo (6%): R$ 97,26

    * Custo VT mensal: R$ 352,00

    * Empresa paga: R$ 254,74
  • Salário base: R$ 2.500,00
  • * Desconto máximo (6%): R$ 150,00

    * Custo VT mensal: R$ 400,00

    * Empresa paga: R$ 250,00
  • Salário base: R$ 4.000,00
  • * Desconto máximo (6%): R$ 240,00

    * Custo VT mensal: R$ 352,00

    * Empresa paga: R$ 112,00
  • Salário base: R$ 7.000,00
  • * Desconto máximo (6%): R$ 420,00

    * Custo VT mensal: R$ 352,00

    * Empresa paga: R$ 0 (custo menor que 6%)

No último exemplo, um trabalhador que recebe R$ 7.000 teria um desconto de R$ 352, correspondente ao custo real do vale-transporte, e não de R$ 420. Isso porque o valor descontado do salário do empregado nunca pode superar o custo total do benefício de transporte.

A responsabilidade obrigatória da empresa em conceder o vale-transporte

A concessão do vale-transporte é uma obrigação legal das empresas. Os empregadores não podem, sob nenhuma circunstância, negar o benefício com a justificativa de que o funcionário reside próximo ao local de trabalho, impor uma distância mínima para a concessão ou limitar o número de meios de transporte utilizados. O benefício deve cobrir todo o trajeto entre a residência e o local de trabalho. Além disso, é proibido descontar mais de 6% do salário-base do empregado.

A única exceção para a não concessão do vale-transporte ocorre quando o próprio funcionário, por meio de uma declaração formal e assinada, afirma que não necessita do benefício, conforme estabelece o artigo 7º do Decreto 95.247/87. A empresa precisa manter este documento arquivado como prova.

Pode a empresa pagar o vale-transporte em dinheiro ao invés de cartão?

A legislação trabalhista brasileira, especificamente a Lei 7.418/85, estabelece que o vale-transporte deve ser oferecido por meio de créditos eletrônicos, como bilhetes ou cartões de transporte. A lei não prevê expressamente a substituição desse benefício por pagamento em dinheiro.

Na prática do mercado, muitas empresas optam por realizar o pagamento do vale-transporte em espécie. Essa prática, no entanto, pode acarretar riscos legais para o empregador. O valor pago em dinheiro corre o risco de ser interpretado como parte integrante do salário (verba salarial) e não como uma indenização, o que geraria impacto no cálculo de férias, 13º salário e Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS). Convenções Coletivas de Trabalho (CCTs) que autorizam expressamente o pagamento em dinheiro podem reduzir esses riscos, mas o Tribunal Superior do Trabalho (TST) tem decisões variadas sobre o tema, com uma tendência a considerar irregularidades sem essa autorização específica.

O cálculo do vale-transporte incide apenas sobre o salário-base

O cálculo do desconto de 6% para o vale-transporte deve ser feito exclusivamente sobre o salário-base do empregado. Componentes da remuneração total, como comissões, horas extras habituais, gratificações e outros adicionais, não entram na base de cálculo para esse desconto.

Um empregado que recebe um salário-base de R$ 2.000 e tem comissões de R$ 1.500, totalizando R$ 3.500 de remuneração, terá o desconto máximo de 6% calculado apenas sobre os R$ 2.000 do salário-base, resultando em R$ 120, e não sobre o total da remuneração, que seria R$ 210.

Cartão vale-transporte, passagem do metrô
Cartão vale-transporte, passagem do metrô – Rawpixel/ Istockphoto.com

Vale-transporte também é devido em contratos temporários e de experiência

O direito ao vale-transporte é garantido ao trabalhador desde o primeiro dia de suas atividades, sem distinção para contratos de experiência ou contratos temporários. As empresas não podem condicionar a concessão do benefício à efetivação do funcionário ou a qualquer outra condição que não esteja prevista em lei.

Há desconto de vale-transporte em períodos de férias ou afastamento?

Durante o período de férias, não há previsão para o desconto do vale-transporte, uma vez que o empregado não está realizando o deslocamento para o trabalho. Da mesma forma, em casos de afastamento por doença, o desconto é suspenso a partir do 16º dia, quando a responsabilidade pelo pagamento do benefício transita para o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). Para licença-maternidade, também não há desconto de vale-transporte.

Caso o empregador realize o desconto do vale-transporte em qualquer um desses períodos, o empregado tem o direito de solicitar a devolução dos valores indevidamente cobrados.

As regras do vale-transporte para quem trabalha em home office

Para os funcionários que atuam integralmente em regime de home office e não precisam se deslocar para o local de trabalho, o vale-transporte não é um benefício obrigatório. No entanto, para aqueles que adotam um modelo híbrido de trabalho, o vale-transporte deve ser concedido nos dias em que há comparecimento presencial. As empresas podem ajustar o crédito do benefício de forma proporcional aos dias de trabalho no escritório.

Principais falhas cometidas pelas empresas na gestão do benefício

Empresas frequentemente incorrem em erros na administração do vale-transporte, o que pode gerar passivos trabalhistas significativos.

  • Descontar uma porcentagem superior a 6% do salário-base do empregado.
  • Deixar de fornecer o vale-transporte nos primeiros meses de um novo contrato.
  • Conceder créditos que são insuficientes para cobrir o trajeto real do funcionário.
  • Manter o desconto do vale-transporte durante períodos de férias ou afastamentos.
  • Exigir que o trabalhador cubra a diferença do custo do transporte do próprio bolso.

Bruna Santos é colaboradora da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve e colabora para o portal desde 2024. Formação: Professora.

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