Saúde

Estudo com 112 mil adultos associa conservantes a risco 29% maior de hipertensão

Carrinho de compras, supermercado, alimentação
Carrinho de compras, supermercado, alimentação - KOTOIMAGES/shutterstock.com

Um levantamento científico realizado com 112.395 participantes na França identificou que o consumo frequente de oito conservantes químicos largamente utilizados pela indústria de alimentos está associado a um risco elevado de hipertensão arterial e de problemas vasculares. O trabalho analisou o histórico de saúde e os hábitos alimentares de adultos da coorte NutriNet-Santé acompanhados por um período médio de 7,9 anos, intervalo em que surgiram 5.544 diagnósticos de pressão alta e 2.450 registros incidentes de episódios cardiovasculares.

A investigação conduzida por cientistas do Instituto Nacional de Saúde e Pesquisa Médica (INSERM), da Universidade Sorbonne Paris Nord e da Universidade Paris Cité detalhou que os indivíduos situados na faixa de maior consumo de conservantes da classe não antioxidante apresentaram probabilidade 29% superior de desenvolver hipertensão em relação àqueles com menor ingestão. No mesmo grupo, a ocorrência de quadros cardiovasculares globais, como infartos e acidentes vasculares cerebrais, foi 16% mais elevada.

Os oito aditivos apontados na avaliação nutricional

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Foto: Indypendenz/shutterstock.com

A pesquisa catalogou 58 conservantes diferentes na dieta dos voluntários, dos quais 99,5% consumiram pelo menos uma dessas substâncias nos dois anos iniciais de monitoramento. Dentre todos os itens mapeados, oito aditivos específicos apresentaram ligação direta com o avanço da pressão arterial elevada em indivíduos adultos:

  • Sorbato de potássio (E202): agente antifúngico e antimicrobiano aplicado em frutas processadas e bebidas industriais.
  • Metabissulfito de potássio (E224): composto comumente adicionado a bebidas alcoólicas, como vinhos, para conter a fermentação bacteriana.
  • Nitrito de sódio (E250): conservante amplamente empregado na cura e conservação de carnes processadas e embutidos.
  • Ácido ascórbico (E300): forma química sintética da vitamina C utilizada como aditivo em vegetais e frutas processadas para evitar a deterioração.
  • Ascorbato de sódio (E301): sal derivado da vitamina C empregado no processamento industrial de carnes.
  • Eritorbato de sódio (E316): aditivo antioxidante aplicado na preservação da cor e estabilidade de embutidos e derivados cárneos.
  • Ácido cítrico (E330): acidulante e conservante usado com grande frequência na formulação de refrigerantes e sucos prontos.
  • Extrato de alecrim (E392): composto antioxidante adicionado habitualmente a óleos vegetais e matrizes de gordura industrial.

Entre os compostos analisados isoladamente, o ácido ascórbico sintético (E300) chamou a atenção dos pesquisadores por ter sido a única substância individual ligada a um avanço direto nas doenças cardiovasculares, com aumento relativo de 15% no risco. Cerca de metade de todo o ascorbato ingerido pelos participantes da coorte provinha do consumo de frutas e vegetais submetidos a processos industriais.

Diferenças de impacto entre categorias de conservantes

Os conservantes são formulados para retardar a deterioração dos alimentos, agindo pelo bloqueio do crescimento de fungos e bactérias ou pela desaceleração de processos químicos de oxidação. No grupo dos conservantes com propriedades antioxidantes, o consumo mais elevado verificado na amostra resultou em um índice 22% maior de novos casos de pressão alta diagnosticados ao longo dos quase oito anos de acompanhamento clínico.

“Os conservantes alimentares são utilizados em centenas de milhares de alimentos processados industrialmente. Estudos experimentais sugerem que alguns aditivos conservantes podem ser prejudiciais à saúde cardiovascular, mas não tínhamos evidências suficientes sobre o impacto desses ingredientes em seres humanos. Pelo que sabemos, este é o primeiro estudo de seu tipo a investigar as ligações entre uma ampla variedade de conservantes e a saúde cardiovascular”, afirmou a pesquisadora Anaïs Hasenböhler, da Universidade Sorbonne Paris Nord, em tradução livre sobre a publicação oficial feita no European Heart Journal em 20 de maio de 2026.

No Brasil, onde a hipertensão arterial atinge cerca de 30% da população adulta e configura o principal fator de risco modificável para derrames cerebrais e ataques cardíacos, a composição dos produtos industrializados também é acompanhada de perto por órgãos profissionais. “Eles podem conservar o alimento por mais tempo, reduzir a deterioração, modificar textura e manter características sensoriais esperadas pelo consumidor”, declarou Risoneide Calazans, diretora do Conselho Federal de Nutrição (CFN).

Metodologia com registros de marca e histórico de pesquisas

Para isolar o efeito das substâncias químicas da qualidade geral da dieta, os pesquisadores recorreram a um sistema de registros alimentares repetidos, no qual os voluntários informaram cardápios completos e marcas exatas dos itens consumidos. Esse nível de controle permitiu ajustar os cálculos estatísticos para variáveis como a ingestão total de frutas, hortaliças in natura, carnes vermelhas, gorduras saturadas, sódio e calorias, o que diminui a probabilidade de que os resultados decorram unicamente do padrão de consumo de ultraprocessados em vez dos conservantes em si.

O grupo coordenado pela diretora de pesquisa do INSERM, Mathilde Touvier, já havia identificado padrões semelhantes em estudos anteriores baseados na mesma coorte de cidadãos franceses. Em trabalhos divulgados nos periódicos The BMJ e Nature Communications, a equipe encontrou associações entre o consumo regular de nitrito de sódio e uma incidência elevada de câncer de próstata, bem como vínculos estatísticos entre a ingestão contínua de sorbato de potássio e um risco ampliado para o surgimento de diabetes tipo 2.

Lacunas biológicas e debate regulatório

Por se tratar de um estudo epidemiológico de caráter observacional, os cientistas advertem que os dados comprovam correlações estatísticas, mas não determinam relação direta de causa e efeito celular. Ainda não se sabe ao certo quais são os mecanismos biológicos exatos que conectam a ingestão dessas moléculas sintéticas às alterações estruturais nas artérias humanas, dependendo a questão de ensaios laboratoriais e clínicos adicionais.

Os autores sustentam que os achados oferecem base técnica para que autoridades de saúde pública e agências de vigilância sanitária reavaliem os limites de segurança autorizados para aditivos sintéticos no comércio global de alimentos.

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