Uso de telas prejudica fala e notas de crianças, aponta estudo
O tempo de tela excessivo está diretamente associado a prejuízos no rendimento escolar, atrasos no desenvolvimento da linguagem e problemas de regulação emocional em crianças e adolescentes. A constatação integra uma ampla revisão sistemática publicada no periódico científico JAMA Pediatrics, com dados compilados de 2.817.252 jovens com até 18 anos em 64 países.
O trabalho foi conduzido pela pesquisadora de pós-doutorado Elizabeth Al-Jbouri e pela professora de psicologia Sheri Madigan, ambas da Universidade de Calgary, no Canadá. As autoras reanalisaram 23 meta-análises que investigaram décadas de literatura científica para mensurar como a convivência contínua com dispositivos digitais interfere no crescimento cognitivo e comportamental.
Os coeficientes estatísticos da pesquisa no JAMA Pediatrics
A investigação identificou que o contato frequente com telas se relaciona com índices mais baixos de proficiência verbal e notas escolares reduzidas, além de taxas elevadas de problemas de conduta externalizantes, internalizantes e sofrimento emocional. Os pesquisadores registraram que as correlações estatísticas são pequenas, mas consistentes em virtude do alcance massivo dos aparelhos na vida moderna.
- r = -0,15: coeficiente de correlação entre exposição a telas e menor rendimento acadêmico global
- r = -0,14: coeficiente de correlação entre tempo de tela e atraso no desenvolvimento da linguagem
- r = 0,30: coeficiente de associação entre tempo de tela e problemas de regulação emocional
- Cerca de 1%: proporção da variabilidade comportamental e acadêmica explicada exclusivamente pela presença dos monitores
- 23 meta-análises: total de estudos agregados com dados de 2.817.252 participantes até 18 anos
Em entrevista concedida na terça-feira (29), Sheri Madigan explicou o alcance prático dessas taxas na rotina infantil. “A maioria das associações era relativamente pequena, como a maioria dos outros preditores do desenvolvimento infantil, mas pequena não significa sem sentido, especialmente quando falamos de uma exposição como o tempo de tela, que é quase universal na vida das crianças”, afirmou a pesquisadora.
Continue lendo: Lançamento de Toy Story 5 levanta alerta sobre impacto dos tablets na infância
Por que os celulares modernos geram efeitos mais intensos que mídias antigas?
Os levantamentos mais recentes examinados na revisão apresentaram associações negativas consideravelmente mais fortes do que os estudos realizados em décadas passadas. A equipe da Universidade de Calgary atribui essa mudança estrutural à evolução tecnológica dos smartphones, que oferecem portabilidade contínua, conectividade ininterrupta e recursos altamente interativos que diferem do consumo passivo proporcionado pelos televisores convencionais e pelos videogames antigos.
Saiba mais: Descobertas de estudo de oito anos esclarecem efeitos do tempo de tela em crianças
A ligação entre a exposição aos aparelhos e os problemas de saúde mental se revelou significativamente mais expressiva no uso de telefones celulares do que diante da televisão ou dos consoles de jogos. O abalo emocional também apareceu de forma mais acentuada entre adolescentes do que em crianças pequenas, reflexo do acesso contínuo aos dispositivos móveis durante períodos que deveriam ser destinados ao descanso noturno e ao convívio comunitário.
Como o tempo de tela influencia o desenvolvimento infantil?
Os pesquisadores ressaltam que os aparelhos eletrônicos não devem ser tratados como ferramentas puramente prejudiciais, visto que desempenham funções úteis no aprendizado escolar, no estímulo à criatividade e na comunicação. O obstáculo central reside no deslocamento de atividades biológicas e sociais fundamentais para a maturação dos indivíduos jovens, ocupando o espaço de rotinas indispensáveis para a saúde física e mental.
“A tecnologia é uma parte importante da vida das crianças e as tecnologias digitais podem ser ferramentas maravilhosas para apoiar a aprendizagem, a criatividade e a conexão das crianças. No entanto, elas também podem sufocar o que as crianças realmente precisam para prosperar, como sono, atividade física, conexão humana, aprendizado e brincadeira”, declarou Sheri Madigan em tradução livre. Ela recomendou medidas práticas dentro de casa, como organizar jantares diários sem eletrônicos por perto.
O histórico de pesquisas da Universidade de Calgary sobre dispositivos
As conclusões atuais complementam uma linha contínua de apurações conduzidas pela equipe canadense sobre o impacto dos equipamentos eletrônicos nas fases iniciais do crescimento humano. O grupo já havia acompanhado coortes anteriores para avaliar como o uso precoce de telas repercute nos primeiros anos do ensino formal e como eventos globais alteraram o comportamento doméstico.
- 2019: estudo longitudinal publicado no JAMA Pediatrics com 2.441 crianças demonstrou que o tempo de tela elevado aos 2 e 3 anos previa pior desempenho aos 3 e 5 anos em questionários de marcos de desenvolvimento
- Pandemia de covid-19: levantamento constatou um aumento de 52% no tempo médio de tela infantil e juvenil no mundo, o equivalente a cerca de 84 minutos adicionais por dia
- 28 de setembro de 2026: publicação formal do artigo com a revisão quantitativa abrangendo 64 países
- 29 de setembro de 2026: declarações públicas dos pesquisadores detalhando diretrizes para famílias e poderes públicos
Debate científico e limites sobre causa e efeito do uso de telas
Cientistas externos que avaliaram os resultados reforçam a necessidade de equilíbrio na interpretação dos números. Tatiana Íñiguez Berrozpe, professora sênior de sociologia e vice-decana da Faculdade de Educação da Universidade de Zaragoza, destacou a solidez do método, mas pontuou que o impacto real é reduzido. “As principais descobertas confirmam o que a pesquisa tem mostrado há anos e que coloca o atual pânico moral da mídia e social em torno da relação entre jovens e telas em perspectiva: há uma associação entre tempo de tela e indicadores mais baixos de saúde mental e desempenho acadêmico, mas é muito pequeno”, afirmou.
A professora de epidemiologia comportamental Esther van Sluijs, da Universidade de Loughborough, ponderou que o modelo não permite conclusões definitivas sobre plataformas particulares. “Não pode tirar conclusões robustas sobre tipos específicos de uso de telas, como o uso de redes sociais ou jogos, pois não havia dados suficientes para estudar isso”, declarou a especialista britânica, alertando sobre cuidados analíticos frente aos hábitos vigentes da juventude.
A revisão científica é correlacional e não comprova se o tempo diante das telas provoca diretamente as falhas no desenvolvimento ou se crianças com dificuldades preexistentes são mais expostas aos aparelhos. A equipe de Sheri Madigan e Elizabeth Al-Jbouri planeja agora investigar quais perfis infantis sofrem maior impacto com experiências digitais específicas e mapear a direção causal exata dessas relações comportamentais.
