Estudo revela aproximação entre salário mínimo e renda dos trabalhadores no NordestePor Bruna
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Uma análise recente do Instituto Mobilidade e Desenvolvimento Social (IMDS) revela que o salário mínimo, em 29 de agosto de 2026, após anos de aumentos significativos, quase iguala a remuneração da maioria dos trabalhadores na região Nordeste. No cenário nacional, esse valor corresponde a 65% da renda típica do Brasil, posicionando o país como o sexto com a maior proporção entre 34 nações pesquisadas.
Os dados do estudo reacendem um antigo debate entre especialistas em economia. Há quem argumente que a valorização do piso nacional acima da inflação tem pouca eficácia para combater a pobreza e pode incentivar a informalidade no mercado de trabalho. Contudo, outros economistas defendem que essa política de ajuste do mínimo é crucial para diminuir a desigualdade social no Brasil.
Salário mínimo quase iguala renda em estados do Nordeste
Os cálculos realizados pelo IMDS indicam que o salário mínimo atinge cerca de 100% do salário mediano em sete estados do Nordeste: Alagoas, Maranhão, Paraíba, Piauí, Bahia, Rio Grande do Norte e Ceará. Para esclarecer, a mediana é o ponto em que a força de trabalho se divide igualmente, com metade dos trabalhadores recebendo menos e a outra metade ganhando mais. Sua vantagem é não ser influenciada por valores salariais extremos, sejam eles muito altos ou muito baixos.
Em contraste, em outras regiões como o Distrito Federal (49%), Santa Catarina (52%) e São Paulo (57%), o mesmo valor do mínimo ocupa uma proporção bem menor da renda comum. Em 29 de agosto de 2026, o piso nacional era de R$ 1.621 e está previsto para ser reajustado para R$ 1.741 em 2027.
No panorama global, o Brasil se posiciona atrás de países como Colômbia, Costa Rica, Chile, México e Nova Zelândia. No entanto, sua proporção é consideravelmente superior à de nações como os Estados Unidos, onde o salário mínimo representa apenas 25% da renda típica.
Impacto na informalidade e produtividade
Conforme a visão dos economistas do instituto, a medida em que essa proporção se aproxima dos 100% eleva a propensão das empresas a empregar trabalhadores sem registro. Isso ocorre porque as companhias não identificam um aumento na produtividade (a quantidade que cada funcionário gera por hora) que justifique o custo mais elevado com encargos sociais e trabalhistas.
Desde o ano 2000, o salário mínimo registrou um crescimento real de 125,8%, já descontada a inflação. O critério para o reajuste do piso nacional envolve a correção pela inflação somada ao crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) de dois anos anteriores, com um limite de alta real de 2,5%.
Essa proximidade entre o salário mínimo e a renda comum não é um indicador fixo, mas sim uma relação que tem se elevado de maneira expressiva desde meados da década de 1990.
De acordo com o levantamento, a proporção, que estava em cerca de 40% nos anos 1990, chegou a aproximadamente 70% no fim dos anos 2000. Desde então, houve uma leve retração, mas o índice permanece em patamar consideravelmente alto.
Fernando Veloso, diretor de pesquisa do IMDS, afirmou que “a valorização do mínimo é benéfica para os trabalhadores que o recebem”. No entanto, ele pondera que o aumento do piso nacional acarreta consequências tanto para a informalidade quanto para a política fiscal do país.
O mínimo nacional serve como base para diversos benefícios previdenciários e assistenciais. Dados do Ministério do Planejamento revelam que cada R$ 1 de acréscimo no piso gera um aumento de mais de R$ 400 milhões nas despesas. Em razão de seu impacto eleitoral e nas finanças públicas, o tema é frequentemente debatido em campanhas presidenciais.
O ministro da Fazenda, Dario Durigan, representante econômico da campanha do presidente Lula (PT), informou que não há planos para alterar o reajuste real do salário mínimo. Por sua vez, o candidato Flávio Bolsonaro (PL) declarou em 28 de agosto de 2026 que, caso seja eleito, implementará um ajuste fiscal sem modificar a política de valorização do piso nacional.

Debate sobre a eficácia do combate à pobreza
Para Fernando Veloso, os ajustes no salário mínimo apresentam uma eficácia reduzida no enfrentamento da pobreza extrema. A pesquisa cita dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad Contínua), indicando que 9% dos aposentados e pensionistas que recebem o piso salarial se encontram na faixa dos 30% mais pobres da sociedade.
Em contraste, aproximadamente 60% desses beneficiários são parte de famílias com renda média e alta, figurando entre os 40% mais ricos do Brasil. Segundo o IMDS, isso implica que o custo fiscal elevado do reajuste do mínimo beneficia, em grande parte, lares que não estão na base da pirâmide social. O instituto ainda aponta que somente 24% dos brasileiros em situação de pobreza recebem valores próximos ao salário mínimo.
