Eclipse em Sobral comprovou a teoria da relatividade de Einstein

Eclipse solar total Foto: Eclipse solar total -kdshutterman/ iStock

Registros fotográficos obtidos em Sobral durante o eclipse solar total de 29 de maio de 1919 comprovaram a deflexão da luz prevista pela Teoria da Relatividade Geral formulada por Albert Einstein. O experimento realizado no município cearense validou os cálculos do físico sobre a influência gravitacional do Sol na trajetória luminosa de estrelas distantes e transformou o cientista em referência mundial.

“O Brasil foi protagonista deste importante feito: as fotografias registradas em Sobral confirmaram o valor previsto pela Teoria da Relatividade Geral sobre a deflexão da luz”, afirmou João dos Anjos, então diretor do Observatório Nacional, ao destacar o valor científico dos dados coletados na cidade.

Sobral e a comprovação matemática da curvatura da luz

Albert Einstein
Albert Einstein – Harmony Video Production / Shutterstock.com

A Teoria da Relatividade Geral previa que corpos de grande massa no espaço, como o Sol, curvam a malha espacial ao redor deles e desviam a trajetória da luz de corpos celestes vizinhos. Para constatar esse comportamento, era necessário registrar imagens de estrelas situadas no fundo do céu próximas à borda solar, visualização viável unicamente quando a Lua bloqueia totalmente a luminosidade direta do Sol durante um eclipse. O desvio angular previsto pelo modelo de Albert Einstein era de 1″,75 em segundos de arco, número que superava os 0″,87 previstos pelo modelo físico newtoniano clássico.

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Duas organizações britânicas, a Royal Astronomical Society e a Royal Society, articularam expedições simultâneas em pontos geográficos distintos para registrar o evento astronômico. Enquanto Arthur Eddington chefiava a comitiva na Ilha do Príncipe, na costa ocidental da África, os astrônomos britânicos Andrew Crommelin e Charles Davidson foram enviados ao sertão cearense com instrumentos ópticos. Ao mesmo tempo, uma equipe de geofísicos do Instituto Carnegie, dos Estados Unidos, instalou equipamentos no município cearense para medir variações no campo magnético da Terra.

O tempo fechado e a instabilidade climática na Ilha do Príncipe prejudicaram a captação das imagens na África, o que tornou as placas fotográficas feitas no Ceará essenciais para a confirmação científica. Em Sobral, apesar de o dia ter amanhecido com nuvens, o céu se abriu nos momentos que antecederam o alinhamento planetário, permitindo que os pesquisadores operassem os aparelhos durante os 5 minutos e 28 segundos de ápice da escuridão total provocada pelo eclipse.

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Dados técnicos e acervo histórico da expedição de 1919 em Sobral

  • Data da observação do fenômeno: 29 de maio de 1919
  • Local das medições principais: Praça do Patrocínio, em Sobral, Ceará
  • Duração da fase máxima da escuridão: 5 minutos e 28 segundos
  • Produção fotográfica principal: 19 fotografias tiradas com o telescópio principal britânico
  • Produção fotográfica secundária: 8 fotografias obtidas com lente menor pela equipe britânica
  • Previsão angular confirmada: desvio de 1″,75 segundo de arco formulado por Albert Einstein
  • Apresentação oficial dos resultados: 6 de novembro de 1919, em Londres

Indicação de Henrique Morize e montagem da comitiva nacional em Sobral

A escolha do sertão cearense para o trabalho de campo internacional partiu da orientação técnica de Henrique Morize, então diretor do Observatório Nacional. O astrônomo brasileiro identificou que Sobral se encontrava na linha exata da faixa de totalidade da sombra da Lua e oferecia vantagens climáticas em virtude das características do semiárido nordestino, com baixa umidade e céu aberto em períodos regulares do ano.

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Ao lado dos pesquisadores estrangeiros, a comissão do Observatório Nacional chefiada por Henrique Morize estabeleceu base na Praça do Patrocínio e realizou trabalhos espectrográficos independentes voltados ao estudo da coroa solar. Todo o material original obtido pela delegação brasileira, composto por placas de vidro com fotografias astronômicas, segue preservado e digitalizado nas dependências do Observatório Nacional.

As análises detalhadas das 19 fotografias do telescópio principal e das oito fotografias captadas pela lente secundária dos astrônomos britânicos foram finalizadas na Inglaterra meses após a viagem. A divulgação conjunta dos relatórios ocorreu em Londres em 6 de novembro de 1919, perante a Royal Society e a Royal Astronomical Society, oficializando o desvio da luz e consolidando a relatividade geral no meio acadêmico internacional.

Museu do Eclipse e memória científica instalada em Sobral

A preservação dos acontecimentos de 1919 resultou na estruturação de pontos de visitação cultural na Praça do Patrocínio, mesmo endereço utilizado pelas delegações pioneiras de astrônomos. Em 29 de maio de 1999, no octogésimo aniversário do teste científico, o município inaugurou o Museu do Eclipse em prédio desenhado no formato de duas meias-luas. O local exibe painéis informativos, réplicas de equipamentos ópticos e registros documentais do evento.

No centenário do teste prático da Teoria da Relatividade Geral, em 29 de maio de 2019, o complexo recebeu obras de melhoria e a instalação de uma estátua de Albert Einstein em espaço aberto, próxima ao planetário municipal que desenvolve ações educativas de astronomia para moradores e turistas. O conjunto arquitetônico do entorno preserva a Igreja do Patrocínio e os casarões do centro histórico, enquanto a cidade mantém temperatura máxima média de 35°C durante o segundo semestre.

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A conservação física dos marcos da expedição e a exibição contínua do acervo científico mantêm acessíveis ao público os detalhes do trabalho conjunto que reuniu o Observatório Nacional e as sociedades científicas britânicas no interior do Ceará.

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