Ciência

Meteorito DOM 08006 comprova ação de campo magnético no início do Sistema Solar

Meteorito, asteroide - Triff/shutterstock.com
Meteorito, asteroide - Triff/shutterstock.com

Pesquisadores identificaram no meteorito antártico DOM 08006 registros fósseis de um campo magnético intenso que atuou nos primeiros 200 mil anos de formação do Sistema Solar, há cerca de 4,6 bilhões de anos. A análise revelou uma força magnética entre 150 e 600 microteslas, patamar de 3 a 12 vezes superior ao campo magnético superficial registrado atualmente na Terra.

O trabalho foi publicado no periódico científico Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) em 24 de agosto de 2026. A liderança do estudo coube ao cientista planetário brasileiro Cauê S. Borlina, professor assistente na Universidade Purdue e egresso do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), em parceria com Benjamin P. Weiss, professor de Ciências da Terra e Planetárias na cátedra Robert R. Shrock do MIT, ao lado de cientistas da Universidade de Cambridge, Caltech, UCLA e Universidade Tsinghua.

Dados técnicos da análise do meteorito DOM 08006

  • Identificação da rocha: meteorito DOM 08006, condrita carbonácea primitiva da classe CO3
  • Massa total recuperada: 667,3 gramas
  • Local e ano de coleta: Cordilheira Dominion, na Antártida Oriental, em 1 de janeiro de 2008
  • Programa expedicionário responsável: ANSMET, dos Estados Unidos
  • Amostras submetidas a teste paleomagnético: 5 inclusões ricas em cálcio e alumínio (CAIs)
  • Intensidade do campo magnético primitivo: 150 a 600 microteslas

Inclusões minerais intactas preservaram sinal magnético primitivo

A descoberta só foi possível graças ao estado de conservação do meteorito DOM 08006, recuperado no continente antártico. Diferentemente da grande maioria dos fragmentos espaciais que atingem a superfície terrestre, a rocha manteve sua estrutura mineralógica praticamente inalterada desde a formação original na nebulosa solar.

Para extrair os registros paleomagnéticos, a equipe selecionou cinco estruturas microscópicas denominadas inclusões ricas em cálcio e alumínio, conhecidas pela sigla CAIs. Essas partículas foram os primeiros materiais sólidos a se condensarem a partir do gás quente durante o colapso inicial da nuvem primordial que deu origem ao Sol e aos planetas.

“Outros meteoritos passaram por muitos processos diferentes ao longo dessa história. Eles se formaram na nebulosa solar, depois foram incorporados a corpos com água, depois foram destruídos, moveram-se para o cinturão de asteroides e então caíram aqui. Mas, de alguma forma, o DOM sofreu menos alterações do que qualquer outro meteorito”, afirmou Benjamin P. Weiss em tradução livre.

Sistema Solar - Triff/ Shutterstock.com
Foto: Sistema Solar – Triff/ Shutterstock.com

Magnetismo superou barreira física do colapso da nebulosa solar

A detecção desse campo magnético primitivo oferece uma solução empírica para o chamado paradoxo do momento angular na astrofísica clássica. Pelos modelos teóricos tradicionais de física estelar, a atração da gravidade isolada em uma nuvem gasosa giratória acumularia tanta velocidade de rotação que geraria forças centrífugas intensas, capazes de esfacelar o material para longe antes que o Sol pudesse se consolidar no centro.

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A presença de plasma com partículas carregadas gerou campos magnéticos capazes de desacelerar essa matéria, transferindo o excesso de momento angular para as bordas externas e permitindo que o gás fluísse diretamente para o núcleo. O campo magnético funcionou como um sistema de freio e esteira transportadora ao mesmo tempo, viabilizando o nascimento da estrela.

“Acreditamos que esses tipos de campos magnéticos estavam ajudando a mover o gás do disco protoplanetário em direção a essa estrela central, o Sol”, declarou Cauê S. Borlina em tradução livre.

Weiss também apontou a relevância dessa fase evolutiva para a história cósmica regional. “Essa transição, de uma nuvem esférica para um disco protoplanetário, é um dos eventos mais significativos em toda a história do Sistema Solar“, destacou o professor do MIT em tradução livre.

Avanço sobre pesquisas paleomagnéticas anteriores de 2 milhões de anos

Pesquisas paleomagnéticas anteriores em meteoritos já haviam constatado a presença de forças magnéticas no espaço, mas apenas em rochas formadas 2 milhões de anos após o colapso inicial. Naquele ponto da cronologia astronômica, contudo, o Sol já estava praticamente pronto e os planetas começavam a se aglutinar ao redor.

O exame do meteorito DOM 08006 recuou a linha temporal da física solar para os primeiros 200 mil anos, provando pela primeira vez a atuação direta e vigorosa de forças magnéticas quando a própria estrela matriz ainda estava em pleno processo de condensação e acúmulo de massa.

Extensão do magnetismo pelo disco protoplanetário ainda depende de novos testes

Apesar do resultado consolidado nas cinco inclusões do meteorito antártico, a comunidade científica ainda não confirmou se a intensidade entre 150 e 600 microteslas foi homogênea em toda a extensão do disco protoplanetário primordial. Existe a hipótese de que o valor registrado represente apenas uma concentração local específica da área onde as partículas do DOM 08006 se agruparam.

Para verificar se o comportamento magnético abrangeu toda a nebulosa de maneira contínua, os pesquisadores planejam realizar novas medições paleomagnéticas em inclusões ricas em cálcio e alumínio extraídas de outras condritas carbonáceas primitivas preservadas em coleções internacionais.

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