Em resumo, a tese central é que a elevação do salário mínimo alcança um grande número de pessoas, porém, uma parcela significativa desse incremento não chega àqueles em maior necessidade.
O economista Paulo Tafner, diretor-presidente do IMDS, avaliou que “usar o salário mínimo como instrumento de combate à pobreza é usar uma bala de canhão para matar um mosquito”. Ele acrescenta que a política de valorização do piso salarial gera um custo fiscal imenso, suportado pela sociedade por meio dos sistemas previdenciário e assistencial.
Hélio Zylberstajn, professor sênior da Faculdade de Economia da Universidade de São Paulo (FEA-USP) e coordenador do salariômetro da Fipe, afirmou que “quanto mais se persistir na política de ganho real do salário mínimo, menos eficaz ele será no combate à pobreza”.
Ele também salientou que “o custo de formalizar é muito grande para o estágio de desenvolvimento em que estão os estados do Nordeste”.
Argumentos a favor da valorização e redução da desigualdade
Contudo, essa perspectiva não é consensual entre os economistas. Naercio Menezes, professor da FEA-USP e do Insper, posiciona-se em defesa da valorização moderada do salário mínimo, ressaltando o papel significativo do piso na diminuição da desigualdade social.
Menezes reconheceu que “o fato de o mínimo indexar aposentadorias e benefícios é realmente problemático, já que temos um sério problema fiscal”. No entanto, ele apontou que “existe uma literatura extensa mostrando que aumentá-lo não tem efeitos negativos sobre o emprego e sobre a informalidade”.
O professor mencionou um estudo da economista Mayara Felix, “Comércio, Concentração no Mercado de Trabalho e Salários”, que demonstra que, no setor formal brasileiro, as empresas remuneram os trabalhadores com apenas 50% da receita adicional que eles geram para o empreendimento.
Conforme Menezes, “o salário ainda é baixo em relação à produtividade, em relação ao que o trabalhador deveria receber”. Ele acrescentou: “Não vejo problema de continuar aumentando o mínimo, claro que não num ritmo alucinado, porque as empresas têm condições de absorver. Mas ele ajuda a reduzir a desigualdade, principalmente na classe média baixa”.
Entre as pesquisas mais relevantes sobre o assunto, destaca-se o trabalho dos pesquisadores Sergio Firpo e Alysson Portella. Eles indicam que a valorização real do salário mínimo foi responsável por quase metade da redução da desigualdade no setor formal entre os anos de 1995 e 2015.
Marcelo Manzano, diretor do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho da Unicamp (Cesit), afirmou que “muitos economistas defendiam a tese de que a política de valorização do salário mínimo poderia resultar em informalidade. Mas ela foi desmontada pela observação da realidade”. Ele reforçou que “o mínimo passou a ser reajustado sempre garantindo aumento real a partir de 2003, e a informalidade diminuiu”.
Manzano aponta para diversos estudos internacionais que concluem que a principal causa da redução da desigualdade no Brasil é a política de aumento real do salário mínimo. Para ele, “essa tese não para em pé”.
Perspectivas e propostas para o futuro
O mesmo estudo do IMDS menciona que, entre 2003 e 2012, a informalidade teve uma queda acentuada no Brasil, paralelamente ao forte aumento do salário mínimo real. No entanto, os pesquisadores do instituto consideram que, nesse período, a elevação da escolaridade e os avanços na produtividade ajudaram a neutralizar o impacto negativo.
Veloso afirmou que “o contexto agora é completamente diferente. A produtividade não está crescendo e o salário mínimo é muito mais alto em relação à mediana”.
A produtividade brasileira, que registrou um crescimento de 1,6% entre 2000 e 2010, demonstra taxas de aumento cada vez menores. Entre 2019 e 2025, por exemplo, o índice de alta foi de apenas 0,3%.
O pesquisador alertou que “simplesmente replicar a política de salário mínimo do passado sem considerar essa mudança de contexto pode ter implicações sérias em termos fiscais e pode afetar o mercado de trabalho negativamente”.
Fernando Veloso considera que programas sociais direcionados aos mais vulneráveis, como o Bolsa Família, são mais eficientes e econômicos no combate à pobreza. Ele sugere que o ideal seria retomar a diferenciação regional do salário mínimo, prática que o Brasil já adotou, ou atrelar futuros reajustes aos ganhos de produtividade.
Naercio Menezes defende a separação do salário mínimo das aposentadorias e benefícios. Ele propõe a criação de dois modelos de aumento: um para o piso salarial direto e outro, com menor valor, para o INSS. Menezes reforça que “separar o mínimo das aposentadorias e benefícios é o mais importante”.







