Pesquisadores detectaram emissões de ondas de rádio geradas diretamente pelo exoplaneta Beta Pictoris b, um gigante gasoso situado a 63,4 anos-luz da Terra. O registro possibilitou a primeira medição direta da intensidade do campo magnético de um mundo fora do Sistema Solar, calculada em no mínimo 1.250 gauss.
Os sinais foram identificados por uma equipe científica internacional e divulgados em estudo preliminar disponibilizado no repositório arXiv em 15 de setembro de 2026. A astrofísica Yvette Cendes, pesquisadora de pós-doutorado do Centro de Astrofísica Harvard & Smithsonian e coautora do levantamento, afirmou que se trata de “um campo magnético incrivelmente, incrivelmente forte, muito mais forte do que qualquer coisa em nosso sistema solar”, em tradução livre.
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Origem das emissões de rádio e ação das auroras em Beta Pictoris b
As transmissões espaciais captadas não possuem ligação com tecnologia extraterrestre ou tentativas de comunicação deliberada. A fonte dos sinais consiste em auroras formadas na atmosfera superior do planeta, geradas quando partículas carregadas viajam pelas linhas de força magnética e colidem com gases atmosféricos em velocidades extremas.
O processo físico causador das radiações observadas foi catalogado pelos astrofísicos como instabilidade máser de ciclotron de elétrons, conhecido pela sigla em inglês ECMI. Esse mesmo comportamento eletrodinâmico é observado no Sistema Solar em planetas providos de escudo magnético próprio, como a Terra, Saturno e Júpiter, nos quais o bombardeio de partículas resulta em luminescência e emissão de radiofrequências nos polos.
O astrônomo Joseph Callingham, da Universidade de Leiden e do Instituto Holandês de Radioastronomia, avaliou os dados obtidos sobre a natureza do sinal. O pesquisador declarou: “A ser definido, mas convincente. É provavelmente auroral”, em tradução livre sobre a origem física constatada.
Detecção pelo conjunto MeerKAT com apoio de quasares distantes
O rastreamento foi efetuado pelo conjunto de radiotelescópios MeerKAT, instalado na região de Carnarvon, no Cabo Setentrional, na África do Sul. A estrutura é formada por 64 antenas parabólicas no deserto do Karoo e atua como precursora técnica para o futuro observatório Square Kilometre Array. A equipe científica acompanhou o sistema estelar ao longo de quatro sessões de observação distribuídas entre 2025 e 2026, operando na faixa de frequências de 0,85 a 3,5 gigahertz.
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Durante as medições, os aparelhos registraram uma emissão contínua combinada com rajadas periódicas dotadas de forte polarização circular, propriedade na qual o campo elétrico das ondas avança descrevendo uma trajetória helicoidal. Para confirmar a procedência das ondas sem interferência estelar, os cientistas usaram posições de quasares distantes como pontos de ancoragem astrométrica de alta precisão. O método eliminou a hipótese de que o fluxo partisse da estrela central do sistema ou de Beta Pictoris c, outro planeta situado na mesma órbita externa.
Dimensões do campo magnético de Beta Pictoris b em comparação com a Terra e Júpiter
O registro de ondas em frequências de até 3,5 gigahertz forneceu aos cientistas o cálculo direto do magnetismo planetário, já que a frequência máxima atingida pelo efeito ECMI depende diretamente da potência do campo magnético local. A intensidade mínima de 1.250 gauss na área geradora do planeta supera por ampla margem os índices encontrados no Sistema Solar.
Na comparação direta, a superfície terrestre sustenta uma barreira magnética aproximada de apenas 0,5 gauss, o que torna o campo de Beta Pictoris b pelo menos 2.500 vezes mais potente que o escudo protetor da Terra. Em Júpiter, o maior campo dipolar entre os planetas vizinhos ao Sol atinge perto de 14 gauss em suas regiões polares. A imensa força magnética do exoplaneta atua combinada com sua rotação rápida de apenas 8 a 9 horas por volta em torno do próprio eixo, além de sua enorme massa corporal, situada entre 10 e 12 vezes a massa joviana.
Marcos cronológicos na exploração científica de Beta Pictoris b
- 18 de novembro de 2008 — Descoberta formal do exoplaneta Beta Pictoris b por imagem direta no Observatório Europeu do Sul.
- 2022 e 2024 — Campanhas de observação realizadas com o radiotelescópio Very Large Array investigam frequências entre 250 e 500 megahertz sem conseguir isolar emissões diretas do planeta.
- 15 de setembro de 2026 — Publicação do estudo preliminar conduzido pelo pesquisador Kevin N. Ortiz Ceballos e equipe no repositório arXiv, com dados do telescópio MeerKAT colhidos em quatro sessões entre 2025 e 2026.
- 21 de setembro de 2026 — Divulgação de reportagem e análise científica sobre a detecção de radiofrequências em publicação especializada da Science News.
Próximos passos da equipe liderada por Kevin N. Ortiz Ceballos
O estudo preliminar com os cálculos do campo magnético foi conduzido por Kevin N. Ortiz Ceballos, estudante de pós-graduação no Centro de Astrofísica Harvard & Smithsonian, ao lado do professor de astronomia Edo Berger e de colaboradores internacionais. A aceitação formal do manuscrito e sua publicação definitiva após o processo de revisão por pares em periódico científico ainda não foram finalizadas.
O grupo expandiu o programa de monitoramento astronômico para investigar outros sete planetas gigantes gasosos distribuídos em cinco sistemas estelares próximos da Terra. A meta estabelecida pelos cientistas envolve aplicar as frequências identificadas no observatório sul-africano para avaliar a preservação de atmosferas planetárias sob o fluxo de ventos emitidos por estrelas vizinhas.
