Arqueólogos revelam escola de Aristóteles e Alexandre na Grécia

Estátua de Aristóteles - thelefty/ istockphoto.comEstátua de Aristóteles - thelefty/ istockphoto.com

Estátua de Aristóteles - thelefty/ istockphoto.com

Pesquisadores do Ministério da Cultura da Grécia apresentaram novos detalhes das escavações no Ginásio Real da antiga cidade de Mieza, sítio arqueológico identificado como a escola onde o filósofo Aristóteles educou o futuro rei Alexandre, o Grande. A estrutura monumental de quase 2.400 anos, situada próxima ao município de Naoussa, na região de Emátia, funcionou como o centro de instrução da elite militar e política da Macedônia a partir de 343 a.C.

Os dados divulgados pelo órgão grego nesta terça-feira (22) expõem a grandiosidade do centro de formação régio, cujos trabalhos de campo em larga escala foram retomados em 2024. As equipes lideradas pela arqueóloga Angeliki Kottaridi, diretora emérita de antiguidades do Ministério da Cultura da Grécia, revelaram instalações que combinavam o ensino teórico avançado e a preparação física dos jovens nobres macedônios.

“Há alguns anos, identifiquei os vestígios antigos ao lado do antigo teatro de Mieza”, afirmou Angeliki Kottaridi, em tradução livre sobre o início dos estudos que consolidaram a identificação daquele espaço histórico.

Estrutura monumental de 30 mil metros quadrados

As ruínas revelam que o complexo educacional e esportivo ocupava uma área contínua estimada em 30 mil metros quadrados. O espaço contava com salas de aula equipadas com bancos e carteiras de pedra, setor conhecido na Antiguidade clássica como Didaskaleion. Além das salas, os arqueólogos mapearam sistemas de canalização e abastecimento de água, uma arena para exercícios atléticos e lutas (palestra) e um estádio destinado a competições esportivas.

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As escavações expuseram ainda um corredor coberto para treinamentos de corrida, chamado de xystos, com extensão aproximada de 200 metros lineares. Outro destaque arquitetônico é uma edificação de mais de 160 metros quadrados dividida em dois andrones, que eram salões voltados para simpósios e banquetes. Esses aposentos contam com pisos decorados com mosaicos preservados e plataformas elevadas concebidas para receber leitos e divãs, com padrão decorativo idêntico ao do palácio real de Aigai, em Vergina.

Vestígios materiais do ensino na Macedônia antiga

Durante a retirada das camadas de terra sobre as salas de aula, os pesquisadores resgataram objetos utilizados diretamente na rotina dos alunos do século 4 a.C. O conjunto de peças recolhidas ajuda a documentar as atividades cotidianas mantidas pela realeza dentro do ginásio.

  • 4 estiletes de metal usados pelos estudantes para gravar textos em tábuas de cera
  • Moedas metálicas cunhadas e em circulação no século 4 a.C.
  • Peças e fragmentos cerâmicos preservados nas dependências do Didaskaleion
  • Bancos contínuos de alvenaria e carteiras de pedra talhadas para acomodar turmas nobres
  • Mosaicos figurativos e geométricos mantidos nos pisos dos dois andrones

Formação de príncipes e desmistificação do ninfeu

O filósofo Aristóteles foi contratado pelo rei Filipe II da Macedônia para atuar como preceptor do príncipe herdeiro em 343 a.C., quando o jovem Alexandre tinha 13 anos de idade. A instrução presencial seguiu de forma contínua até 340 a.C., momento em que o príncipe completou 16 anos e assumiu as funções de regente do reino enquanto seu pai comandava operações militares fora do território macedônio. Ao lado de Alexandre, outros nobres que mais tarde se tornaram generais de seu império e criadores de dinastias helenísticas, como Ptolomeu e Heféstion, também compartilharam os bancos escolares do centro educacional.

Por décadas, guias de turismo e tradições orais atribuíam as aulas a uma gruta natural nas redondezas, conhecida como o Ninfeu de Isvoria ou Santuário das Ninfas, com base em passagens descritas pelo historiador grego Plutarco na obra “Vida de Alexandre”. Os achados arqueológicos confirmaram que as atividades regulares aconteciam no Ginásio Real urbano de Mieza, uma edificação imponente capaz de congregar dezenas de membros da corte, e não em recintos cavernosos improvisados.

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Danificação militar e lacunas epigráficas

A integridade das instalações de Mieza foi afetada de forma severa em 168 a.C., quando as tropas da República Romana desmantelaram parcialmente as estruturas macedônias após a vitória na Batalha de Pidna. Apesar da demolição de paredes superiores e da retirada de blocos na Antiguidade, os alicerces, o traçado viário interno, os bancos de pedra e os pisos ornamentados permaneceram preservados sob espessos sedimentos de solo até as investigações científicas contemporâneas.

A comunidade científica adota cautela quanto a confirmações nominais específicas dentro do sítio. Embora o tamanho, a arquitetura régia e a localização geográfica coincidam com os relatos históricos, não foram encontradas inscrições epigráficas em pedras contendo diretamente o nome de Aristóteles ou de Alexandre. Também não há prova material irrefutável de que os quatro estiletes recuperados tenham sido empunhados pelo próprio futuro conquistador ou de que uma das salas funcionasse como cátedra particular e exclusiva do pensador.

As frentes de trabalho da equipe de Angeliki Kottaridi mantêm o mapeamento de setores adjacentes da encosta de Mieza para consolidar a conservação preventiva dos mosaicos e definir as rotas originais de acesso ao teatro antigo vizinho.