Lã de ovelha protege geleira contra calor do verão na Suíça

Estudantes usam lã de ovelha para retardar o derretimento das geleiras na Suíça - Instagram Foto: Estudantes usam lã de ovelha para retardar o derretimento das geleiras na Suíça - Instagram

Coberturas feitas com lã de ovelha conseguem reduzir o derretimento do gelo no verão com a mesma eficácia dos geotêxteis plásticos, apontou um experimento pioneiro desenvolvido na Suíça. A proteção natural registrou índices de contenção do degelo de 50% a 70% em setores do Glaciar de Tsanfleuron, conhecido comercialmente como Glacier 3000, situado na comuna de Les Diablerets, no cantão de Vaud.

O teste foi conduzido por quatro mestrandos da Universidade de Lausanne em parceria com a organização não governamental ambiental Summit Foundation, por meio do projeto Keep It Wool. A iniciativa buscou criar uma alternativa biodegradável para substituir as lonas sintéticas que cobrem trechos de gelo nos Alpes e frequentemente soltam resíduos nocivos no ecossistema montanhoso.

Resultados do projeto Keep It Wool no Glaciar 3000

Os dados preliminares da pesquisa foram divulgados em Les Diablerets, após monitoramentos contínuos realizados a cada duas semanas ao longo da temporada mais quente do ano. A equipe constatou que as fibras naturais conseguiram suportar as variações de temperatura, os ventos em altitude e a umidade sem perder a integridade física necessária para isolar a superfície congelada.

“Estamos realmente muito felizes com os resultados”, declarou, em tradução livre, Timothée Steiner, gerente de projetos da Summit Foundation, durante a apresentação das conclusões do teste.

Acompanhe: Como microplásticos invadem o dia a dia e atitudes simples para diminuir a exposição

O mestrando Elliot Gaffiot, coautor do projeto pela Universidade de Lausanne ao lado de Maxime Galley, José Bastidas e Léonard Duloube, destacou a comprovação prática do material em campo. “Agora temos um resultado que podemos ver e até tocar”, afirmou Gaffiot, em tradução livre.

Até mesmo fornecedores da indústria de isolamento mantinham dúvidas antes da colocação das mantas em terreno alpino. “Eu pensei que não seria estável o suficiente”, declarou Niklaus Saegesser, representante da fabricante suíça de isolantes naturais Fisolan AG, empresa responsável pela confecção das peças testadas na geleira.

Instalação de 200 m² de lã e comparação com geotêxtil plástico

Os pesquisadores subiram ao Glaciar de Tsanfleuron em 22 de junho de 2026 para instalar dois protótipos de lã de 100 metros quadrados cada, totalizando uma área de 200 metros quadrados. Ao lado dessas peças, o grupo fixou uma cobertura sintética convencional de mesma metragem para avaliar o comportamento térmico lado a lado sob radiação solar direta.

Para assegurar que o material ficasse preso sem introduzir componentes estranhos ou descartáveis que pudessem poluir o sítio montanhoso, os integrantes do projeto recorreram ao reaproveitamento de insumos. As mantas foram presas à superfície do glaciar com sacos de malte reaproveitados preenchidos com brita e cascalho colhidos no próprio terreno circundante.

O trabalho de campo contou com suporte científico de pesquisadores da Rede Suíça de Monitoramento de Geleiras, a Glamos, além de apoio financeiro concedido pela Innosuisse, a agência governamental suíça voltada à inovação científica. A inspiração para a iniciativa surgiu a partir da exposição artística Glaciers Under Cover, organizada em Vevey pela professora de História da Arte Nathalie Dietschy, da Universidade de Lausanne, no início de 2025.

Especificações técnicas do experimento com lã de ovelha

A pesquisa de campo no Glaciar de Tsanfleuron reuniu dados métricos sobre densidade e capacidade de preservação:

  • Área coberta por protótipos de lã: 200 metros quadrados, divididos em duas mantas de 100 metros quadrados cada.
  • Densidades testadas: mantas de 400 gramas por metro quadrado e de 750 gramas por metro quadrado fornecidas pela Fisolan AG.
  • Nível de contenção do degelo: redução localizada entre 50% e 70%, com desempenho ligeiramente superior na manta de maior espessura.
  • Descarte pecuário nacional: entre 40% e 70% da lã de ovelha suíça termina incinerada, descartada ou compostada anualmente por falta de mercado.
  • Cobertura glacial existente: cerca de 0,02% da superfície total de geleiras na Suíça recebe mantas de proteção artificial.

Impacto ambiental dos microplásticos e aproveitamento de resíduos agrícolas

Estações de esqui nos Alpes utilizam há mais de duas décadas coberturas geotêxteis sintéticas produzidas com polipropileno e poliéster, prática conhecida pelo termo técnico de snow farming, para preservar neve e garantir a sustentação de pontos críticos onde circulam teleféricos durante o verão. O desgaste provocado pelo atrito constante, pelo vento forte e pela radiação ultravioleta fragmenta o tecido, gerando microplásticos que acabam carregados diretamente pela água do degelo para cursos d’água e vales habitados.

Diante do descarte volumoso da fibra animal na Suíça, onde rebanhos ovinos são mantidos para corte, produção leiteira e conservação de pastagens, o projeto abre um destino funcional para essa matéria-prima sem valor de venda. “Talvez possamos dar a ela um novo uso”, declarou Laurent Thurnherr, diretor e fundador da Summit Foundation, em tradução livre.

Limitações estruturais no combate ao derretimento de geleiras

Cientistas envolvidos nas medições glaciológicas reforçam que cobrir setores de gelo consiste exclusivamente em uma medida paliativa local e de custo elevado, projetada para manter pistas e estruturas operacionais de estações esportivas. O método não impede o recuo geral e contínuo das massas de gelo alpino, processo que depende da contenção global das emissões de gases de efeito estufa para desacelerar o ritmo de aquecimento da atmosfera terrestre.

A resistência da lã de ovelha após atravessar sucessivos invernos, congelamentos contínuos e novos períodos de verão ainda depende de acompanhamentos plurianuais para ser determinada com precisão. A viabilidade econômica e logística de processamento e transporte do material em escala ampliada para outras estações de esqui também segue sob análise dos pesquisadores da Universidade de Lausanne.

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