Arqueólogos da Universidade de Girona e do Ministério da Cultura Saaraui determinaram a primeira datação absoluta de uma tumba de pedra com antenas no Saara Ocidental, situada em Wadi Lawash el Telli. O estudo indica que o sepultamento ocorreu entre 4.417 e 4.100 anos calibrados antes do presente, o equivalente ao período aproximado de 2467 a 2150 a.C., com maior concentração de probabilidade entre 4.407 e 4.230 anos atrás.
Intitulada Chronology and Funerary Practices Associated with Antennae Tumuli in Western Sahara, a pesquisa liderada pelo arqueólogo Joaquim Soler, da Universidade de Girona e do Instituto Catalão de Pesquisa em Patrimônio Cultural (ICRPC), teve repercussão na terça-feira (20) após publicação na revista científica The African Archaeological Review, em edição de 20 de outubro de 2026. O artigo conta com a coautoria dos pesquisadores Helena Ventura, Isaac Rufí Casals e Narcís Soler.
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Como foi feita a arquitetura da tumba em Wadi Lawash el Telli?
Os construtores ergueram o monumento com calcário devoniano local assentado sem argamassa, utilizando blocos que, em sua maioria, medem menos de um metro de comprimento, o que permitiu a execução rápida da obra por um grupo pequeno e sem infraestrutura complexa de extração ou transporte. A escavação arqueológica ocorreu entre 5 e 8 de abril de 2018, período em que a equipe abriu somente metade do montículo devido ao vento e ao isolamento remoto, preservando a outra parte intacta e cobrindo novamente a área escavada após os trabalhos.
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Sob uma camada externa de blocos soltos, uma estrutura convexa de lajes de calcário com mais de um metro de comprimento protegia o esqueleto de um único indivíduo adulto. O corpo foi depositado diretamente sobre o solo natural, sem cova escavada e sem sinais de violação ou reutilização, posicionado de costas em eixo norte-sul, com a cabeça voltada para o sul e as pernas flexionadas para o oeste.
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A análise da ossada e dos sedimentos aponta características anatômicas e materiais coletados no interior da câmara funerária. O desgaste dentário indicou idade estimada entre 25 e 35 anos, enquanto a ausência da pelve impediu a identificação do sexo e marcas de crescimento ósseo em um dedo sugeriram trabalho manual contínuo. Pela fragilidade do material, a equipe resgatou apenas fragmentos dos membros, ossos da mão e dois molares, além de quatro contas em formato de anel feitas de casca de ovo de avestruz e uma amostra de solo com dois grãos de pólen de pinheiro.
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Dimensões e resultados laboratoriais do monumento no Saara Ocidental
Os primeiros testes realizados em 2018 falharam porque a extrema aridez da região degradou o colágeno e alterou as proporções ideais de carbono e nitrogênio nos ossos. Em 2025, os cientistas enviaram amostras ao laboratório CIRAM para datar a bioapatita, que é a fração mineral do osso, por meio de análises de radiocarbono por espectrometria de massa com aceleradores (AMS).
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- Localização: planície de cascalho a cerca de 600 metros de altitude ao lado do uádi Lawash el Telli, no nordeste do Saara Ocidental
- Comprimento total da estrutura: 54,5 metros, incluindo as duas fileiras de pedras (antenas) alinhadas a 102 graus em relação ao norte
- Dimensões do montículo oval central: 12,5 metros de comprimento por 10 metros de largura, com menos de 3 metros de altura
- Datação do fragmento de úmero no laboratório CIRAM: de 4.417 a 4.160 anos calibrados antes do presente
- Datação do fragmento de fêmur no laboratório CIRAM: de 4.405 a 4.100 anos calibrados antes do presente
Arte rupestre de Sluguilla Lawash e o Neolítico Tardio no Saara Atlântico
A cronologia obtida posiciona os túmulos com antenas do Saara Atlântico no final do Neolítico Tardio, em época contemporânea aos túmulos em formato de crescente, marcando uma transição em relação aos sepultamentos simples anteriores sinalizados apenas por pedras baixas. Trabalhos de campo a leste do muro no Saara Ocidental são conduzidos desde o final da década de 1990 por meio de parcerias entre autoridades saarauis e a Universidade de Girona, que mapeou abrigos e gravuras nas áreas de Sluguilla Lawash, Erqueyez e Zemmour. O monumento de Lawash el Telli fica a menos de um quilômetro da borda oriental do complexo de arte rupestre de Sluguilla Lawash, onde foram catalogadas quase 1.140 rochas gravadas e 2.068 figuras ao longo de 27 quilômetros.
Os autores do estudo afirmam que a proximidade geográfica não comprova que as gravuras rupestres de Sluguilla Lawash e a tumba tenham sido feitas pelo mesmo grupo humano ou no mesmo período. Da mesma forma, embora o alinhamento das antenas a 102 graus em relação ao norte se repita em outros túmulos da região e gere debates sobre intenções astronômicas, nenhuma função celeste foi comprovada no monumento de Lawash el Telli.
