De comida em tubo a refeições desidratadas: o que os astronautas comem no espaço?

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Astronautas faze refeição especial de Ação de Graças - Divulgação/NASA Foto: Astronautas faze refeição especial de Ação de Graças - Divulgação/NASA

A comida espacial consumida pelas tripulações em órbita reúne cerca de 100 opções alimentares e técnicas rigorosas de conservação desenvolvidas para ambientes de microgravidade. As refeições preparadas e analisadas para voos operacionais excluem o popular sorvete liofilizado vendido em lojas de museus, apontado por pesquisadores e veteranos como um produto puramente comercial que nunca compôs a dieta regular das naves.

O cardápio diário da tripulação na Estação Espacial Internacional é planejado para fornecer um mínimo de 2.500 calorias por pessoa, distribuídas em três refeições principais e lanches intermediários. Toda a formulação nutricional e o empacotamento das provisões ocorrem no Space Food Systems Laboratory, unidade instalada no Johnson Space Center da Nasa, em Houston, no estado norte-americano do Texas.

Space Food Systems Laboratory e os processos da comida espacial

O trabalho no laboratório de Houston envolve desde a formulação bioquímica dos pratos até a criação de barreiras físicas contra a contaminação ou degradação química em órbita terrestre. Como os astronautas não contam com fogões convencionais ou pias com água corrente aberta, qualquer manuseio exige invólucros estanques e processos que dispensem utensílios tradicionais. Pratos como bolo de carne com purê de batatas e sobremesas à base de creme de coco passam por processos de estabilização térmica em sachês lacrados, em formato semelhante às rações prontas para consumo de soldados militares, mas ajustados aos balanços de sódio, ferro e cálcio adequados ao voo espacial.

Os líquidos consumidos pela tripulação passam por uma logística específica para contornar a ausência de gravidade. As bebidas começam desidratadas em formato de pó dentro de embalagens especiais, seladas com uma válvula plástica unidirecional. A bordo da estação, os tripulantes conectam a válvula a uma fonte pressurizada para a injeção direta de água quente ou fria, reconstituindo o conteúdo sem permitir a dispersão de gotas pela cabine, o que danificaria painéis elétricos sensíveis.

Categorias técnicas da dieta na Estação Espacial Internacional

Os suprimentos enviados aos astronautas são categorizados conforme a tecnologia empregada para a sua conservação. Carnes e laticínios frequentemente passam por irradiação ionizante antes da vedação final, técnica que elimina micro-organismos e amplia o período de armazenamento sem refrigeração. Já os alimentos de umidade intermediária contêm teores reduzidos de água para impedir a proliferação de fungos e bactérias, sendo consumidos sem necessidade de hidratação prévia.

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Outro grupo reúne os alimentos em sua forma natural, prontos para ingestão direta, categoria que abrange castanhas, nozes, barras de chocolate e biscoitos comerciais que não soltam partículas ao serem partidos. Há também a classe dos itens reidratáveis, cujos compostos perdem a água em câmaras a vácuo na Terra e voltam ao estado pastoso ou líquido mediante adição de água pela tripulação. A variedade inclui ainda seleções culturais fornecidas pelos países parceiros do complexo orbital, como pratos à base de peixes em conserva consumidos pelos cosmonautas russos.

Operação e rotina nutricional dos astronautas em órbita

  • Necessidade calórica: cota mínima assegurada de 2.500 calorias diárias por astronauta em três refeições e lanches
  • Variedade de cardápio: 100 opções alimentares disponíveis para escolha dos tripulantes da Estação Espacial Internacional
  • Prazo de perecíveis: consumo recomendado de frutas e vegetais frescos em até 2 dias após a chegada a bordo
  • Sede das pesquisas: Space Food Systems Laboratory, localizado no Johnson Space Center, em Houston, no Texas
  • Premiação científica: US$ 650.000 concedidos pela Nasa a projetos inovadores de nutrição pelo Deep Space Food Challenge

Origem do mito do sorvete liofilizado na missão Apollo

O chamado sorvete espacial, apresentado em blocos desidratados que não derretem fora do refrigerador, surgiu de um desenvolvimento encomendado pela Nasa à fabricante Whirlpool no final da década de 1960. O objetivo era avaliar a viabilidade de uma sobremesa liofilizada para as missões tripuladas do programa Apollo. Contudo, os testes em ambiente de engenharia descartaram a adoção do produto: a textura seca e quebradiça gerava fragmentos minúsculos que poderiam flutuar pela cabine em queda livre, ameaçando filtros de ar, circuitos elétricos e os olhos dos tripulantes.

O ex-astronauta Walter Cunningham, que integrou a missão Apollo 7, desmentiu expressamente a presença do produto no cardápio de voo. Em declaração sobre o tema, Cunningham afirmou: “Nós nunca tivemos nada disso”, em tradução livre. Na década de 1970, empresas fornecedoras de suprimentos para acampamento adquiriram lotes do método e passaram a comercializar as barras em lojas de presentes de planetários e museus científicos, consolidando na cultura popular a crença de que a guloseima fazia parte da rotina dos astronautas.

A curadora do National Air and Space Museum, Jennifer Levasseur, também apontou a ausência de registros que comprovem o embarque da sobremesa seca em viagens espaciais. Em avaliação sobre o histórico do item no museu norte-americano, Levasseur disse: “Acho muito provável que nunca tenha voado”, em tradução livre. Na atualidade, as tripulações da estação orbital consomem sorvetes convencionais mantidos em consistência original graças a freezers científicos transportados em naves de carga comerciais.

Projetos do Deep Space Food Challenge e viagens para Marte

Na quinta-feira, 24 de setembro de 2026, a Nasa anunciou a conclusão de etapas do concurso Deep Space Food Challenge: Mars to Table, concedendo US$ 650.000 em premiações financeiras a equipes de pesquisadores focadas em soluções alimentares sustentáveis. O programa busca alternativas viáveis para a produção autônoma de calorias em viagens interplanetárias que durarão anos, superando o modelo atual da Estação Espacial Internacional, que depende de missões periódicas de reabastecimento lançadas da Terra.

A gerente de programa para Centennial Challenges no Marshall Space Flight Center da Nasa, Jennifer Edmunson, explicou o papel dos novos sistemas biológicos e tecnológicos. “O futuro da exploração espacial humana dependerá de sistemas alimentares inovadores, e é incrível quanta engenhosidade este desafio nos ajudou a identificar de participantes próximos e distantes”, declarou Edmunson, em tradução livre, ao detalhar as tecnologias vencedoras voltadas à jornada até Marte.

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Apesar da exclusão técnica do sorvete liofilizado das missões contemporâneas, não há confirmação oficial de qualquer registro de bordo da Nasa ou da agência espacial russa Roscosmos atestando se algum tripulante consumiu, de forma experimental ou individual, barras do doce liofilizado durante as primeiras fases dos voos orbitais tripulados.

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