Propaganda eleitoral gratuita mantém relevância para indecisos, aponta cientista político da UerjPor Luís Pereira
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A propaganda eleitoral veiculada gratuitamente no rádio e na televisão continua sendo um pilar fundamental para a apresentação das propostas dos candidatos, exercendo um papel significativo, especialmente entre os eleitores que ainda não definiram seu voto. Essa é a análise de João Feres, renomado cientista político e professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).
Apesar de uma percepção de menor impacto nos dias atuais, o especialista reitera que o horário eleitoral ainda desempenha uma função crucial no processo de decisão do eleitorado. As inserções de campanha nos meios tradicionais seguem em veiculação até três dias antes do pleito, consolidando sua presença na reta final da disputa.
A influência persistente da propaganda gratuita
Um levantamento pré-campanha, realizado pela Pesquisa BTG/Nexus, indicou que cerca de 68% dos eleitores brasileiros manifestavam a intenção de acompanhar a propaganda no rádio e na televisão. João Feres destaca que, ao segmentar esses dados por viés ideológico, a importância da exposição nesses veículos é ainda mais acentuada para o segmento dos indecisos.
Este grupo demográfico, segundo o professor, busca ativamente informações políticas para embasar sua escolha nas urnas. “São indivíduos em busca de dados para formar sua convicção, o que demonstra que o horário eleitoral cumpre, de fato, seu propósito principal”, explica o cientista político. A relevância desse canal para os eleitores flutuantes ressalta o valor democrático da publicidade gratuita, que oferece um espaço para o debate de ideias e a comparação de propostas.
No contexto da apresentação de candidaturas, Feres observa que há uma tendência dos postulantes a cargos públicos de adotar uma postura mais propositiva e menos agressiva nos programas de rádio e TV. A estratégia visa construir uma imagem positiva e evitar confrontos diretos com adversários, uma vez que pesquisas indicam a desaprovação do eleitorado a ataques pessoais. Os embates mais contundentes, por outro lado, tendem a ser reservados para outros canais de comunicação, frequentemente mobilizados por apoiadores.
Estratégias de campanha e o uso das plataformas digitais
O cenário eleitoral contemporâneo demonstra uma diversificação nas abordagens de campanha, com candidatos adaptando suas mensagens e táticas conforme a plataforma. A linguagem e as estratégias variam significativamente entre os meios tradicionais e o universo digital, que se tornou um campo fértil para a comunicação política.
O cientista político aponta que cada rede social atende a um público específico, moldando a forma como as campanhas se articulam. Por exemplo, o Facebook ainda detém maior penetração entre faixas etárias mais elevadas, enquanto o Instagram se consolida como o ambiente preferencial para o público jovem. Essa segmentação permite que as equipes de campanha direcionem conteúdos específicos para cada grupo demográfico.
No que tange às campanhas negativas, o WhatsApp emerge como uma ferramenta amplamente utilizada, especialmente em grupos fechados. A natureza privada desses ambientes dificulta o rastreamento e a caracterização de possíveis crimes eleitorais, conferindo às equipes uma margem de manobra para disseminar informações críticas de maneira mais discreta. Essa maleabilidade nas estratégias reflete a complexidade e a adaptabilidade das campanhas modernas.
- Facebook: Maior acesso entre pessoas mais velhas, ideal para campanhas que visam esse público.
- Instagram: Plataforma preferencial para jovens, usada para conteúdos mais visuais e dinâmicos.
- WhatsApp: Empregado para campanhas negativas em grupos fechados, devido à dificuldade de fiscalização e caracterização de crimes eleitorais.
As consequências da minirreforma eleitoral de 2015
A minirreforma eleitoral, instituída pela Lei 13.165/15, promoveu alterações significativas nas regras de campanha no Brasil. Entre as principais mudanças, destacam-se a redução do tempo de propaganda no rádio e na TV, que passou de 45 para 35 dias, e a diminuição da duração total das campanhas, de 90 para 45 dias. Outra medida relevante foi a proibição de doações de empresas para candidatos e partidos, com o objetivo de reduzir os custos das disputas eleitorais.
Contudo, na avaliação de João Feres, as modificações implementadas não alcançaram os resultados esperados e, em vez disso, geraram impactos “desastrosos para a saúde da democracia brasileira”. O pesquisador argumenta que a diminuição do tempo de campanha restringe a oportunidade de os cidadãos debaterem e se informarem adequadamente sobre os destinos da nação, dos estados e dos municípios, limitando a discussão a um período excessivamente curto a cada quatro anos.
Críticas ao modelo atual e o impacto na exposição de candidatos
O especialista critica o modelo atual, que, segundo ele, direciona mais recursos para os partidos por meio do fundo eleitoral, mas os obriga a gastá-los em um período de campanha drasticamente reduzido. Essa dinâmica cria um desequilíbrio, onde os partidos se esforçam para transmitir suas mensagens no tempo disponível, mas muitos candidatos acabam com um tempo de exposição mínimo ou quase inexistente para o eleitorado através da propaganda eleitoral gratuita.
A falta de tempo e a distribuição desigual dos recursos podem comprometer a visibilidade de candidaturas menos conhecidas ou com menor estrutura partidária, o que, para Feres, fragiliza a igualdade de condições na disputa e a qualidade do debate público. O modelo, que visava a economia, acabou por concentrar o poder de comunicação e limitar a pluralidade de vozes, um ponto crucial para a vitalidade democrática.







